Antes de encaminhar para a Procuradoria-Geral da República (PGR) o relatório da Polícia Federal com as mensagens trocadas entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, o ministro André Mendonça alertou o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, sobre o teor das mensagens. Segundo a equipe da coluna apurou, Fachin ficou preocupado com o episódio, que arrasta o Supremo para o epicentro da crise em plena campanha eleitoral. Fachin e Mendonça se encontraram pessoalmente no último domingo (30) em Brasília para discutir o caso. O relatório reforça um dos maiores temores de Fachin sobre o efeito das investigações do caso Master: transformar o Supremo em pauta central das eleições. Conforme informou o blog, o receio do presidente do STF é de que o caso Master contamine a eleição para o Senado Federal, que terá ⅔ das cadeiras renovadas no pleito de outubro, e impulsione a eleição de uma forte e influente bancada de direita com a aprovação de impeachment de integrantes da Corte como pauta prioritária. Nesta terça-feira (1), Mendonça levantou o sigilo da apuração. O episódio escancarou em praça pública a crise que opõe de um lado o gabinete de Mendonça e de outro, a Polícia Federal, Moraes e o procurador-geral da República, Paulo Gonet. Enquanto Mendonça desconfia do vazamento de operações sigilosas, se queixa das tentativas de intromissão do governo Lula nas investigações e da demora no envio de relatórios e quer afastar todo e qualquer risco de obstrução de Justiça, a PF vê uma tentativa do ministro de intervir e direcionar politicamente as apurações em plena campanha eleitoral. Já o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, tem protestado contra decisões de Mendonça, como a determinação do envio ao magistrado do material bruto das investigações do caso INSS. Mendonça ainda determinou que fosse avisado previamente sobre qualquer alteração na equipe de policiais que o assessora nos trabalhos do STF, o que foi interpretado pela PF como uma ingerência administrativa. Nos bastidores de Brasília, a escalada da crise levantou o temor de que o ministro pudesse tomar uma decisão drástica, como até mesmo determinar o afastamento de Rodrigues da chefia da PF. Nesta segunda-feira, Mendonça enviou um despacho ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, para que ele se manifeste sobre um relatório da Polícia Federal (PF) que detalha mensagens trocadas entre o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. O prazo para a manifestação é de cinco dias. O relatório foi produzido a partir do conteúdo extraído do celular do banqueiro. Nas mensagens, ele diz a um interlocutor não identificado que precisa da proteção de “Andrei e Paulo”, uma referência ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e ao próprio Paulo Gonet. “Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível”, escreveu Vorcaro a Moraes uma semana antes da primeira prisão dele, em 17 de novembro de 2025, segundo informações publicadas pelo Estadão e confirmadas pela equipe da coluna. Um dia antes do pedido para adiar a operação, o banqueiro também fez um desabafo ao ministro do Supremo: “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? Muita sacanagem isso”, lamentou, segundo a investigação. Inicialmente, o que se sabia era que Vorcaro havia escrito as mensagens em um bloco de notas, mas das quais não se sabia o destinatário. Mendonça, então, pediu à PF que o identificasse, e a polícia concluiu que o interlocutor do banqueiro era o ministro Alexandre de Moraes. O relatório a respeito das mensagens está agora nas mãos de Gonet. No dia 17 de novembro, uma segunda-feira, Vorcaro acabaria preso no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, quando tentava embarcar em um jato particular para Dubai, com escala em Malta. ‘Galípolo está sabendo?’ Dois dias antes, no sábado, Vorcaro também consultou o magistrado sobre a possibilidade de deixar o país para frustrar as diligências da primeira fase da Operação Compliance Zero. Ele também voltou a questionar a ação da polícia “bem na semana” em que estaria “resolvendo tudo”, além de perguntar se o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, estava ciente do andamento do caso. “Que loucura, bem na semana que estou resolvendo tudo”, disse Vorcaro a Moraes. “O Galípolo está sabendo? Conseguimos fazendo algo? Acha que segunda-feira (17/11) já tenho que estar fora?”, completou. Para além de demonstrar a proximidade entre Vorcaro e Moraes, a troca de mensagens também confirma que a operação vazou para seu principal alvo — e Moraes discutiu o assunto ativamente com ele, ainda que não se saiba que movimentos ele fez para ajudar o dono do Master nesses dias antes da prisão. Agora, o relatório a respeito das mensagens está nas mãos de Gonet. O procurador-geral da República e Andrei Rodrigues estavam entre os participantes de uma noite de degustação de uísque promovida por Vicaro em Londres, em abril de 2024, durante um fórum jurídico patrocinado pelo Master. 'Conseguiu bloquear?' Essa não é a única mensagem entre o dono do Master e Alexandre de Moraes da qual a PF tem conhecimento, conforme revelado pelo blog em março. Na manhã do dia em que foi preso pela primeira vez, Vorcaro escreveu para o ministro no WhatsApp: “Fiz uma correria aqui para tentar salvar. Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?” Alexandre de Moraes respondeu logo, mas não é possível saber o que ele disse. Isso porque o que se segue são três mensagens de visualização única, do tipo que se apaga assim que o destinatário as lê. De acordo com investigadores, há também telefonemas entre eles. Contudo, apesar dos registros estarem no material apreendido e periciado pela PF, o ministro do Supremo negou sua existência em resposta às indagações da equipe da coluna. Moraes analisou contrato milionário Além das mensagens, existe também um contrato de prestação de serviços firmado entre o Banco Master e o escritório de advocacia comandado pela mulher de Moraes, Viviane Barci, revelado pelo blog em dezembro de 2025. O acordo previa o pagamento de R$ 3,6 milhões mensais pela defesa dos interesses do Master em Brasília. O valor total do contrato, assinado em janeiro de 2024, era de R$ 129 milhões, mas foram pagos R$ 80 milhões, já que Vorcaro foi preso antes do término das parcelas. Nesta terça-feira, o Estadão revelou que Moraes editou o contrato de sua esposa com o banqueiro, de acordo com metadados extraídos pela PF do celular de Vorcaro. As informações foram confirmadas pela equipe da coluna. De acordo com o escritório de Viviane, o setor de compliance pediu ao ministro para avaliar eventuais impedimentos legais à contratação junto ao banco. A última modificação feita por Moraes no documento ocorreu no dia 15 de janeiro de 2024, às 23h04. Como mostrou a coluna, o contrato tem um escopo bastante amplo, o de representar o Master onde for necessário, e não especifica uma única causa ou processo. Caso fosse cumprido integralmente, teria rendido para o Barci de Moraes, escritório de Viviane, R$ 129 milhões livre de impostos – o que não ocorreu, já que o Master entrou em liquidação. Tudo indica, porém, que o escritório foi regiamente pago enquanto possível, porque nas mensagens com a equipe Vorcaro deixava claro que os desembolsos para Viviane eram prioridade para o Master e não podiam deixar de ser feitos em hipótese alguma.
Mendonça alertou Fachin sobre relatório com mensagens de Vorcaro a Alexandre de Moraes
Relator do caso Master e presidente do STF se reuniram no último domingo para discutir o caso













