Relatório da Polícia Federal (PF) tornado público na terça-feira (1º) indica que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), foi o destinatário de uma série de mensagens de Daniel Vorcaro, dono do Master. Nelas, o ex-banqueiro buscava interferir e ter detalhes sobre a investigação que levaria à sua primeira prisão, decretada em novembro do ano passado. Em uma das mensagens, ele teria perguntado a Moraes se deveria deixar o país. Também teria pedido proteção da PF e da Procuradoria-Geral da República (PGR). A atuação da PF se deu após o ministro André Mendonça, relator do caso Master, determinar que os investigadores localizassem os destinatários de mensagens enviadas por Vorcaro. O magistrado pediu que a PGR se manifestasse sobre o documento. Em resposta, o procurador-geral da República, Paulo Gonet — que também é citado no relatório — pediu a nulidade do relatório da PF. Segundo ele, não cabe a juízes acusar e, menos ainda, “realizar investigações pré-processuais”. Segundo a apuração, os diálogos ocorreram a partir de um dos celulares do ex-banqueiro e um aparelho salvo como “Alexandre de Moraes BRASÍLIA”. As informações estavam em sigilo, mas foram tornadas públicas por Mendonça. O ministro pediu que o relatório seja analisado em sessão pública do plenário. “Conseguimos fazer algo? Acha que segunda já tenho que estar fora?”, perguntou Vorcaro em uma mensagem de 15 de novembro. Dali a dois dias, o juiz Ricardo Leite, da 10ª Vara Federal do Distrito Federal, determinaria a primeira prisão do então banqueiro. O caso tramitava em sigilo na Justiça do DF antes de ser enviado ao Supremo. Mensagem atribuída a Daniel Vorcaro para Alexandre de Moraes, em novembro de 2025, segundo a Polícia Federal — Foto: Reprodução/Relatório da PF O diálogo indica que Vorcaro suspeitava da prisão e tinha conhecimento de parte da investigação, mesmo os autos não sendo públicos. Indício disso é que o ex-banqueiro já sabia que o caso estava com Ricardo Leite, a quem faz referência em um dos trechos identificados pela PF. “Bem na semana que estou resolvendo tudo. Aquele mesmo juiz Ricardo?”, perguntou Vorcaro em 15 de novembro. Ainda segundo as mensagens atribuídas ao então banqueiro, ele pediu que Moraes intercedesse junto ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet. “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? Muita sacanagem isso”, teria afirmado Vorcaro ao ministro do STF em 15 de novembro do ano passado. Mensagem atribuída a Vorcaro para Moraes, em novembro de 2025, em que o ex-banqueiro faz referência a Andrei Rodrigues e Paulo Gonet, segundo a PF — Foto: Reprodução/Relatório da PF O ex-banqueiro teria ainda pedido orientação jurídica a Moraes. Em uma mensagem, ele conta que sua defesa cogitava fazer petições para saber se havia inquéritos em curso envolvendo o Master. Na sequência, pede uma opinião sobre se a ideia deve ser levada para a frente. “Não vou fazer nenhum movimento que você não ache produtivo. Estamos no escuro.” Na véspera da decisão que o levou à prisão, mais um contato. “Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?” Finalmente, em 17 de novembro, dia em que foi preso, o ex-banqueiro voltou a mandar mensagem. “Alguma novidade? Conseguimos ter notícia ou bloquear”, perguntou. A Polícia Federal listou ainda nove ocasiões diferentes em que Moraes e Vorcaro teriam se reunido pessoalmente. O primeiro encontro teria ocorrido em 13 de março de 2024. O último teria sido realizado em 8 de agosto de 2025. O mapeamento se deu a partir de conversas em que interlocutores citam os encontros. O relatório da PF também aponta que Moraes editou o contrato de prestação de serviços advocatícios no valor de R$ 131 milhões firmado entre Vorcaro e a advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do Supremo. Segundo a apuração, os metadados do documento em formato digital trazem um nome de usuário vinculado a Moraes como autor da última modificação feita na minuta. O contrato com o escritório era tratado como prioridade por Vorcaro, mostram as mensagens. Em um dos diálogos, de 15 de março de 2024, o banqueiro cobrou urgência após funcionários atrasarem o pagamento de uma parcela do contrato com escritório. No texto a Angelo Silva, o ex-banqueiro escreveu que aquele era o “contrato mais importante que temos. Te pedi pra nao falhar. Surreal. Vamos ter problemas. Manda pagar agora”. Na sequência, o dono do Master envia outra mensagem a uma funcionária identificada como “Romy Banco Master”, dizendo que o pagamento à firma não poder “atrasar um dia”, pois “é o pagamento mais importante que temos”. Na sequência, complementa que o pagamento pode ser feito “sem nota [fiscal]” e finalizado posteriormente “do jeito que for”. Foi identificada ainda a minuta de um segundo contrato de Vorcaro com o escritório da esposa de Moraes, com valor descrito de R$ 50 milhões. O texto, datado de maio de 2025, previa que o então banqueiro pagaria pelos serviços por meio da cessão de duas aeronaves dele. O escritório de Viviane Barci emitiu duas notas. Em uma, diz que submeteu o contrato de R$ 131 a Moraes para que fossem analisados eventuais impedimentos. A banca negou, no entanto, a existência do contrato de R$ 50 milhões. “A proposta do Banco