Querido classe média de direita (e falo com carinho, pois me dirijo também ao meu amado pai),

Você que repete que o Brasil precisa ser salvo do perigo vermelho —ou seja, das pessoas que querem invadir nossas casas, nossas terras, nosso pequeno acúmulo de capital. Você que se matou para comprar um pequeno imóvel (mesmo que ainda faltem 27 anos de financiamento) e um carro popular turbo que sobe montanhas melhor do que carro de gente metida. Você que rala desde os 17 anos e ajuda seus pais desde sempre.

Eu sei a raiva que você tem de esquerdista intelectual te ensinando o que é o Brasil só porque estudou filosofia. Eu sei a raiva que você tem de progressista esnobe te dizendo como funciona ser brasileiro só porque estudou ciências sociais. Eu sei o valor que você dá a poder, dinheiro, casa, carro. Eu sei o quanto você quer vencer, conquistar, ter sucesso, aparecer.

Ah! É tudo tão brega e feio para os bonzinhos barbudos progressistas com suas bibliotecas lotadas de livros e namoradas lotadas de pelos! Hoje eu sou uma mulher lotada de livros e pelos, mas entendo o seu bode. Todos os meus amigos progressistas (sobretudo os riquinhos) acham ridículo ter carro e se matar para pagar imóvel. Mas eu sei o que você sente quando paga a primeira prestação e pensa "ISSO AQUI É MEU". Eu sou capitalista, dinheirista, materialista. Eu quero competir, ganhar, acumular. Eu sou feita de desejos do campo direitista. Contudo, eu escolhi ser de esquerda.