O cheiro de marcela toma o ar do ambiente e invade o olfato, suave como um chá quente servido antes de dormir. Não parece que estamos numa exposição de arte, mas, sim, num ambiente de estímulo aos sentidos.

Típica da flora brasileira, a marcela —disposta em um montinho no chão do primeiro andar do Itaú Cultural— fica próxima a arranjos semelhantes de capim, fubá, algodão e folhas de taioba. Destes montinhos emergem formas ovaladas de bronze e cerâmica, como frutos prestes a ganhar vida. O conjunto forma um campo dentro do qual é possível passear.

"É uma lavoura", diz a artista Solange Pessoa ao mostrar a obra "Campos Peregrinos". "A semente tem essa coisa, o vento leva a semente para longe. Essa natureza peregrina. Por isso o nome da obra."

Pessoa fala baixinho. Sua voz é tão mansa quanto a instalação "Campos Peregrinos", trabalho simbólico da ligação da artista com os elementos da terra e que abre uma exposição de suas obras no centro cultural paulistano. Ali, "Campos Peregrinos" foi montada em versão reduzida, depois de ser apresentada num espaço maior em Glasgow, no ano passado, com plantas e ervas encontradas na Escócia.

Ao trabalhar com materiais naturais, a artista de 65 anos nos informa sobre o meio ambiente, os elementos do solo, os lugares intocados pelo homem —ou a ameaça que ele representa aos ecossistemas. Ela opta por matérias-primas não usuais desde que começou a carreira, há mais de três décadas, muito antes de museus e galerias passarem a expor trabalhos de terra e cerâmica, uma praxe nos últimos anos dada a ascensão da arte ligada a pautas identitárias.