Com inflação e juros mais altos em diversas nações e papel do dólar como reserva global em xeque, economistas dizem que país precisa perseguir ajuste nas contas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O Departamento do Tesouro dos EUA, em Washington: dívida pública americana alcançou US$ 40 trilhões — Foto: Eric Lee/Bloomberg Os EUA, assim como outras economias desenvolvidas, estão se juntando ao Brasil no desequilíbrio crônico das contas do governo. O quadro de contas no vermelho se agravou desde a pandemia: a dívida pública bateu em US$ 40 trilhões e, nas últimas semanas, os juros dos títulos atingiram os maiores níveis em duas décadas, espalhando turbulências pelos mercados globais. As consequências são, no mínimo, inflação e juros mais altos por todas as partes, enquanto a posição do dólar como reserva global fica cada vez mais em xeque, dizem economistas ouvidos pelo GLOBO. Seria um motivo a mais para perseguir um ajuste no Brasil. Um mundo de inflação e juros mais altos também pressiona preços e custo do crédito por aqui. Isso porque os treasuries, como são chamados no mercado os papéis da dívida pública americana, são o piso de referência para a renda fixa no mundo todo. Nos pregões dos últimos dias, a taxa dos títulos de 30 anos voltou a rondar níveis pouco acima de 5% ao ano, o mais alto em duas décadas, que foi atingido duas semanas atrás, levando o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, a anunciar um aumento nas intervenções. Intervenção na gestão da dívida Segundo a economista Mônica de Bolle, pesquisadora do Instituto Peterson de Economia Internacional, baseado em Washington, esse intervencionismo do governo Donald Trump na economia, ao arrepio da tradição americana, tem jogado lenha na fogueira nos mercados de títulos. — Esse fundo não deveria ser usado para fortalecer ou enfraquecer o dólar, mas, já de uns tempos para cá, vemos o Tesouro americano meio que querendo usá-lo para outros propósitos, como o manejo do valor do dólar no mercado, o que tem a ver com o princípio do governo Trump — disse Mônica, que também é conselheira do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri). Dólar fraco X dólar forte — A imposição das tarifas gera uma repercussão nos mercado de câmbio. O se iene enfraqueceu e o dólar se fortaleceu por causa das tarifas. Tanto japoneses quanto americanos ficaram insatisfeitos. Aí entrou o Bessent com a operação — afirmou Mônica. As tarifas fortalecem o dólar, ressaltou a economista do Instituto Peterson, mas as intervenções do Tesouro americano acabam interferindo no mercado de treasuries, que fica “sem chão”, espalhando a falta de referência para os títulos públicos e privados dos demais países: — Isso começa a criar especulações sobre a capacidade de financiamento das dívidas desses países, já que os mercados de títulos passam a funcionar de uma forma meio desordenada. Tem um problema de gestão da dívida. Pouca poupança para tanto financiamento Esse problema reforça as desconfianças provocadas pelos desequilíbrios nas contas do governo — e pelo fato de que faltam perspectivas de um ajuste nos EUA, mesmo que o Partido Democrata volte à Casa Branca. É um processo semelhante ao que tem ocorrido na dívida pública no Brasil: quando investidores começam a desconfiar da capacidade do governo em honrar com o pagamento dos títulos, passam a exigir juros maiores. As taxas estão ainda mais pressionadas porque, na visão do economista-chefe da XP Investimentos, Caio Megale, há um desequilíbrio, nos mercados globais, entre a oferta de ativos para investimento e a demanda sustentada por parte dos investidores, que detêm a poupança: — Só os EUA, se não me engano, têm mais de US$ 4 trilhões em dívida para rolar nos próximos 12 meses. E, no ano que vem, as big techs vão investir cerca de US$ 1 trilhão, disputando o bolso dos investidores com os tesouros nacionais. A consequência é juro alto e crescente. O Brasil não fica de fora dos mercados globais, pelo contrário. Juro alto e crescente nos títulos americanos significa que o piso para as taxas por aqui sobe junto. Tesouro dos EUA vai dobrar recompra de títulos de longo prazo: mudança passa a valer em 9 de setembro Hoje, com a taxa básica Selic definida pelo Banco Central (BC) em 14% ao ano, e os juros de mercado ainda mais acima, a diferença para o que é praticado nos países ricos é grande. Se o piso dos mercados desenvolvidos sobe, o Brasil terá menos espaço para reduzir. 