Trump usa tarifas como pressão sobre seus parceiros; como o Brasil pode lidar com isso?O colunista Marcos Jank observa que o País precisa melhorar as relações, 'machucadas', para buscar ampliar a lista de exceções, enquanto diversifica mercados. Crédito: Edição: Ariel LiborioGerando resumoO Departamento do Tesouro do governo Trump tem se tornado cada vez mais intervencionista em seus esforços para influenciar as forças dos mercados globais a fim de reduzir o custo de vida nos Estados Unidos. Mas está descobrindo que o sucesso não vem de forma tão fácil.Essa postura assertiva surge enquanto a dívida bruta dos EUA ultrapassa US$ 40 trilhões, como ocorreu na quarta-feira, 19, um marco impulsionado em grande parte pelo aumento dos juros pagos aos investidores que detêm títulos do Tesouro americano – papéis que o governo emite para ajudar a financiar os gastos da máquina pública. As altas taxas de juros e os preços elevados se combinaram para prejudicar a opinião dos eleitores sobre a gestão da economia pelo presidente Donald Trump.O secretário Scott Bessent optou por dobrar o montante da dívida pública que o Tesouro tem permissão para recomprar dos investidores Foto: Jacquelyn Martin/APPUBLICIDADENesta semana, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, tomou uma medida surpreendente para acalmar o mercado de títulos, que se encontrava nervoso. Ele anunciou que o Departamento do Tesouro dobraria o montante da dívida pública que tem permissão para recomprar dos investidores. O aumento tinha como objetivo limitar a alta dos rendimentos dos títulos públicos de longo prazo, como forma de conter os custos dos empréstimos.“Parte disso é um sinal para mostrar que acreditamos que essas taxas não refletem os fundamentos da economia”, disse Bessent em entrevista à CNBC na quinta-feira.Ao explicar que está disposto a ampliar o programa de recompra, Bessent argumentou que os investidores estão interpretando mal o mercado. “Estamos tentando manter o mercado em equilíbrio”, acrescentou.Essas taxas – que representam o que os investidores exigem receber para comprar títulos – atingiram seus níveis mais altos desde 2007. As taxas, que se movem inversamente aos preços dos títulos, caíram após o anúncio de Bessent na quarta-feira. Nesta quinta-feira, 20, as taxas voltaram a subir, ressaltando o desafio dessas intervenções, dadas as questões fundamentais que estão deixando os investidores em títulos nervosos.PublicidadeBessent vem tentando outras abordagens para reduzir os custos dos empréstimos. O Departamento do Tesouro vem emitindo mais títulos de curto prazo, com vencimento em menos de um ano, para ajudar a manter as taxas de juros mais baixas. A estratégia é semelhante à utilizada pela antecessora de Bessent, Janet Yellen. Em 2024, Bessent criticou Yellen por adotar essa abordagem, alegando que ela estava usando o Departamento do Tesouro para flexibilizar as condições financeiras da economia antes da eleição presidencial.Antes, Bessent já tinha intervindo nos mercados cambiaisEsta não é a primeira intervenção de Bessent. Neste mês, ele fez uma rara intervenção nos mercados cambiais para sustentar o iene, que vinha se enfraquecendo. A compra da moeda japonesa teve como objetivo ajudar o Japão a evitar a venda de seus títulos do Tesouro dos EUA para impulsionar o valor do iene. Tal medida teria inundado ainda mais o mercado com títulos do Tesouro americano, o que teria elevado as taxas, já que a oferta superaria a demanda.Publicidade“Acho que é tanto econômico quanto político”, disse Nellie Liang, subsecretária de finanças domésticas no Departamento do Tesouro durante o governo Biden. “Eles acham que essas taxas mais altas são um problema.”Na esteira da medida tomada na quarta-feira, os investidores ficaram se perguntando o que virá a seguir, à medida que as taxas continuam subindo. Parte do problema de Bessent, segundo Sophia Drossos, economista do fundo de hedge Point72, é que “nem todos os fatores que impulsionam o aumento dos rendimentos de longo prazo estão sob controle direto do Tesouro”.Por que os juros dos títulos do Tesouro subiram?Os rendimentos dos títulos do Tesouro subiram devido a uma combinação de fatores. A situação fiscal dos EUA parece estar continuamente piorando, e não melhorando. As preocupações com a inflação continuam persistentes em meio à guerra contínua com o Irã e ao ceticismo sobre se Kevin Warsh, novo