Apesar dos sinais de perda de fôlego da atividade em março, o Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre do ano como um todo deve ter voltado a subir de forma mais robusta, com a recuperação da indústria, estímulos do governo ao consumo e a ajuda, ainda que em menor grau, da agropecuária. O PIB deve ter acelerado para uma alta de 1,1% no primeiro trimestre de 2026, ante o quarto trimestre de 2025, quando variou 0,1%. É o que aponta a mediana das projeções de 71 instituições financeiras e consultorias ouvidas pelo Valor. O intervalo das estimativas vai de 0,5% a 1,7%. No primeiro trimestre de 2025, o avanço ante os três meses imediatamente anteriores foi de 1,5%. Na comparação com o mesmo período de 2025, o PIB do primeiro trimestre de 2026 deve ter registrado alta de 1,8%, mesmo valor observado no quarto trimestre de 2025, mas bem menos que os 3,1% do primeiro trimestre de 2025. Para o segundo trimestre de 2026, por ora, a mediana indica desaceleração expressiva, com crescimento do PIB de 0,4% ante os três primeiros meses do ano. Para 2026, a mediana de 79 projeções indica avanço do PIB de 1,9%, após crescer 2,3% em 2025, o que seria o menor valor desde a queda de 3,3% em 2020, por causa da pandemia. “De modo geral, não esperamos uma desaceleração muito forte da economia. Mas estávamos vindo de um crescimento acima dos 3% em três anos, até 2024, e agora vemos uma desaceleração. Crescemos 2,3% no ano passado e este ano devemos crescer 1,7%. É a mesma taxa de crescimento que esperamos para o primeiro trimestre, porque, na nossa projeção, os próximos trimestres devem ficar meio parados”, afirma Claudia Moreno, economista do C6 Bank, que está em uma ponta mais otimista das projeções para o PIB do primeiro trimestre de 2026. Nelson Rocha Augusto, presidente e economista-chefe do banco BRP, pondera que a dinâmica da economia brasileira está “bastante difícil de ser lida” diante de uma série de rupturas, como a guerra no Oriente Médio e o fato de este ser um ano de eleição presidencial no país. “Mesmo assim, ainda temos um PIB positivo, porque há algumas molas propulsoras empurrando para cima, sobretudo no primeiro trimestre”, diz Rocha, que é um pouco mais cauteloso que a mediana ao projetar 0,7% para o PIB do primeiro trimestre. Para a 4intelligence, a retomada de uma taxa de crescimento substancial do PIB no início deste ano está relacionada, principalmente, a três fatores: estímulos governamentais, com destaque para a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda e mais uma liberação excepcional do saldo do FGTS; a continuidade do avanço da agropecuária; e uma questão mais técnica, do ajuste sazonal aplicado pelo IBGE no PIB total. Pelo lado da oferta, o crescimento do primeiro trimestre de 2026 deve, mais uma vez, ter sido puxado pela alta de 2,7% na agropecuária, ante o quarto trimestre de 2025, segundo a mediana das projeções. Apesar da boa safra, será um número bem menor do que o salto de quase 15% registrado no primeiro trimestre de 2025. Por isso, economistas chamam mais atenção para o comportamento da indústria. Pela mediana, o setor cresceu 0,8% no primeiro trimestre de 2026 contra o fim de 2025, após tombo de 0,7% no quarto trimestre do ano passado. Se confirmada a mediana, será o melhor resultado da indústria, por essa base de comparação, desde a alta de também 0,8% observada no segundo trimestre de 2023. Ainda temos um PIB positivo, porque há algumas molas propulsoras empurrando para cimal” Considerando o quadro de juros elevados no país, “devemos ter uma PIB da indústria até bastante razoável”, diz Luis Otávio Leal, economista-chefe da G5 Partners, estimando crescimento de 1,7% para a indústria extrativa e de 0,7% para a de transformação. Ele destaca o comportamento das indústrias ligadas ao petróleo, em meio à reorganização desse mercado com a guerra no Oriente Médio e, principalmente, da automobilística. Já os serviços desaceleraram, segundo a mediana, para 0,6% no primeiro trimestre do ano, após subirem 0,8% no quarto trimestre de 2025. Serviços de informação e comunicação, varejo e serviços públicos devem ter dado contribuição positiva, aponta a XP. Já os de transporte de carga e armazenagem, diz Leal, podem ter puxado o PIB do setor um pouco para baixo. A safra agrícola deve empurrar os serviços pelo transbordamento, diz Rocha. Mas este ano, observa, houve atraso em parte importante da safra, principalmente no milho, e, em algumas regiões, na soja. O efeito em serviços, avalia, deve ter chegado mais em abril e maio. “Em parte [o serviço de transporte] já [é] afetado pela explosão do preço do petróleo e aumento do valor dos combustíveis”, nota a equipe da 4intelligence. No lado da demanda, o crescimento deve ter sido puxado pela Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), medida para os investimentos do PIB que, pela mediana, cresceram 1,7% no primeiro trimestre de 2026 ante os três meses anteriores, quando recuaram 3,5%. A alta, porém, é muito influenciada pela aquisição de plataforma de petróleo em fevereiro, diz Leal. O consumo do governo deve ficar estagnado no primeiro trimestre deste ano, após subir 1% no fim de 2025, segundo mediana das projeções. O consumo das famílias deve fazer movimento contrário, saindo da estagnação no quarto trimestre do ano passado para uma alta de 0,9% nos três primeiros meses de 2026. Para Leal, é um consumo das famílias “razoável”. “O itens mais sensíveis à renda não estão sofrendo tanto quanto outros mais sensíveis a crédito. Há diferença no comportamento porque a massa salarial ainda está muito forte. Mas, quando olhamos o consumo das famílias como um todo, vemos crescimento menor”, diz Moreno, do C6. Por fim, com a expectativa de que as exportações recuem 2,2%, mas as importações cresçam 1,4% - também influenciadas pela compra da plataforma de petróleo -, o setor externo pode dar contribuição negativa ao PIB do primeiro trimestre, o que não acontecia desde mesmo período de 2025.
Estímulos ao consumo, agro e indústria devem acelerar PIB do 1º tri
Apesar de sinais de fraqueza em março, mediana de 71 projeções aponta alta de 1,1%











