A catastrófica avalanche seguida de inundação que destruiu cidades e hidroelétricas há uma semana na fronteira do Nepal com o Tibete, território controlado pela China, foi deflagrada por uma liberação de energia superior à da bomba de Hiroshima, de cerca de 15 mil toneladas de dinamite. O cálculo, reportado na revista Science, é de Adhikari Basanta Raj, diretor do Centro de Estudos de Desastres da Universidade de Tribhuvan, no Nepal. O cálculo de Raj impressiona, mas não elucida todos os mistérios da cascata de fenômenos brutais que deixou ao menos 1.066 mortos — 1.050 no Nepal e 16 no Tibete — e 4.562 desaparecidos, em 26 de agosto. Um desses mistérios é a origem de tanta água. Só a das geleiras e dos rios não seria suficiente, dizem cientistas. A onda de gelo e rocha desceu pelo Vale de Bhote Koshi-Trishuli a uma velocidade de cerca de 150 km/h. O nível dos rios subiu nove metros em meia hora e a onda de inundação se alastrou em poucas horas pelos vales vizinhos. Explosão de gelo Ganha força a hipótese de que a água dos rios teve o acréscimo da pulverização por impacto do gelo formado há milênios em montanhas e seus vales. Ele teria sido pulverizado pelo deslizamento que deflagrou a inundação catastrófica. Veja imagens aéreas de como ficou cidade do Nepal varrida por deslizamento no Himalaia Esse gelo, milhões de toneladas cúbicas dele, somou-se a rochas, solo congelado (permafrost) e à água dos rios que nascem nos Himalaias. O resultado foi uma onda com a consistência de concreto líquido que engoliu cidades, hidroelétricas, florestas e tudo o que encontrou em seu caminho. A tragédia nos Himalaias se soma a fenômenos naturais de mecanismos pouco conhecidos. Mas a ciência demonstrou grande velocidade de resposta. Para desvendar o que provocou a catástrofe, formou-se espontaneamente uma rede global de cientistas. Eles têm montado o quebra-cabeças da tragédia. A rede criada no Slack já conta com 85 cientistas de vários países. Veja fotos das Inundações no Nepal 1 de 13 Casas ficam parcialmente submersas em água barrenta ao longo da margem de um rio após inundações — Foto: Prabin RANABHAT / AFP 2 de 13 Casas ficam parcialmente submersas em água barrenta ao longo da margem de um rio — Foto: Prabin RANABHAT / AFP X de 13 Publicidade 13 fotos 3 de 13 Equipes de resgate usam uma escavadeira para transportar uma pessoa afetada por inundações repentinas em Devghat, no distrito de Nuwakot, no Nepal, em 26 de agosto de 2026 — Foto: Prakash MATHEMA / AFP 4 de 13 Casas ficam inundadas de lama após inundações repentinas em Devghat, no distrito de Nuwakot, no Nepal — Foto: Prakash MATHEMA / AFP X de 13 Publicidade 5 de 13 Equipes de resgate carregam uma pessoa afetada por inundações repentinas em Devghat — Foto: Prakash MATHEMA / AFP 6 de 13 Uma casa fica inundada de lama após inundações repentinas em Trishuli Bazar, no distrito de Nuwakot — Foto: Prabin RANABHAT / AFP X de 13 Publicidade 7 de 13 Moradores observam casas parcialmente submersas em água barrenta após inundações repentinas em Trishuli Bazar, no distrito de Nuwakot, no Nepal, — Foto: Prakash MATHEMA / AFP 8 de 13 Uma casa fica parcialmente submersa em água barrenta após inundações repentinas em Trishuli Bazar, no distrito de Nuwakot, no Nepal — Foto: Prakash MATHEMA / AFP X de 13 Publicidade 9 de 13 Moradores observam uma torrente de água barrenta avançar por um rio após inundações repentinas no Nepal em 26 de agosto de 2026. — Foto: Prakash MATHEMA / AFP 10 de 13 Uma torrente de água barrenta avança por um rio após inundações repentinas em Galchhi, no distrito de Dhading, no Nepal — Foto: AFP X de 13 Publicidade 11 de 13 Uma inundação massiva atingiu o distrito de Rasuwa, no norte do Nepal, em 26 de agosto, danificando estradas e a infraestrutura de energia enquanto as autoridades se mobilizavam para avaliar a extensão da destruição — Foto: Prabin RANABHAT / AFP 12 de 13 Casas ficam inundadas de lama após inundações repentinas em Devghat, no distrito de Nuwakot, no Nepal — Foto: Prakash MATHEMA / AFP X de 13 Publicidade 13 de 13 Uma casa fica inundada de lama após inundações repentinas em Devghat, no distrito de Nuwakot, no Nepal — Foto: Prabin RANABHAT / AFP Os especialistas têm conseguido analisar a uma velocidade espantosa um fenômeno ocorrido numa área muito remota, afirmou o sismologista Goran Ekstrom, do Observatório Lamont-Doherty, da Universidade de Columbia (EUA). O primeiro passo foi descartar que a causa seria um sismo, como se pensou num primeiro momento. Relatórios iniciais do Serviço Geológico dos EUA (USGS) sugeriram que um terremoto de magnitude 4,4 no alto das montanhas teria soltado rocha e gelo. Também se cogitou o rompimento de uma barragem. Porém, análises de dados sísmicos revelaram ondas de baixa frequência e longo período (estrondos prolongados), típicas de um deslizamento gigante, e não o impacto rápido de um terremoto. Cálculos com dados da Global Seismographic Network reajustaram a magnitude para 5,7, confirmando um dos maiores deslizamentos das últimas décadas. Imagens de satélites da empresa americana Planet Labs mostraram uma área, a 5.200 metros de altitude, onde glaciares haviam se rompido, mas nuvens cobriam o local exato da origem. A Planet Labs coleta imagens diárias superfície terrestre com uma resolução de três a cinco metros. Cogitou-se então que a causa teria sido um colapso glacial, ou seja, gelo deslizando sobre rocha e despencando no vale. Mas novas análises refutaram que um colapso glacial sozinho tivesse potência suficiente para provocar tamanha catástrofe. Primeiro, cálculos demonstraram que a massa contida apenas no glaciar não geraria um sinal sísmico de magnitude superior a 5. De acordo com Ekstrom, seriam necessárias centenas de milhões de toneladas de gelo para provocar tamanho impacto. Esse volume supera até mesmo o dos glaciares dos Himalaias. Além disso, a energia liberada pela queda também só derreteria uma pequena fração do gelo, sendo insuficiente para liquefazê-lo e alimentar a inundação. Satélites ajudaram a elucidar esse ponto. Novas imagens enviadas pela Agência Espacial Indiana e pelo satélite americano Landsat-9 revelaram as montanhas sem a cobertura de nuvens. E, dessa forma, cientistas puderam ver que o evento principal foi um enorme deslizamento de rocha que levou o glaciar junto. A montanha se rompeu, e esse rompimento é que quebrou um colossal bloco de gelo e o fez despencar pelas encostas. O achado foi confirmado por filmagens de drone obtidas no dia seguinte. Análises do terreno também confirmaram um deslizamento de terra. E esse deslizamento liberou energia maior que a da bomba atômica de Hiroshima. O deslizamento de rocha e gelo desatou um fluxo de detritos que se transformou em inundação. Dados descartaram a hipótese de rompimento de um lago glacial pré-existente. A lama com consistência de concreto líquido vinda do alto das montanhas teria arrastado junto esse lago, liberando milhões de metros cúbicos de água. Mas dados sísmicos e de satélite não mostram qualquer evidência de um lago antes do deslizamento. Em vez disso, cientistas como a geomorfologista Kristen Cook, da Universidade dos Alpes, em Grenoble, na França, defendem que o fluxo de rocha, gelo e sedimentos se somou à água de rios e pulverizou gelo antigo do fundo do vale. Mudança do clima A explicação reforça o peso das mudanças climáticas na tragédia. O Nepal viu acontecer em escala colossal o que a ciência alerta há décadas que poderia ocorrer. O aumento da temperatura tem encolhido as geleiras dos Himalaias, onde está o maior volume de gelo fora das regiões polares. Essa região tem esquentado mais do que a média global. Nas montanhas, o permafrost (solo congelado) que funciona como uma cola unindo rocha e gelo em altitude tem derretido. E o permafrost não derrete sozinho. A “neve eterna” das montanhas tem desaparecido. Ela derrete e se infiltra no solo, contribuindo para desestabilizar a rocha. As grandes geleiras se tornam mais instáveis, pressionam as rochas. Tudo isso torna o já perigoso terreno dos Himalaias ainda mais instável. A catástrofe do Nepal é o que se chama de cascata de perigos: desmoronamento, fluxo de detritos e inundação. Sem chance Eventos semelhantes já ocorreram antes nos Himalaias, mas não nessa magnitude. Em 2021, 200 pessoas morreram e duas hidroelétricas foram destruídas por desastre em Chamoli, na Índia. E o Nepal teve inundações ligadas a deslizamentos nas montanhas em 2012, 2015 e 2017, mas a magnitude do desastre da semana passada é, no mínimo, dez vezes maior, segundo Cook. — Os deslizamentos de terra ocorrem desde que as montanhas estão em formação. Mas em áreas onde as geleiras estão desaparecendo, esses deslizamentos de terra estão ocorrendo com mais frequência — alertou Ekstrom. Havia sinais de perigo nas montanhas dias antes do desastre. A água de degelo havia ficado visivelmente marrom, e foram observadas rachaduras nas encostas dias antes do colapso. Porém, não há sistemas automáticos de detecção e alerta, e os sinais foram ignorados. E mesmo que houvesse, segundo cientistas, os habitantes das comunidades dos vales dos Himalaias não teriam mais do que 30 minutos para tentar escapar. Novo desastre Nesta terça-feira, o governo da China voltou a alertar para risco de novo desastre. Geleiras ainda podem colapsar no Nepal, disse a emissora estatal chinesa CCTV, citando o Ministério de Recursos Hídricos da ChinAs geleiras ficam em torno de uma cratera aberta pelo deslizamento na montanha e que estaria a ponto de transbordar. A cratera obstruiu parte do fluxo do Rio Chhochen Khola.