Master não foi aceita, nada foi assinado e o contrato original foi extinto com a liquidação do banco, o que encerrou qualquer vínculo com a instituição.” Gonet também é citado O PGR também é citado em outra passagem do relatório. A PF indicou que Vorcaro falava com Gonet por meio de interlocutores. Os contatos seriam intermediados pelo advogado Ciro Soares, que atuava para o ex-banqueiro. Em conversas de março de 2025, o chefe da PGR teria pedido que Soares encaminhasse a Vorcaro mensagens suas afirmando estar com saudades do ex-banqueiro, além de tecer elogios após a confirmação de uma viagem a Londres. Em 15 de março de 2025, Soares enviou uma foto dele e de Gonet a Vorcaro, junto de uma mensagem pedindo para que o ex-banqueiro ligasse, porque o chefe da PGR queria conversar. Em seguida, o relatório registra quatro chamadas de voz entre Vorcaro e Soares, com poucos minutos de duração cada uma. Dias depois, em 28 de março, o advogado enviou três mensagens dizendo que teriam sido encaminhadas a pedido de Gonet. Nelas, o PGR teria escrito “que bom! Estou na torcida por vocês!”; “Já estou com saudades de você! Estou embarcando para Roma”; e “Manda essa mensagem para ele”. Vorcaro, por sua vez, responde: “Agradece muito o carinho. Saudades dele, vamos marcar estar juntos”. Em seguida, o próprio Soares escreve: “Lhe adora”. “Ele vai para Londres com a gente”, e encaminha uma nova mensagem, novamente atribuída a Gonet: “Oba!!! Tomara que tenha charuto e macalan!”. Vorcaro, então, responde: “Agora vai ter que ter plantação de charuto e barril de macalan rsrs”. Mensagem interceptada pela PF de Ciro Soares, que encaminharia mensagens a pedido de Paulo Gonet, a Daniel Vorcaro — Foto: Reprodução/Relatório da PF No dia seguinte, segundo as mensagens destacadas no relatório da PF, Soares diz a Vorcaro que “Gonet perguntou se o filho dele pode ir com a gente para Londres”. O ex-banqueiro responde positivamente “Obvio ne”. Na sequência, o advogado encaminha nova mensagem de Gonet: “Você é uma máquina kkkkkkkkk”. Segundo o relatório, Vorcaro recebeu uma lista de uma funcionária com nomes de pessoas “para irem a Londres com despesas pagas por nós”. O dono do Master não concorda com a lista, mas faz a ressalva que “Pedro e Ciro ok”, teriam as despesas pagas, em menção a Pedro Gonet e Ciro Soares. O evento em Londres era uma degustação de uísque, da qual o diretor-geral da PF também teria participado. Mendonça pede análise pública Na decisão de terça-feira, que retirou o sigilo do documento, Mendonça pediu que o relatório seja analisado pelo plenário do Supremo, em sessão “pública e transparente”. Ele deve liberar o caso para a pauta na próxima semana. Caberá então ao presidente do STF, Edson Fachin, marcar uma data. Procurado, ele não se manifestou. Sem citar Moraes, Mendonça afirma que há uma suposta rede de monitoramento e influência que atuaria para servir aos interesses do Master. Diante dos diálogos identificados pela PF, prossegue, “o caminho inevitável dos presentes autos leva ao plenário deste Supremo Tribunal Federal, instância soberana para analisar, de modo técnico e estritamente jurídico, os novos elementos trazidos pela autoridade policial”. Moraes e Mendonça tiveram uma reunião em que trataram do caso. Ela ocorreu antes de o relatório da PF ter o sigilo levantado. Interlocutores classificaram a conversa como “muito tensa”. Moraes teria questionado se o colega permitiu que ele fosse investigado pela PF. Também teria acusado Mendonça de direcionar apurações. Já Mendonça teria questionado Moraes sobre como ele soube do aprofundamento da investigação. PGR pede nulidade do relatório Na manifestação enviada ao Supremo, Gonet pediu a nulidade do relatório da PF. “O relator nem sequer detém competência para dirigir as ações policiais contra alvos que resolva mirar. Quem investiga, na fase pré-processual é a polícia judiciária, cabendo ao Ministério Público, como órgão de acusação, com a titularidade única para propor a ação penal, igualmente buscar elementos de convicção.” Segundo o PGR, Mendonça já sabia que a apuração iria mirar pessoas com prerrogativa de foro e que, entre elas, estava Moraes. “Sabia que entre elas estava Moraes. Não poderia deixar de o saber. O ato que determinou a investigação pela Polícia Federal data de 24 de agosto de 2026. Há muito que o relator estava com todas as peças que quis que fossem detalhadas por escrito.” Para Gonet, Mendonça atuou ativamente para buscar indicativos de envolvimento de Moraes em ilícitos. “Não importa o grau de investigação que a providência constitui, é inegável que houve a imersão em elementos dos autos para buscar indicativos de envolvimento do ministro Alexandre de Moraes em ilícitos.” Ainda segundo o PGR, ao determinar que fossem examinados elementos de investigação, não importando quem fosse a autoridade, Mendonça impôs uma investigação sobre Moraes, o que levou a um relatório da PF de 218 páginas, das quais “quase 190” tratam do ministro. Procurados, Moraes, Mendonça, Fachin, a PF e a defesa de Vorcaro não se manifestaram.
Mensagens revelam que Daniel Vorcaro consultou Alexandre de Moraes sobre investigações
André Mendonça retira sigilo de relatório da PF e PGR pede nulidade de documento










