O escândalo do Banco Master ganhou um novo capítulo nesta semana, após novas informações se tornarem públicas e revelarem conversas entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e André Mendonça e o procurador-geral da República, Paulo Gonet. Na terça-feira (01), o ministro André Mendonça, relator do caso Master no STF, retirou o sigilo de um relatório da Polícia Federal (PF) que cita Alexandre de Moraes como destinatário de uma série de mensagens do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Ao retirar o sigilo do relatório, Mendonça indicou que o "caminho inevitável" era levar o caso para análise do plenário do STF e defendeu que a avaliação deveria ocorrer "de forma pública e transparente", em sessão presencial do colegiado, em data a ser definida pelo presidente da Corte, Edson Fachin. O Valor apurou que Mendonça deve liberar o caso para ser analisado pelo plenário na próxima semana, mas o presidente do STF é o único que pode pautar o tema. Fachin disse nesta quarta-feira (02) que irá avaliar "no tempo devido e sem precipitação, as medidas cabíveis e necessárias". O que diziam as mensagens enviadas a Moraes? A atuação da PF se deu após Mendonça determinar que os investigadores localizassem os destinatários de mensagens enviadas pelos celulares apreendidos de Vorcaro. O relatório da PF, que estava sob sigilo até ser tornado público por Mendonça na terça-feira (01), apontou que diversas mensagens do Vorcaro foram enviadas para um contato salvo como "Alexandre de Moraes BRASÍLIA", antes do ex-banqueiro ser preso pela primeira vez em novembro de 2025. No dia 15 de novembro, dois dias antes da sua prisão, Vorcaro teria perguntado por mensagem a Moraes se ele deveria deixar o país. As mensagens sugerem que Vorcaro já suspeitava da sua prisão e que ele sabia que o caso estava nas mãos do juiz Ricardo Leite, da 10ª Vara Federal do Distrito Federal, apesar da investigação estar sob sigilo. Ainda de acordo com mensagens atribuídas pela PF a Vorcaro, o ex-banqueiro pediu que Moraes intercedesse junto ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet. "Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? Muita sacanagem isso", teria afirmado Vorcaro a Moraes também em 15 de novembro. O ex-banqueiro teria ainda pedido orientação jurídica a Moraes. Em uma mensagem, ele conta que sua defesa cogitava fazer petições para saber se havia inquéritos em curso envolvendo o Master. Na sequência, pede uma opinião sobre se a ideia deve ser levada para a frente. “Não vou fazer nenhum movimento que você não ache produtivo. Estamos no escuro.” Além disso, a partir das conversas, a PF listou nove ocasiões em que Moraes e Vorcaro teriam se reunido pessoalmente, sendo a primeira vez no dia 13 de março de 2024 e a última, em 08 de agosto de 2025. O relatório da PF também aponta que Moraes teria editado o contrato de prestação de serviços advocatícios no valor de R$ 131 milhões firmado entre Vorcaro e a advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do Supremo. Segundo a apuração, os metadados do documento em formato digital trazem um nome de usuário vinculado a Moraes como autor da última modificação feita na minuta. O escritório de Viviane Barci emitiu uma nota dizendo que submeteu o contrato a Moraes para que fossem analisados eventuais impedimentos. Segundo a CNN Brasil, o relatório da PF não apresenta o conteúdo das possíveis respostas de Moraes a Vorcaro. As mensagens enviadas pelo ex-banqueiro foram recuperadas a partir da perícia em seus celulares, mas as respostas atribuídas ao ministro não aparecem no material analisado. Posição da PGR Na noite de terça-feira (01), a Procuradoria-Geral da República (PGR) se manifestou pela nulidade do relatório produzido pela PF. Paulo Gonet argumentou em seu parecer que Mendonça atuou ativamente para investigar Moraes e que a determinação para identificar e apurar eventuais condutas de um ministro do STF exigiria a atuação do Ministério Público e a submissão do caso ao colegiado da Corte. Gonet também é mencionado no relatório da PF, que descreve que as conversas entre o procurador e Vorcaro aconteciam pelo intermédio do advogado Ciro Soares, que atuava para o ex-banqueiro. Mensagens de março de 2025 indicam que o chefe da PGR teria pedido que Soares encaminhasse a Vorcaro mensagens suas afirmando estar com saudades do ex-banqueiro, além de tecer elogios após a confirmação de uma viagem a Londres. Em 15 de março de 2025, Soares enviou uma foto dele e de Gonet a Vorcaro, junto de uma mensagem pedindo para que o ex-banqueiro ligasse, porque o chefe da PGR queria conversar. Em seguida, o relatório registra quatro chamadas de voz entre Vorcaro e Soares, com poucos minutos de duração cada uma. O que as mensagens dizem sobre Mendonça? Nesta quarta-feira, uma reportagem do portal ICL, confirmada pelo Valor, mostrou mensagens no celular de Vorcaro que indicam um encontro do ex-banqueiro com Mendonça em 14 de março de 2025, na sede do instituto fundado pelo magistrado, em São Paulo. Os diálogos não deixam claro qual teria sido o assunto do encontro, mas, na época, ainda não havia uma investigação sobre o banco Master em andamento na PF. Segundo o site ICL, a aproximação teria sido articulada pelo deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP) e pelo advogado Ciro Soares. Ainda de acordo com o ICL, em 8 de fevereiro de 2025, Soares teria enviado para Vorcaro uma fotografia ao lado de Mendonça, em uma alfaiataria, e afirmado que estava "trabalhando" para o então banqueiro. "Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno", teria dito em uma mensagem de áudio. Em nota divulgada nesta manhã, o gabinete de Mendonça confirmou o encontro com Vorcaro, mas afirmou que os dois só encontraram "uma única vez", a pedido do ex-banqueiro, e que o ministro "se limitou a ouvi-lo". "Em todas as ocasiões, o assunto tratado foi a Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, que estava sob julgamento do Supremo Tribunal Federal e que discutia créditos de precatórios de interesse do Banco, mas que se encontrava, na exata data da reunião, com pedido de vista de outro Ministro”, diz a nota de Mendonça. Esse pedido de vista mencionado teria sido feito por Moraes. Conflito entre Moraes e Mendonça Antes do sigilo do relatório da PF ser levantado, Moraes e Mendonça se encontraram para falar sobre o caso. Interlocutores classificaram a conversa como “muito tensa”. Moraes teria questionado se o colega permitiu que ele fosse investigado pela PF e o acusou de direcionar apurações. Já Mendonça teria questionado Moraes sobre como ele soube do aprofundamento da investigação.