Consumo do brasileiro recuou 0,4%, em meio a elevado endividamento, juros altos e perda de fôlego das medidas de incentivo do governo Lula. Agro sobe quase 3% 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Consumo das famílias, que ficou 0,4% abaixo dos três primeiros meses do ano, foi o único componente do PIB a registrar queda. — Foto: Leo Martins/Agência O Globo O Produto Interno Bruto (PIB), soma de todos os bens e serviços produzidos na economia brasileira, perdeu fôlego no segundo trimestre, com alta de 0,5% ante os três primeiros meses do ano, quando o crescimento tinha sido de 1,1%, informou nesta terça-feira o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O freio após um primeiro trimestre forte, que já tinha acontecido no ano passado, quando o crescimento ficou abaixo do verificado em 2024, foi puxada por uma queda no consumo das famílias, que ficou 0,4% abaixo dos três primeiros meses do ano — ao lado das exportações, com recuo de 0,8%, foram os únicos componentes do PIB a registrar queda. — Foto: Editoria de Arte Sem apetite para compras O recuo foi o pior desempenho, naquela base de comparação, desde o quarto trimestre de 2024, quando houve um retração de 0,6% no consumo ante o terceiro trimestre daquele ano. E, no sentido oposto, o endividamento elevado, com juros ainda altos, levou a inadimplência a níveis recordes, ajudando a moderar tanto o apetite por consumo das famílias quanto a disposição de investir das empresas, as últimas acossadas por uma onda de planos de reestruturação para lidar com problemas financeiros. Juros e endividamento O coordenador de Contas Nacionais do IBGE, Ricardo Montes de Moraes, afirmou que fatores como os juros ainda elevados — hoje em 14% ao ano — e o elevado endividamento costumam frear o consumo das famílias, mas o pesquisador evitou fazer correlações. — Em teoria, os juros altos desestimulam o consumo, mas a maneira como fazemos a conta não permite saber o quanto, não me permite ver qual o impacto dos juros — afirmou Moraes. A queda no consumo no segundo trimestre ante o primeiro se deu com uma forte desaceleração nas taxas interanuais. Nos três primeiros meses do ano, o consumo das famílias tinha crescido 1,7% ante igual período de 2025. Agora, a alta sobre o segundo trimestre de 2025 foi de apenas 0,5%. Investimento sobe e exportações caem O IBGE chamou a atenção para o fato de que, na comparação interanual, houve alta de 4,7% na massa salarial, que é a soma de todas as rendas do trabalho recebidas pelas famílias, e houve crescimento nominal de 11,1% no saldo das operações de crédito para as pessoas físicas. Indagado se esses dois fatores não deveriam ter impulsionado o consumo das famílias para um avanço além de 0,5% sobre o segundo trimestre de 2025, Moraes lembrou que as famílias sempre podem destinar suas rendas para outros fins que não o consumo, como a poupança. Ainda pelo lado da demanda, os investimentos, medidos pela Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), cresceram 1,2% ante o primeiro trimestre. Já o consumo do governo cresceu 0,4%. No setor externo, as exportações de bens e serviços caíram 0,8%, enquanto as importações subiram 1,8% em relação ao primeiro trimestre de 2026. Na oferta, agro salvou a lavoura Segundo o IBGE, o desempenho positivo na indústria se deve ao crescimento de 3,4% nas indústrias extrativas. — Quem puxou esse crescimento foi a extração de petróleo e gás — explica Moraes, ao destacar que, a despeito da produção elevada, as exportações de petróleo recuaram em meio ao conflito entre Irã e Estados Unidos no Oriente Médio, que fez o preço do barril da commodity disparar. — O petróleo foi a principal (razão de) queda da exportação. Os estoques de petróleo aumentaram muito. O desempenho das commodities produzidas pela indústria extrativa garantiu a alta na indústria, porque outras atividades do setor tiveram retração: eletricidade e gás, água, esgoto, atividades de gestão de resíduos (-1,1%), indústrias de transformação (-0,4%) e construção civil (-0,4%). — Houve queda na fabricação de máquinas, equipamentos, outros equipamentos de transportes, indústria têxtil e produtos químicos. Mas a gente teve contribuições positivas de derivados de petróleo, indústria automotiva e indústria farmacêutica — diz Moraes, do IBGE. Nos serviços, segundo o IBGE, apresentaram crescimento os segmentos de informação e comunicação (2,1%), transporte, armazenagem e correio (1,1%) e atividades imobiliárias (0,2%). Houve estabilidade no comércio (0,0%) e nas outras atividades de serviços (0,0%), atividades dos serviços que são mais sensíveis à demanda das famílias. Recuaram os serviços de administração, defesa, saúde e educação públicas e seguridade social (-0,4%) e as atividades financeiras, de seguros e serviços relacionados (-0,3%).