Após um segundo semestre em que praticamente ficou estagnada, a economia brasileira voltou a acelerar nos primeiros três meses de 2026, impulsionado pela força do consumo das famílias, apoiadas pelos estímulos econômicos do governo, pela safra agrícola, cuja colheita é concentrada no período, e pela expansão da indústria, principalmente de petróleo e gás. Segundo o IBGE, o Produto Interno Bruto (PIB) do país avançou 1,1% no primeiro trimestre, no cálculo com ajuste sazonal e na comparação com o trimestre anterior. O resultado veio em linha com a mediana das estimativas de 71 consultorias e bancos ouvidos pelo Valor, que apontava para alta de 1,1% no primeiro trimestre, frente ao quarto trimestre. Frente ao primeiro trimestre de 2025, a economia teve expansão de 1,8%, também em linha com o ponto médio das expectativas compilada pelo Valor. Todos os setores registraram crescimento de janeiro a março. Pela ótica da oferta, a agropecuária expandiu 2% no primeiro trimestre, na esteira de uma nova safra recorde de soja. A indústria cresceu 1% e os serviços avançaram 0,5%. "O PIB cresceu fortemente no 1º trimestre, assim, como havia ocorrido nos anos anteriores. Desta vez, a elevação acentuada não se explicou pela produção agropecuária, mas sim pela recuperação da indústria e do comércio, além do crescimento firme de diversos segmentos de serviços", nota a XP em relatório a clientes. Sem considerar o agro, a contribuição para o crescimento foi de 1 ponto percentual (p.p.), o que evidencia "a forte reaceleração dos componentes cíclicos do PIB no trimestre", diz a Kinitro também em nota. Para Livio Ribeiro, pesquisador associado do FGV Ibre e sócio da BRCG Consultoria, essa é a tendência da economia em 2026: um PIB mantido principalmente através de estímulos fiscais do governo, pela produção industrial e pela crescente demanda doméstica. “Minha preocupação com o PIB é que ele se resume muito mais em termos crescimento da absorção, ou seja, da diferença entre demanda e oferta, do que de crescimento econômico por si”, diz. Pela ótica da demanda, o destaque ficou com o consumo das famílias, que registrou alta de 1%. O consumo do governo, por sua vez, aumentou 0,4% e a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) subiu 3,5%. As exportações recuaram 1,7%, enquanto as importações tiveram alta de 4,4%. O avanço de 1% do consumo das famílias foi o melhor resultado trimestral desde o terceiro trimestre de 2024 (1,4%). Ainda do lado da demanda, a importação subiu 4,4% nos três primeiros meses deste ano frente ao trimestre imediatamente anterior, melhor desempenho desde a alta de 9,3% do segundo trimestre de 2024. Segundo o novo coordenador de Contas Nacionais do IBGE, Ricardo Montes de Moraes, o bom momento do consumo foi alavancado pela disponibilidade das transferências de renda e pelo mercado de trabalho aquecido. “Não é uma relação ‘um para um’, tem várias coisas acontecendo na economia. Mas [consumo das famílias em alta] contribui sim [para a alta do PIB]”, disse. Já o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) cita os estímulos adotados pelo governo. "Um conjunto de ações de política econômica, como o crédito consignado ao setor privado, a isenção de imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil e redução para quem ganha até R$ 7,3 mil, gratuidade do botijão de gás por meio do Gás do Povo, que triplicou o número de beneficiários em relação ao Auxílio Gás, e o aumento real do salário-mínimo." O desempenho do PIB no primeiro trimestre deixa um carrego estatístico para 2026 - isto é, o crescimento do ano fechado caso a economia ande de lado nos próximos três trimestres - de 1,4%, calculam economistas. Ele também disparou alguma revisões para a projeção do ano fechado. O Goldman Sachs elevou a sua de 1,9% para 2,2%, citando o avanço da demanda interna final - soma do consumo das famílias, governo e investimento -, que cresceu 1,3% no período, ante recuo de 0,3% no período imediatamente anterior. Já o Bradesco ajustou a sua estimativa de 1,6% para 1,8%, creditando a mudança a um "conjunto grande" de medidas de estímulos de crédito. Indústria e investimento A expansão de 1%do setor na comparação com o trimestre anterior foi puxada sobretudo pela alta do ramo extrativo, que avançou 3,6% capitaneado pelo setor de petróleo e gás. Já a manufatura ficou estável no período (-0,1%). Um desempenho lamentável, dado que o setor não se recupera da contração de 2% acumulada de 2025, nota Thiago Xavier, economista da Tendências. Entre os ramos que mostraram algum poder de reação, ele destaca o de veículos e farmoquímicos. “O que mais vem crescendo, por outro lado, é a parte de refino, bastante ligada à conjuntura da guerra e a defasagem de preços com o exterior, que deixou a atividade mais rentável no país. Ainda assim, mais da metade do setor segue no negativo no primeiro trimestre”, pondera Xavier. Entre os destaque de queda, ficaram