'Estagflação' ou crise fiscal? Nessa toada, Mônica, do Instituto Peterson, vê espalhado pelo mundo um cenário de “estagflação”, com o baixo crescimento econômico se juntando a juros e inflação altos. Para emergentes, como o Brasil, é um quadro negativo, pois são economias que precisam crescer aceleradamente para elevar a renda per capita e alcançar o nível das nações desenvolvidas. Numa visão ainda mais pessimista, inflação e juros maiores são só o começo. Kenneth Rogoff, professor da Universidade Harvard e ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), vê o mundo mergulhando numa crise fiscal global nos próximos cinco anos, por causa do crescente rombo nas contas dos EUA, ladeado pelo Japão e por países europeus, como disse ao GLOBO ano passado e como sustenta em seu mais recente livro. Ao analisar a disparada recente de juros da dívida pública americana, Rogoff disse que uma crise é inevitável porque juros altos e endividamento não são suficientes para levar ao público — e aos eleitores — o senso de urgência sobre a importância de se ajustar as contas do governo, tanto nos EUA quanto em outros países. — O nível da dívida no qual estamos já é difícil. (Mas) A crise vem quando um choque acontece e não estamos resilientes. A guerra no Irã é um minichoque, na verdade, comparado ao que poderá acontecer — disse Rogoff, em entrevista à Bloomberg TV na semana passada, durante o Simpósio Econômico de Jackson Hole, evento anual organizado pelo Fed, nos EUA, com acadêmicos e autoridades. Para ele, possíveis choques detonadores de uma crise fiscal poderiam ser “uma guerra cibernética, algo ligado à inteligência artificial (IA) ou um conflito envolvendo China e Taiwan”. 'Fly to quality'? Que 'quality'? Num quadro desse, preços e juros disparariam mundo afora, principalmente nos emergentes, disse Megale, da XP. Países com contas equilibradas poderiam atrair os fluxos globais de investimento, daí a importância de o Brasil se ajustar. Já o que ocorreria com o dólar é uma incógnita, ponderou o economista. Em crises financeiras, investidores tendem a correr para os ativos financeiros de menor risco, que atualmente são os treasuries, em dólar. É o movimento conhecido como “fly to quality” (“voo para a qualidade”, em tradução livre). — Nesse caso, não teria quality. Os investidores estão pessimistas com o dólar, mas não sabem para onde ir. Estão pessimistas com o euro e com o iene. Mônica de Bolle, que trabalhou com Rogoff no FMI, lembrou que o acadêmico já tem essa visão mais pessimista “há muito tempo”, mas ela vê como improvável uma crise maior nos próximos anos, porque o dólar seguirá com seu papel de principal reserva de valor internacional. Os bancos centrais podem diversificar suas reservas, mas nem o euro, nem o yuan, da China, teriam condições de assumir essa função agora. Corrida pelo ajuste Mesmo assim, para a economista, o Brasil tem que reagir logo, para ajustar as contas do governo e criar condições para juros mais baixos enquanto o cenário de “estagflação” não se agrava. Nisso, Mônica está pessimista, pois o país precisa restaurar sua “governança fiscal”. Isso passa por um rearranjo com o Congresso, que não pode ter tamanha ingerência sobre o Orçamento como tem hoje, com as emendas impositivas e valor tão elevado. Sem governança, independentemente do governo a partir de 2027, o ajuste nas contas será impossível. Megale, da XP, reconheceu a dificuldade, mas ponderou que “a vantagem é que ainda dá tempo para a gente arrumar a casa”.