Encaixado entre a Índia e a China, o Nepal, abriga oito dos 14 picos mais altos do mundo. A região faz parte dos Himalaias, que é uma das maiores cadeias de montanhas da Terra e tem o Everest como seu pico mais famoso. A causa da tragédia ainda é analisada. A agência nacional de desastres confirmou que houve "uma avalanche de neve e rochas". Montanha, vales e geleiras A região combina montanhas extremas, vales estreitos e geleiras que armazenam não apenas neve e gelo, mas também água líquida. Essas características ajudam a entender por que uma avalanche pôde desencadear um desastre de tamanha escala. O g1 ouviu especialistas que analisaram os documentos oficiais já divulgados, imagens de satélite de antes e depois e analisam o efeito em cascata que pode ter levado a um desastre dessa dimensão. Uma geleira que também é reservatório de água Pelas imagens de satélite, é possível identificar a área de onde partiu a avalanche: uma encosta glacial na fronteira entre os dois países. Segundo os especialistas ouvidos pelo g1, duas condições prévias ajudam a entender o cenário em que o desastre ocorreu. Região com setas vermelhas mostra área onde desastre começou — Foto: Divulgação A primeira é a própria estrutura do ambiente glacial: ao contrário do que a paisagem sugere, aquelas geleiras não são formadas apenas por gelo. Elas armazenam água líquida em diferentes camadas.A segunda é o período do ano: a região vive atualmente a monção, estação chuvosa que costuma elevar o volume de água acumulada nos sistemas glaciais. Houve chuva persistente nos dez dias anteriores ao desastre na região, além de precipitação moderada a forte no sul do Tibete — o que pode ter aumentado o volume de água já disponível na bacia do rio Trishuli antes mesmo da avalanche. Juntas, essas duas condições — água armazenada na geleira e chuva acumulada na região — compõem o cenário em que a avalanche ocorreu, mesmo que sua causa exata ainda não tenha sido determinada. "A gente tinha um registro de chuva anterior que pode ter feito acumular água nessas geleiras. Isso transbordou e desceu com muita intensidade", explica Aderson Farias, sismólogo e coordenador do laboratório sismológico da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Como a avalanche vira uma represa natural? O evento que deu início à sequência foi uma avalanche de gelo, neve e rocha, cuja causa ainda é desconhecida. Ao descer pela encosta, a massa arrastou sedimentos e blocos de rocha até atingir o Rio Trishuli, provocando uma obstrução parcial ou total do curso d'água e formando uma barragem natural. Uma combinação de imagens de satélite mostra os vales perto da fronteira entre o Nepal e a China em 25 de agosto de 2026, antes das inundações devastadoras (T), e em 26 de agosto de 2026, após o desastre (B). — Foto: Reuters Represada, a água começou a se acumular rio acima. Com o volume crescendo, a pressão sobre essa barreira improvisada também aumentou, até o ponto em que a água passou a transbordar com pressão, arrastando tudo que tinha pela frente. "É como se você abrisse uma comporta: o que estava embaixo começa a descer. É uma água com um poder destrutivo que torna o desastre mais letal ainda", explica Pedro Camarinha, especialista em desastres naturais e especialista em em Geodinâmica e Geologia de Desastres no Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Ceamden). GIF - destruição na fronteira do Nepal com o Tibete — Foto: Reprodução/ g1 As imagens do desastre são impressionantes: um volume massivo de água e lama que desce montanha abaixo, com um rio violento que cobre vilarejos, enquanto pessoas tentam correr. "Isso causa uma cheia repentina, sem que ninguém pudesse se preparar para esse volume de água", explica Gerardo Portela, especialista em gerenciamento de riscos. Autoridades do Nepal e do Tibete disseram que o desastre não foi captado por suas ferramentas de risco.
Terremoto, avalanche: entenda o efeito por trás da tragédia no Nepal | G1
Especialistas explicam como uma avalanche na fronteira com o Tibete pode ter represado o rio Trishuli e liberado uma onda de lama e detritos que atingiu vilas no Nepal.















