Presidente aproveita tensão entre Trump e Reino Unido para retomar tema caro a argentinos e tenta conter perda de apoio 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Argentinos se manifestaram sobre as Malvinas após vitória sobre a Inglaterra, na Copa do Mundo — Foto: AP/Rebecca Blackwell O presidente da Argentina, Javier Milei, está tentando aproveitar uma crise entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o Reino Unido para tentar reverter o desgaste de seu governo. Com a popularidade em queda, Milei voltou a colocar as Ilhas Malvinas — Falklands, para os britânicos — no centro do debate político e entre as prioridades de sua agenda. Em entrevista à emissora britânica GB News, Trump foi questionado sobre se os EUA apoiariam o Reino Unido caso a Argentina avançasse em sua reivindicação sobre as Malvinas. O presidente americano lembrou a guerra de 1982, quando os britânicos retomaram o controle das ilhas após a ocupação argentina, mas evitou declarar explicitamente que Washington apoiaria Londres. “Eu estava lá quando ocorreu a primeira guerra. Isso foi há muito tempo e acompanhei o conflito muito atentamente. Vocês se saíram muito bem. Recuperaram as ilhas com bastante firmeza, mas isso já ficou muito para trás”, afirmou Trump. Na sequência, o presidente americano passou a criticar o governo britânico pela falta de apoio à campanha militar dos EUA contra o Irã. Segundo Trump, o ex-primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, não atendeu a um pedido para enviar navios à região. A retomada do debate sobre soberania do arquipélago, em disputa entre Argentina e Reino Unido desde o século 19, ganhou força depois de Trump afirmar na segunda-feira que os EUA estão reavaliando sua posição histórica sobre a questão. “Eu sempre reviso cada posição. Essa é apenas uma de muitas”, disse Trump a repórteres no Salão Oval. Para o cientista político argentino Sergio Berensztein, os comentários de Trump sobre as Malvinas devem ser vistos mais como parte da disputa de Trump com o Reino Unido, em meio a divergências sobre o financiamento da Otan e da falta de apoio na guerra do Irã, do que como uma mudança concreta na posição dos EUA sobre a soberania das ilhas. Ainda assim, a declaração de Trump abre uma oportunidade para Milei explorar uma questão que há décadas mobiliza o nacionalismo argentino, justamente em um momento de maior fragilidade política. A desaprovação do governo chegou a 58,8% em julho, segundo pesquisa da Zentrix Consultora, aumentando a importância de pautas capazes de mobilizar sua base e ampliar seu apoio entre os eleitores. Apesar do relativo sucesso no combate à inflação nos últimos anos, o governo de Milei é acusado de causar uma paralisia econômica que empobrece o país e endivida a população. “Ele deve entender muito de finanças, porque seu patrimônio pessoal aumentou 37% em dólares em um ano, e ele endividou a Argentina nesse mesmo ano. Por que ele não usa os mesmos recursos para o nosso país que usa para si mesmo?”, disse ao Clarín, ontem, Guillermo Moretti, vice -presidente da principal entidade empresarial da indústria, a União Industrial Argentina (UIA) — refletindo a avaliação do setor produtivo e de parte da população sobre Milei. “A questão das Malvinas está muito presente na sociedade argentina, está na Constituição e é uma reivindicação sobre a qual há consenso em todo o sistema político”, diz Berensztein. “É uma questão muito valorizada pela sociedade do país.” Após os comentários de Trump, Milei descreveu a questão das Malvinas como “a causa mais importante e sagrada que temos como argentinos” e realizou ontem um pronunciamento televisionado incomum sobre o assunto. A questão também se cruza com o desafio de Milei com sua vice-presidente, Victoria Villarruel, que tornou-se uma potencial adversária eleitoral para 2027. Villarruel é representante do setor mais nacionalista da direita argentina e parte da coalizão que levou Milei ao poder. “Milei precisa manter essa base mobilizada, pois são parte dos seus votos”, afirma Berensztein. Desde que assumiu o governo, Milei não abandonou a reivindicação argentina sobre as Malvinas, mas sustenta que a recuperação do território deve ocorrer exclusivamente por meios diplomáticos. Ao mesmo tempo, ampliou os canais de diálogo com o Reino Unido, ação que recebeu críticas da oposição por se distanciar do tom mais combativo adotado por governos anteriores. Recentemente, o interesse em torno do tema também ganhou força após a semifinal da Copa do Mundo entre Argentina e Inglaterra, quando jogadores argentinos exibiram uma bandeira com a inscrição “As Malvinas são argentinas” após a partida, episódio que provocou sanções da Fifa. “A questão das Malvinas também está muito presente no sentimento popular, com a ajuda do futebol, e, graças a isso, tornou-se mais uma vez um tema muito presente na conversa pública”, diz Berensztein. O ministro das Relações Exteriores, Pablo Quirno, insistiu na segunda-feira que a abordagem “diplomática” deles em relação às ilhas era mais eficaz do que a dos governos peronistas, que, segundo ele, era “protesto pelo protesto”. Em resposta aos comentários de Trump, o porta-voz do governo britânico afirmou que os habitantes das Ilhas Malvinas “são britânicos e têm o direito de determinar seu próprio futuro”. “Os habitantes das ilhas expressaram repetidamente o seu desejo de permanecerem um território ultramarino britânico e o nosso compromisso para com eles é inabalável”, completou.
Em meio a desgaste, Milei repõe Malvinas em sua agenda política
Presidente aproveita tensão entre Trump e Reino Unido para retomar tema caro a argentinos e tenta conter perda de apoio