os bens de capital no trimestre (6,3%), prejudicados pelo contexto de juros altos e incertezas crescentes. A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), por sua vez, cresceu 3,5%, maior taxa para o período desde o primeiro trimestre de 2021 (6,3%). Boa parte do movimento, no entanto, se deve à importação de uma única plataforma de petróleo, além da baixa base de comparação. Além disso, o desempenho da FBCF apenas compensa a queda de 3,4% observada no quarto trimestre de 2025. Tudo somado, a taxa de investimento caiu a 16,5%, contra 17,6% em igual período de 2025. Combinada com o recuo da taxa de poupança (de 15,8% para 15,5%), o movimento é um "ponto de atenção estrutural para a trajetória de crescimento sustentável", diz o ASA. Para Juliana Trece, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre), as incertezas relacionadas à guerra no Irã e o aumento do preço do barril de petróleo, que elevam os custos de produção, prejudicam a perspectiva do investimento. O alto patamar da Selic, no entanto, é o maior empecilho à recuperação do setor. "Mesmo sem a guerra e com redução de juros, a expectativa do início do ano era chegarmos a uma Selic de 12%, o que continuaria sendo um patamar alto e um fator limitante”, ressalta. Serviços e agricultura Responsável por aproximadamente 70% da economia brasileira, os serviços tiveram crescimento moderado (0,5%) no primeiro trimestre, também se beneficiando dos dos estímulos de ano eleitoral. Xavier, da Tendências, destaca que o consumo das famílias pareceu se mostrou mais focado em bens do que serviços no período, algo que pode ter relação com a bateria de estímulos anunciada nos últimos meses - muitos deles, de crédito. "O grupo de renda mais baixa é o perfil predominante dos beneficiários desses estímulos - Vale-gás, isenção do IR, Luz para todos, liberação do FGTS. Já a classe média-alta, que recebe acima de R$ 5 mil a depender do recorte da pesquisa, consome mais serviços, como hotel, restaurante, e vem reduzindo um pouco a demanda porque inflação está crescendo e a incerteza também. Esse é grupo o que mais movimenta os serviços das famílias. O comércio, por sua vez, se beneficia mais do conjunto das transferências que vira demanda imediata", explica. O segmento de transportes, que tradicionalmente desempenha bem no primeiro trimestre por causa do escoamento da safra, foi destaque negativo desta leitura (-0,7%). "Em parte, pelo aumento dos preços dos combustíveis, que reduz a demanda por esse serviço. Mas também porque o escoamento da safra parece estar ocorrendo de forma mais lenta esse ano, a exemplo do que ocorreu ano passado", diz Rodrigo Nishida, da 4intelligence. Por sua vez, a agricultura, que costuma ser o principal destaque do primeiro trimestre, teve desempenho apenas modesto em 2026. A alta de 2,0% foi menos de um terço da observada no mesmo período de 2025 (6,49%). Vale ressaltar, no entanto, que a base de comparação foi elevada prejudica a comparação. “O agro vai continuar sendo motor, mas infelizmente já começa a dar alguns sinais de acomodação, porque, por mais que tenha produtividade e ampliado um pouco a área plantada, chega uma hora em que isso atinge o limite. Soma-se a isso as condições de crédito, a capacidade de reinvestimento e a questão de máquinas e equipamentos. Os novos movimentos já estão um pouco mais complexos, mais delicados, então pode ser que não continue nesse ritmo de crescimento, mas esperamos que não haja uma queda”, avalia Eduardo Menicucci, professor associado da Fundação Dom Cabral (FDC). Setor externo O comportamento do comércio exterior registrou uma inversão de tendência na passagem entre o último trimestre de 2025 e o primeiro de 2026, com queda das exportações e alta das importações. Segundo Moraes, do IBGE, os destaques na primeira categoria ficaram com petróleo e gás, produtos alimentícios, outros equipamentos de transporte, metalurgia, e máquinas e equipamentos. Já na segunda, destacaram-se veículos, derivados de petróleo, farmoquímicos/farmacêuticos, e artigos de vestuário. A safra recorde de soja, por sua vez, ainda não se refletiu nas estatísticas do setor. “Grande parte da produção foi para estoques, vai ser vendida nos próximos trimestres”, disse. Para Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, a queda nas exportações se deu por efeitos sazonais. Na comparação com igual período de 2025, no entanto, houve alta de 7,4%, destaca. “A tendência adiante é vermos um crescimento forte em relação ao primeiro trimestre e também no interanual em relação ao ano passado”, diz Vale, acrescentando que o setor de petróleo deve ter participação crescente. O aumento das importações, por fim, está diretamente ligado ao câmbio mais valorizado e à demanda interna aquecida, diz Ribeiro.
PIB do 1º trimestre cresce impulsionado consumo, indústria e agro
Alta foi de 1,1% na comparação com o último trimestre do ano passado












