Rejeição a Lula e a Flávio não cede, mas Cury ainda não é competitivo 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Augusto Cury, candidato à Presidência pelo partido Avante — Foto: REUTERS/Jean Carniel Em 17 dias de campanha, Augusto Cury (Avante) quintuplicou sua intenção de voto para presidente, de acordo com a pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira (2). O ex-nanico passou de 2% para 10%, impondo perdas a todos os adversários, sem nenhuma exceção. Lula oscilou um ponto percentual (p.p.) para baixo, indo de 38% para 37%, Flávio Bolsonaro (PL) dois, caindo de 31% para 29%, Renan Santos (Missão) desceu de 4% para 3%, Romeu Zema (Novo) de 2% para 1% e Ronaldo Caiado (PSD) foi quem mais sofreu, baixando de 4% para 1%. O levantamento mostra que a possibilidade da eleição presidencial se decidir no primeiro turno agora parece muito mais remota. Pela primeira vez desde o início do processo sucessório a chamada “terceira via” ganhou alguma concretude. O total dos que marcam alternativas à Lula e a Bolsonaro passou de 13% para 16%. O eleitor não polarizado, que a Quaest chama de independente (32% da amostra) deixou de patinar. Neste segmento, em 14 dias, Cury passou de 4% para 24%. Lula ficou estável em 23%. Flávio caiu de 16% para 11%. Renan, Caiado e Zema, somados, recuaram de 17% para 7%. Mesmo com o desconto que a margem de erro sobe e que em consequência oscilações grandes são comuns em cruzamentos, é inegável que Cury, nestes primeiros dias de campanha, está atendendo a uma demanda de um eleitor saturado da polarização nacional. Sinais neste sentido eram claros desde a semana passada. Na rodada de pesquisas em 26 dos 27 Estados a Quaest captou uma média alta de 23% dos eleitores que alienavam seu voto, ou seja, marcavam indecisos, em branco, nulos ou diziam que não iam votar, índice que alcançava pico de 32% no Rio de Janeiro, 28% no Rio Grande do Sul, 25% em Minas Gerais, 24% em São Paulo. No dado nacional divulgado nesta quarta, este índice de alienação ficou em 18%. Segundo disse na semana passada o cientista político Jairo Nicolau para o Valor “esta é uma eleição muito mais desanimada do que as outras e um movimento brusco nas campanhas em setembro é possível”. Setembro chegou e Nicolau se revelou profético. O cruzamento por idade pela Quaest indica que Cury foi alavancado principalmente pelas redes sociais. Ele consegue 14% de intenção de voto na faixa entre 16 e 34 anos, a mais suscetível aos algoritmos. No eleitorado com mais de 60 anos, ainda fixado na televisão, não passa de 3%. Cury tem espaço para crescer mais? Com tudo o mais constante, é provável nos próximos dias um crescimento de intenção de voto, mas também de rejeição. De acordo com a pesquisa, 54% do eleitorado ainda diz não conhecer o escritor. Dos que dizem conhecê-lo, 21% afirma que poderia votar nele e 25% diz que jamais o faria. Catorze dias antes, 74% desconheciam a candidatura, 10% afirmavam poder votar nele e 16% descartavam. Fica evidente que o escritor se tornou mais conhecido, mas subiu na mesma proporção tanto o seu potencial de voto quanto sua rejeição. É importante lembrar ainda que o sarrafo da terceira via é muito alto para que se torne competitivo a ir ao segundo turno. Flávio Bolsonaro está longe de desidratar. A quebra da polarização necessitaria de um terceiro colocado com no mínimo mais de 20% de intenção de voto, e a partir desse patamar começar a retirar votos dos dois principais contendores. Lula vs Flávio Em relação a Lula e a Flávio, o que a pesquisa mostra de notável é a perda de competitividade do presidente. Na simulação de segundo turno, o petista consegue apenas 42% ante 41% do senador do PL. São os mesmos percentuais registrados em maio. Esse não é o padrão do que costuma acontecer em eleições em que disputa um incumbente. O normal é o candidato à reeleição crescer algo durante a campanha, se beneficiando do aumento de propaganda e da melhora de sua avaliação de governo. Neste momento, não há melhora de opinião do eleitor sobre o governo, pelo contrário: a desaprovação supera a aprovação. É possível que o índice anêmico de Lula registrado nesta pesquisa esteja influenciado pelo desempenho do petista na sabatina do Jornal Nacional, no dia 27. O principal assunto da sabatina foram as denúncias contra seu filho, Fábio Luis Lula da Silva. O levantamento da Quaest, por outro lado, mostra que Flávio ainda não recuperou o fôlego perdido depois das crises de sua candidatura, provocada pelo áudio em que pede dinheiro para o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e seus atritos com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Sua rejeição continua numericamente superior a de Lula: 55% a 53%. E o eleitorado se divide igualmente entre os que temem a reeleição de Lula ou a volta dos Bolsonaro. Não há combustível melhor para o crescimento de um outsider, cenário que já vinha sendo sugerido por pesquisas qualitativas desde o início do ano.