Logo ao lado da porta, uma pintura começa a se desfazer quando alguém se aproxima. Sensores de presença acendem holofotes de foco bem fechado e o calor das lâmpadas atinge a cera da encáustica sobre a tela de metal. A cena noturna pintada ali escorre devagar até deixar aparecer, por baixo, a mesma paisagem em pleno dia. Ninguém vai ver a obra totalmente pronta —apenas um dos estados pelos quais ela passa ao longo dos próximos dois meses.
O cenário é "Contrarregra", nova individual de Tatiana Blass em São Paulo, aberta na sexta (28) no Instituto Tomie Ohtake. Sob curadoria de Ana Roman e Lahayda Mamani Poma, a mostra reúne cerca de 50 trabalhos feitos entre 2008 e 2026, boa parte inédita.
Do teatro, ambiente caro à trajetória da artista, vem o título. Contrarregra é quem prepara o palco, posiciona objetos, controla entradas e saídas, sustenta a cena sem jamais ocupá-la. "Me interessa pensar quando é que começa o teatro, qual é a fronteira para ali ser o extraordinário e não o ordinário", diz a artista. Já aos pés da escadaria do instituto, uma escultura de metal de 2022 se enrosca como um nó e atravanca parte da passagem, feito organizador de fila que ganhou vida própria.
Paulistana radicada em Belo Horizonte há 11 anos, Blass construiu uma obra em que a matéria tem certa liberdade para agir por conta própria. Em "Metade da fala no chão — Piano surdo", apresentado na 29ª Bienal de São Paulo, em 2010, um pianista tocava Chopin enquanto dois homens despejavam cera derretida dentro do instrumento, abafando o som até emudecê-lo. Na nova mostra, as esculturas dessa série são reunidas feito banda torta: clarinete, flauta, trompete circundam a instalação monumental das baterias, cortadas ao meio e cobertas de cera.






