Enquanto candidato do PL prepara ofensiva para associar presidente a ministro do STF, petistas defendem mudanças no sistema político e judicial e dizem que ninguém está acima da lei 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Flávio Bolsonaro e Lula montam estratégia diante da crise — Foto: Maria Isabel Oliveira e Brenno Carvalho / Agência O Globo A crise envolvendo o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e o banqueiro Daniel Vorcaro virou um dos principais focos da campanha presidencial, a pouco mais de um mês do primeiro turno. Enquanto Flávio Bolsonaro (PL-RJ) prepara uma ofensiva para associar politicamente o magistrado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e transformar as revelações do caso Master em munição eleitoral, a campanha petista tenta se afastar do desgaste e passou a defender uma agenda de reforma do Judiciário. A estratégia do QG de Flávio ainda está em elaboração, mas a intenção é levar à propaganda eleitoral a associação entre Lula e Moraes. A avaliação é que o episódio pode ser simplificado para o eleitor e apresentado como parte de uma narrativa mais ampla sobre a proximidade entre o governo petista e integrantes do Supremo. A campanha não pretende concentrar a propaganda nos detalhes jurídicos do caso Master. O objetivo é transformar as revelações envolvendo Moraes e Vorcaro em argumento político contra Lula, dada a proximidade até pessoal entre o petista e o ministro do Supremo. Apesar de Moraes não ter sido escolhido por Lula, a campanha de Flávio considera possível explorar politicamente a relação. Outra avaliação de auxiliares do senador é que a eleição também deve ser apresentada como uma escolha sobre a composição futura do Supremo. Ao longo do mandato que começa em 2027, três ministros — Luiz Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes — chegarão à aposentadoria compulsória. O mandato de Gilmar vence em 30 de dezembro de 2030, dias antes da posse do novo presidente. Há ainda a vaga aberta pela aposentadoria de Luís Roberto Barroso, que permanece sem preenchimento após o Senado rejeitar a indicação de Jorge Messias. Essa associação já começou a aparecer no discurso de dirigentes e vozes influentes dentro do PL. O líder do partido na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), afirmou que a oposição pretende impedir uma tentativa de Lula de se distanciar de Moraes durante a campanha. — Todo o Brasil sabe da estreita relação que existe entre eles e não adianta, por ser um período eleitoral, agora querer descolar a imagem. Nós vamos sempre, como oposição, relembrar todas as decisões, na nossa avaliação, tendenciosas do ministro Alexandre de Moraes, quando ministro do TSE, e as estreitas relações dele com o presidente Lula — afirmou Sóstenes. No Senado, o líder Carlos Portinho (PL-RJ) disse que a ofensiva contra o ministro havia começado com Flávio e que continuaria. — Não vamos parar. Os fatos são muito graves — disse Portinho. O próprio candidato bolsonarista elevou o tom contra Moraes depois da divulgação das mensagens extraídas do celular de Vorcaro. Na terça-feira, no plenário do Senado, defendeu o impeachment do ministro e afirmou que ele não teria condições de continuar no STF. Nesta quarta-feira, em Porto Alegre, voltou a criticá-lo e convocou apoiadores para o ato de 7 de Setembro na Avenida Paulista, que terá entre suas bandeiras o mote "Fora Moraes". Para tentar se distanciar de Moraes, a campanha à reeleição de Lula levará ao horário eleitoral o discurso “que ninguém está acima da lei” com a defesa de mudanças do sistema político e judicial brasileiros. Por enquanto, o próprio presidente não deve aparecer no horário eleitoral falando sobre as suspeitas contra o Supremo. Esse papel ficará com locutores. Ainda segundo auxiliares, Lula deve vocalizar diretamente a defesa ampla das investigações quando vierem à tona informações que permitam um diagnóstico definitivo sobre como era a relação de Vorcaro com Moraes. Lideranças petistas reconhecem que as novas mensagens são um fator de risco para a campanha de Lula, já que, para a população, o ministro está vinculado ao governo, justamente por sua atuação como relator do processo que condenou Jair Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão. O movimento que será feito pela campanha de Lula ganhou uma tradução mais explícita nesta quarta-feira. Em vídeo divulgado nas redes sociais, o presidente nacional do PT e coordenador da campanha de Lula, Edinho Silva, afirmou que a candidatura defende uma mudança "urgente" no sistema político e judicial brasileiro. Sem citar Moraes ou Vorcaro, Edinho afirmou que o país vive uma "profunda crise" e que o sistema "apodreceu". Disse ainda que "ninguém está acima da lei", incluindo integrantes do Poder Judiciário, e defendeu um código de ética para o Judiciário e o Ministério Público, o fim dos supersalários, maior transparência dos gastos públicos e o combate à "promiscuidade entre interesses públicos e privados". — A campanha do presidente Lula defende que é urgente mudar o sistema político e judicial no Brasil, que vive uma profunda crise, que protege poderosos, perpétua privilégios e a corrupção (...) Ninguém está acima da lei, seja um governante, um cidadão comum ou um integrante do poder Judiciário — afirmou. O movimento depois das novas revelações sobre as trocas de mensagens entre Moraes e Vorcaro não ficou restrito aos dois candidatos. Outros presidenciáveis também aproveitaram as revelações para se posicionar contra Moraes. Romeu Zema (Novo) afirmou que o impeachment seria pouco e disse que o ministro "merece é cadeia". Ronaldo Caiado (PSD) declarou que Moraes "não tem a menor condição" de continuar no STF e defendeu que o colegiado da Corte delibere sobre o afastamento do ministro. Renan Santos (Missão) também cobrou a saída de Moraes e afirmou que o ministro está "envolvido até o pescoço" no caso Banco Master. Augusto Cury (Avante), que passou a crescer nas pesquisas nas últimas semanas, adotou tom diferente. O candidato defendeu que quem tem mais poder deve prestar mais explicações e afirmou que, em seu governo, não haverá "blindagem para ninguém".