Geográfo diz que inundações de quarta-feira 'deixaram um cenário de devastação' que levará muitos anos para se recuperar 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Esta imagem de satélite fornecida pela Vantor mostra Syapru Besi, no Nepal, em 18 de outubro de 2023 — Foto: Imagem de satélite ©2026 Vantor via AP Enquanto equipes de resgate procuravam desaparecidos após as inundações catastróficas ao longo da fronteira entre Nepal e China, cientistas especializados em estudos da Terra analisavam imagens de satélite em busca de pistas sobre a causa do desastre e avaliavam a extensão da devastação. As inundações de quarta-feira mataram centenas de pessoas no Nepal e no Tibete, e centenas continuam desaparecidas, incluindo estrangeiros e peregrinos. Os geomorfólogos Kristen Cook e Dan Shugar disseram que as primeiras imagens do Nepal estavam encobertas por nuvens e pela poeira dos detritos, de modo que só era possível ver que parte de uma geleira havia se desprendido do pico Langtang Lirung, perto da fronteira com o Tibete. Em imagens mais nítidas de quinta-feira, eles disseram ter observado que a rocha sob a geleira havia desmoronado, levando consigo um enorme bloco de gelo e lançando pedras e gelo no vale. “Ela mostra toda a área sem nada encoberto, e pudemos ver que, sim, aparentemente não foi apenas a geleira que cedeu, mas um trecho muito maior da rocha da própria encosta da montanha que desmoronou”, afirmou Shugar, professor associado da Universidade de Calgary. “Houve esse grande colapso da rocha que levou consigo parte da geleira.” Shugar disse ser doloroso observar nas imagens as áreas rio abaixo, onde as pessoas viviam, e ver como os detritos soterraram vilarejos. Como ocorreu a tragédia entre Nepal e Tibete — Foto: arte/valor Depois de atingir o fundo do vale, os detritos mantiveram seu impulso pelo vale íngreme e estreito à medida que o gelo derretia, afirmou Cook, da Universidade Grenoble Alpes, na França. Água e lama com vários andares de altura atingiram comunidades. O rio Trishuli subiu rapidamente durante as inundações. Imagens de satélite feitas antes e depois nas regiões de Kolpurtar, Betrawati e Syapru Besi, no Nepal, mostram que o rio está agora muito mais largo e com coloração marrom e preta, depois de transbordar em algumas áreas e ficar carregado de detritos em outras. Segundo Cook, a mudança na cor da água mostra a enorme quantidade de sedimentos transportada pelo fluxo, que passou de esverdeado para um tom marrom intenso devido à grande quantidade de lama. Cidades e vilarejos devastados ao longo das margens do rio estão cobertos por detritos e lama e aparecem nas imagens como áreas marrons. Algumas casas ainda podem ser vistas em meio aos detritos em uma imagem da região de Betrawati. As inundações derrubaram e arrastaram edifícios em Syapru Besi, um popular destino turístico onde começa uma famosa trilha para Langtang. Nas imagens de antes e depois, um afluente também aparece mais largo, porque a força do fluxo foi tão intensa que empurrou a água rio acima. As inundações “deixaram um cenário de devastação” que levará muitos anos para se recuperar, afirmou Alton Byers, geógrafo especializado em regiões montanhosas da Universidade do Colorado em Boulder. Byers morou no Nepal e atualmente retorna ao país todos os anos para estudar riscos glaciais e trabalhar com comunidades na preparação para desastres. Segundo ele, esta é, de longe, a maior inundação provocada por uma geleira que já viu. A passagem fronteiriça de Rasuwagadhi, entre Nepal e China, é mostrada em uma imagem de satélite da Vantor, de 19 de abril de 2024 — Foto: Imagem de satélite ©2026 Vantor via AP A mesma passagem fronteiriça é mostrada em 27 de agosto de 2026, após as inundações catastróficas — Foto: Imagem de satélite ©2026 Vantor via AP Byers, pesquisador do Instituto de Pesquisa Ártica e Alpina da universidade, disse acreditar que as inundações de quarta-feira estão relacionadas às mudanças climáticas. O aquecimento da Terra está derretendo geleiras e o permafrost, provocando instabilidade e o desprendimento de enormes volumes de neve e gelo em grandes altitudes. Segundo ele, isso pode desencadear uma série de eventos em cascata. “Todos os indicadores, para mim, apontam para os impactos das tendências de aquecimento”, afirmou. “Neste caso, o permafrost, que durante milênios ajudou a manter unidos rochas, gelo, solo e geleiras em grandes altitudes, está agora enfraquecendo e se tornando instável.” Cook e Shugar disseram que, neste momento, não é possível afirmar com certeza que exista uma relação direta com as mudanças climáticas. Encostas cedem e deslizamentos de terra acontecem, afirmou Cook, embora o permafrost esteja derretendo e isso esteja desestabilizando as encostas das montanhas. “Embora neste momento não possamos relacionar diretamente esse colapso às mudanças climáticas, não é inesperado que vejamos mais eventos desse tipo em um clima mais quente”, afirmou Cook. “Não desse tamanho — esperamos que não desse tamanho.”
Imagens de satélite mostram colapso de rocha e geleira na fronteira entre Nepal e Tibete antes de rios transbordarem
Geográfo diz que inundações de quarta-feira 'deixaram um cenário de devastação' que levará muitos anos para se recuperar










