Para BNDES, desenvolvimento de projetos exige diferentes tipos de “blended finance” e engajamento efetivo das instituições financeiras 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 A crise climática demanda investimentos maciços na transição para a energia verde. O custo para o Brasil atingir a neutralidade das emissões líquidas dos gases de efeito estufa foi calculado em US$ 6 trilhões pela BloombergNEF. Durante a COP30, em 2025, a Febraban reconheceu que o setor bancário tem papel fundamental na migração para as fontes limpas e, além de contribuir para a mobilização do capital, precisa consolidar fontes permanentes de financiamento dos projetos necessários. Desafios como a escassez de capital paciente e baixa bancabilidade dos projetos, porém, estão travando os avanços. Para Priscila Specie, assessora da diretoria de infraestrutura, transição energética e mudança climática do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a transição irá pedir combinações dos diferentes tipos de “blended finance” (financiamento misto) existentes e engajamento efetivo dos atores na causa. Ela cita como exemplo o cofinanciamento de R$ 505 milhões do banco de fomento, no ano passado, para a instalação de uma refinaria de combustível renovável de aviação (SAF) a partir do óleo da macaúba, na Bahia, por meio da linha BNDES Finem. O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e a Corporação Financeira Internacional (IFC), braço do Banco Mundial voltado ao setor privado nos países emergentes, também fizeram aportes. “Tratou-se de um projeto que envolvia muito risco e inovação, mas foi bancável. A usina completa custa US$ 1,5 bilhão, então, houve um mosaico importante de recursos de cofinanciadores como instituições multilaterais, fundos soberanos e bancos privados, além da participação do BNDES” exemplifica Specie. Ainda em relação ao banco de desenvolvimento, o Fundo Clima se destaca como principal instrumento concessional usado em estruturas de blended finance para iniciativas no âmbito da redução das emissões - somente neste ano foram previstos R$ 27 bilhões de funding. Entre as instituições privadas, o BTG Pactual vem ampliando suas linhas verdes nos últimos anos. A carteira de crédito soma R$ 29 bilhões em operações consideradas sustentáveis. O banco foi selecionado em dois leilões do programa federal Eco Invest Brasil com projetos voltados para o restauro de vegetação nativa e a bioeconomia amazônica. “O programa traz um capital mais competitivo, o que tem contribuído para a transição ecológica”, diz Rafaella Dortas, chefe de ESG do BTG Pactual. O Eco Invest contempla 41 iniciativas país afora e mobilizou R$ 140 bilhões até hoje. O “blended finance” é uma das suas principais linhas financeiras. No eixo da transição, os incentivos vão, sobretudo, para a expansão de plantas de biocombustíveis, de renováveis e manufatura de equipamentos. No último leilão, realizado em maio, o Banco do Brasil ficou com quase metade da fatia mobilizada. Os principais bancos tradicionais do país já foram contemplados ao longo dos quatro certames. Em agosto, a divisão de asset management do BTG Pactual lançou um fundo de índice, em parceria com o Grupo BID, para ampliar o acesso de investidores de varejo a ativos de renda fixa alinhados ao desenvolvimento da região. O ETF, negociado na B3, é composto por bonds, debêntures e letras financeiras, além de títulos do Tesouro Nacional. Debêntures do segmento da energia elétrica são elegíveis para compor o produto focado na proteção da Amazônia Legal. Na visão da especialista Camila Ramos, fundadora da Clean Energy Latin America (Cela), um dos instrumentos mais eficientes para viabilizar os projetos da transição têm sido os contratos de compra e venda de longo prazo (PPA, do inglês power purchase agreement). “As fontes limpas estão entre as mais baratas do Brasil, assim como na maior parte do mundo. Os preços competitivos estimulam a compra e a celebração dos contratos que, por sua vez, resultam na viabilização das iniciativas”, explica Camila Ramos, fundadora da boutique de assessoria estratégica com sede em São Paulo. De acordo com dados da Cela, 217 contratos do tipo envolvendo geração solar e eólica foram firmados desde 2013. “Em 2025, vimos um crescimento muito forte dos financiamentos em dólar com contratos cada vez mais sofisticados. Inclusive para fugir do risco de câmbio, as fontes sustentáveis de geração se tornam opções mais competitivas”, emenda. Em 2025, a porcentagem da energia comprada em moeda estrangeira no âmbito dos PPAs bateu 41%.