Equipes de resgate procuravam nesta quinta-feira sobreviventes em vales e encostas cobertos de destroços no Nepal, enquanto mais de mil pessoas estavam desaparecidas no país do Himalaia e na vizinha China depois que uma massa de gelo, lama e rochas desabou sobre um rio de montanha, desencadeando uma avalanche catastrófica. Vídeos da tragédia mostraram pessoas correndo antes de serem engolidas pelas águas, que arrastaram prédios e pontes. Pelo menos 353 pessoas morreram e mais de 1.300 estão desaparecidas, entre estrangeiros e peregrinos, enquanto centenas tiveram de deixar suas casas em toda a região do Himalaia. A maior parte das vítimas fatais foi registrada no Nepal, onde ao menos 826 pessoas estão desaparecidas. No Tibete, região autônoma da China, as autoridades contabilizam três mortos e 558 desaparecidos. Entre os desaparecidos no Nepal, 517 são estrangeiros, segundo o Conselho de Turismo do país. O grupo inclui 178 indianos e mais de 60 americanos, além de cidadãos de outros 30 países, entre eles Ucrânia, Reino Unido, África do Sul e Japão. Muitos podem estar entre os peregrinos que seguiam para o monte Kailash, no Tibete, considerado sagrado por hindus, budistas e outros grupos religiosos. Um grupo de 77 peregrinos foi surpreendido pelas inundações no posto de imigração na fronteira, de acordo com uma publicação no X de Sadhguru Jaggi Vasudev, guru espiritual indiano e fundador da Fundação Isha. Há ainda estrangeiros desaparecidos do outro lado da fronteira. Segundo o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Lin Jian, 260 dos 558 desaparecidos no Tibete eram estrangeiros, de acordo com informações preliminares. Ele acrescentou que quase 100 cidadãos chineses estavam desaparecidos no lado nepalês da fronteira. O ministro do Interior do Nepal, Sudhan Gurung, afirmou que o foco continuava sendo encontrar sobreviventes. Autoridades nepalesas usavam helicópteros para procurar sobreviventes e lançar suprimentos de emergência para milhares de pessoas isoladas em cidades e vales. Elas também afirmaram que dezenas de pontes foram destruídas e quase 40 quilômetros de estradas ficaram danificados, dificultando as operações de busca. A China também tem mantido contato próximo com o Nepal sobre as operações de busca e resgate, informou o Ministério das Relações Exteriores chinês. O primeiro-ministro da China, Li Qiang, a segunda autoridade mais importante do país, chegou à região atingida pelo desastre em Gyirong na tarde desta quinta-feira, informou a agência estatal de notícias Xinhua. A visita surpresa, que não havia sido anunciada previamente, sinalizou que Pequim trata o desastre como uma questão de máxima prioridade nacional. Ganesh Aryal, administrador do distrito nepalês de Chitwan, afirmou que as autoridades recuperaram 103 corpos do sistema fluvial em seu distrito, situado nas planícies, a cerca de 100 quilômetros da região de Trishuli, a mais atingida. Como os hospitais locais não tinham capacidade para receber todos os corpos, as autoridades do distrito montavam tendas e também faziam preparativos para receber as famílias que deveriam chegar para reconhecer e buscar seus parentes mortos, afirmou. Os corpos que não puderem ser identificados serão submetidos a exames de DNA, acrescentou. Nos distritos mais atingidos, helicópteros lançavam tendas, alimentos e outros suprimentos de emergência fornecidos pela vizinha Índia, afirmou Raja Ram Basnet, porta-voz do Exército do Nepal. Policiais nepaleses observam enquanto máquinas retiram escombros após as enxurradas no distrito de Nuwakot, no Nepal, em 27 de agosto de 2026 — Foto: AP Foto/Niranjan Shrestha Mais de 5 mil integrantes das Forças Armadas e da polícia participavam das operações de resgate, que retiraram 125 pessoas das áreas atingidas nesta quinta-feira, incluindo 20 estrangeiros, afirmou. Países e organizações internacionais enviaram ou prometeram ajuda. Índia, Estados Unidos, Canadá e as Nações Unidas afirmaram estar prestando assistência e acompanhando de perto a situação, enquanto equipes da ONU enviavam suprimentos e pessoal para apoiar as comunidades atingidas. O primeiro-ministro do Nepal, Balendra Shah, seguiu por terra para avaliar a situação das inundações em Nuwakot, um dos distritos mais atingidos, informou seu gabinete nas redes sociais. O desastre representa um grande desafio para o governo de Shah, que está no poder há cinco meses, mas autoridades afirmaram que o país dispõe de sistemas e profissionais com experiência no enfrentamento de tragédias desse tipo, incluindo o terremoto de 2015, que matou quase 9 mil pessoas. Colapso de geleira e novo risco em lago represado Especialistas avaliam que o colapso de uma geleira provavelmente desencadeou a enxurrada que devastou áreas do Nepal e do Tibete. Segundo o Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas, sediado em Katmandu, uma avalanche de gelo teria lançado uma grande quantidade de água e detritos rio abaixo. A dimensão da catástrofe pôde ser verificada no rápido crescimento do volume de água rio Trishuli, cujo nível subiu até 9 metros em apenas meia hora, de acordo com os especialistas. Inicialmente, porém, houve suspeitas de que um terremoto tivesse provocado o desastre. O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) registrou na madrugada de quarta-feira um evento de magnitude 4,4 cerca de 65 quilômetros ao norte de Katmandu, próximo à fronteira. O órgão revisou posteriormente a análise e concluiu que o sinal sísmico não havia sido provocado por um terremoto, mas pelo próprio colapso da geleira. Segundo o USGS, o desabamento de gelo e rochas, seguido pelo fluxo de detritos, produziu energia sísmica equivalente à de um evento de magnitude 5,2. Equipes de resgate carregam uma vítima da enxurrada para um local seguro às margens do rio Trishuli, no distrito de Nuwakot, no Nepal, em 26 de agosto de 2026 — Foto: AP Photo/Niranjan Shrestha O episódio reforça os riscos associados à crescente instabilidade das geleiras do Himalaia, que ameaça comunidades, infraestrutura e o abastecimento de água em uma das regiões mais densamente povoadas do mundo. Um desastre semelhante ocorreu em agosto de 2025, quando um lago glacial no Tibete transbordou em meio às altas temperaturas. Na ocasião, nove pessoas morreram, e infraestruturas essenciais foram danificadas, entre elas uma ponte que ligava o Nepal à China. Em um possível novo desdobramento do desastre, autoridades chinesas identificaram riscos relacionados a um lago que permanece represado em Gyirong, rio acima da passagem de fronteira entre Tibete e Nepal atingida pela lama e pelas inundações. A emissora estatal chinesa CCTV informou que a situação pode dificultar as operações de resgate, especialmente diante da previsão de chuvas. Na manhã desta quinta-feira, estimava-se que o lago represado continha 2 milhões de metros cúbicos de água e já transbordava, segundo a mídia estatal, citando o Ministério de Recursos Hídricos da China. Outros 3 milhões de metros cúbicos de água devem chegar ao lago nos próximos três dias, elevando o risco de rompimento da barreira, acrescentou.