presidente do Federal Reserve (equivalente ao Banco Central), levará adiante os aumentos das taxas de juros caso a inflação não continue diminuindo. Um influxo de novas dívidas emitidas por empresas de tecnologia para financiar a expansão da inteligência artificial também entrou no mercado de títulos.PublicidadePUBLICIDADEO Departamento do Tesouro, ao anunciar a medida na quarta-feira, deixou em aberto a possibilidade de ampliar suas intervenções conforme necessário, sugerindo que as recompras de títulos poderiam se tornar uma ferramenta mais ativa caso os mercados entrem em desordem.Em determinado momento, recompras de volume suficiente poderiam ter um impacto duradouro, alterando fundamentalmente a quantidade de oferta disponível para os compradores.Thomas Simons, economista-chefe para os EUA da Jefferies, estima que recompras na faixa de US$ 6 bilhões a US$ 8 bilhões teriam esse efeito, mas representariam um aumento significativo no envolvimento do Tesouro no mercado. “Nesse ponto, o mercado começaria de fato a perceber que a duração ficaria um pouco mais escassa com o tempo”, disse ele, referindo-se aos títulos de prazo mais longo.PublicidadeO fator de incerteza associado à detenção de títulos de prazo mais longo em detrimento dos de prazo mais curto, conhecido como “prêmio de prazo”, provavelmente cairia, disse Simons, o que se traduziria em rendimentos ajustados pela inflação mais baixos de forma sustentada.Quais serão os próximos passos da política econômica dos EUA?A forma como o Fed definirá sua política a partir de agora também terá um papel importante na determinação de se haverá ou não uma nova alta nas taxas de longo prazo que exija novas intervenções do Tesouro.Autoridades do Fed estão debatendo ativamente se será necessário aumentar as taxas de juros em sua próxima reunião, em meados de setembro. A decisão depende, em grande parte, da trajetória da inflação após dois relatórios relativamente favoráveis, que mostraram uma melhora modesta nas pressões sobre os preços desde junho. Mais um mês de dados moderados ajudaria a amenizar um pouco da urgência em relação ao aumento das taxas, mas não eliminaria totalmente a possibilidade de que isso ocorra ainda este ano.Muitos autoridades já se manifestaram a favor de um aumento das taxas, tendo ficado impacientes com o fato de a inflação ter ultrapassado a meta de 2% do Fed por cerca de meia década. Qualquer indício de que o progresso em direção a essa meta esteja mais uma vez estagnando provavelmente levará outros a se juntarem a esse grupo.Warsh também deve buscar políticas que reduzam a carteira de US$ 6,8 trilhões do Fed, composta por títulos públicos e títulos lastreados em hipotecas, tendo defendido um “balanço patrimonial mais enxuto e rigoroso” em uma audiência no Congresso no mês passado.Um balanço patrimonial menor, dependendo de como for conduzido, poderia colocar o Fed “em conflito” com o Tesouro, disse Blake Gwinn, chefe de estratégia de taxas dos EUA na RBC Capital Markets. “Temos Bessent, que obviamente preferiria que os rendimentos de longo prazo não subissem, e, por outro lado, temos Warsh sugerindo agora que vai endurecer a política monetária, elevando os rendimentos de longo prazo por meio de ações no balanço patrimonial.”PublicidadeLeia tambémDívida dos EUA atinge US$ 40 trilhões enquanto a onda de endividamento do país continuaA estagflação, o flagelo da década de 1970, está de volta aos Estados Unidos; leia análiseComo o governo dos EUA tenta conter a disparada nos juros dos títulos do TesouroWarsh, no entanto, pediu mais coordenação entre o Tesouro e o Fed, sugerindo que o presidente do banco central não agirá unilateralmente. Uma oportunidade potencial poderia surgir se o Fed alterasse a composição de seu balanço patrimonial, de modo a deter, ao longo do tempo, mais títulos de curto prazo em vez de títulos de longo prazo. Isso corresponderia à preferência de Bessent pela emissão de letras do Tesouro, que vencem em um ano ou menos. Na esteira do anúncio de recompra feito por Bessent, os investidores já estão se preparando para a possibilidade de que ele reduza o volume de dívida de longo prazo a ser emitida daqui para frente.Vale ler tambémBrasil é uma potência agroambiental à espera de uma visão de paísO que o poder de escolha do consumidor revela sobre a crise da Casas BahiaVenda da Rumo entra na fase final com Grupo México, Cofco e Bunge no páreo