Transição energética demandaria US$ 5,4 trilhões até 2050 para zerar emissões líquidas no Brasil, estima BloombergNEF 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O investimento em transição energética para que o Brasil zere as emissões líquidas até 2050 é estimado em US$ 5,4 trilhões pela BloombergNEF, empresa de pesquisa e análise especializada nesse mercado. Para especialistas, o desafio não está no tamanho da cifra, mas na construção da estrutura adequada para financiar projetos em diferentes estágios de maturidade. Principalmente em tecnologias emergentes, ainda sem escala comercial comprovada, apontam o papel do Estado e de organismos multilaterais para reduzir riscos, baixar o custo do capital e criar condições para atrair e catalisar o capital privado. A biorrefinaria da Acelen, por exemplo, captou R$ 503 milhões do BNDES em maio para transformar óleos vegetais em combustível sustentável de aviação (SAF) e diesel renovável (HVO). O financiamento público representa cerca de 7% dos R$ 7 bilhões a serem investidos, dentro de uma estrutura de longo prazo que reúne 12 instituições financeiras, lideradas por HSBC e International Finance Corporation (IFC). No desenho, o Estado atua por meio de instrumentos de crédito, estruturação de projetos e mobilização de capital privado. A Brazil Climate and Ecological Transformation Investment Platform (BIP), lançada em 2024, conecta recursos públicos, bancos de desenvolvimento e investidores privados. O Fundo Clima, do BNDES, aprovou R$ 6,1 bilhões para transição energética em 2024, associados a R$ 16,1 bilhões em investimentos totais, e outros R$ 5,29 bilhões em 2025. Já o Eco Invest Brasil, do Ministério da Fazenda, mobilizou R$ 55,9 bilhões, em quatro leilões, para projetos de transição energética. Segundo Ivan Oliveira, subsecretário de Financiamento ao Desenvolvimento Sustentável do Ministério da Fazenda, uma parcela desses recursos vem de fundos multilaterais, o que pode reduzir de cerca de 5% para 3,5% ao ano o custo de empréstimos em dólar. À medida que os projetos amadurecem, o mercado de capitais ganha espaço. Debêntures incentivadas e de infraestrutura, instrumentos de dívida de longo prazo que permitem captação diretamente com investidores para financiar projetos de infraestrutura, diversificam as fontes de recursos além dos bancos. As incentivadas oferecem benefício fiscal ao investidor, enquanto as debêntures de infraestrutura concedem o benefício ao emissor. De acordo com a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), as debêntures somaram R$ 169,8 bilhões em emissões no primeiro semestre de 2026. O setor de energia elétrica respondeu por 52,9% desse volume. Segundo Gabriel Clemente, líder de estratégias de mercado e riscos da PSR, apesar de o crédito de longo prazo para infraestrutura ter crescido nos últimos anos, o volume financiado para geração eólica e solar centralizada caiu cerca de 35%. O aumento da percepção de risco, associado a cortes de geração, custo de modulação e risco de submercado, afirma ele, faz com que financiadores elevem o spread, reduzam a alavancagem ou deixem de analisar novos projetos. “Risco não se elimina, se transfere e se precifica”, afirma. Os títulos verdes também ampliam as possibilidades de financiamento. São papéis de dívida cujos recursos devem ser direcionados a projetos, ativos ou atividades que atendam a critérios ambientais. A Climate Bonds Initiative, organização que estabelece padrões para esse mercado, contabiliza US$ 35,39 bilhões em emissões de títulos verdes alinhados no Brasil desde 2015. O volume anual passou de US$ 3 bilhões em 2020 para US$ 3,85 bilhões em 2026, considerando apenas os seis primeiros meses do ano. Para Leonardo Gava, gerente do programa brasileiro da Climate Bonds Initiative, um maior avanço depende de definir com clareza quais projetos podem ser financiados por esses instrumentos para ampliar a participação privada na transição. “Não dá para cair na ilusão de que isso vai ser feito só pelo setor público ou só pelo setor privado. Os dois lados vão ter que segurar a conta”, afirma Gava.
Papel do Estado é reduzir risco em créditos para transição energética, dizem especialistas
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