Mostra reúne 29 obras da artista no Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica, no Rio, em que se observa o uso de elementos naturais 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Gabriela Gusmão em exposição no Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica, no Rio — Foto: Pepe Schettino/Divulgação RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você A mostra "Se por ocaso a aurora" reúne 29 obras no Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica, no Rio. A exposição fica em cartaz até o dia 26. Para criar os desenhos gigantes, a artista arrasta-se pelo chão com pedaços de carvão produzidos por ela mesma. O processo começou na lareira de sua antiga casa. Outro destaque são as gravuras feitas com clorofila extraída diretamente de plantas frescas, como lavanda e alecrim. A técnica dispensa o uso de pigmentos artificiais. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Estabelecer-se em uma casa-ateliê em Nova Friburgo, na Região Serrana do Rio, foi a forma que Gabriela Gusmão encontrou para aprofundar a conexão que buscava com os elementos da natureza. Nos 15 anos em que esteve no local, desde 2011, ela conseguiu. E essa relação passou a se refletir diretamente em sua produção hoje em cartaz na exposição “Se por ocaso a aurora”, no Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica, no Centro da capital fluminense, até o dia 26. Os trabalhos carregam marcas de materiais de origem natural, como o carvão, o cobre e diferentes espécies vegetais. Para Gabriela, a mudança para a serra foi uma oportunidade de deixar o seu corpo em maior sintonia com a terra, como se essas duas partes fossem uma só, “sem separação”. — Eu trabalhando sozinha no ateliê, é o maior barato. Quando estou produzindo sobre a grama, em um lugar aberto, pego um pedaço de folha, um punhado de terra, arranho a folha na terra, jogo por cima. São múltiplas as ações — observa a artista, que voltou a viver no Rio recentemente. — Fico com essa sensação de que não existe nenhuma diferença entre mim e a terra. O que sinto é uma vontade de terra, de estar em contato com ela, de não separá-la de mim. Sentir que somos uma coisa só, eu e o planeta. Perto do fogo Na exposição no Hélio Oiticica, a artista apresenta 29 obras, entre desenhos e pinturas. Algumas delas, de grande escala, com 6,30 metros na vertical, são feitas com carvão e têm traços sem uma forma específica. Para criá-las, Gabriela deita-se no chão e, com pedaços grossos de um tronco queimado — vários deles apresentados na mostra —, arrasta-se enquanto desenha, “abaixada, sentindo o chão, sentindo o meu corpo também”. Gabriela Gusmão em exposição no Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica, no Rio — Foto: Pepe Schettino/Divulgação E é a artista mesmo quem prepara cuidadosamente o carvão que é usado nos trabalhos. O processo começou quando ela passou a observar o fogo na lareira não apenas como a fonte de calor que lhe deixaria quente no frio de Friburgo, mas como matéria artística. Com o auxílio de instrumentos de ferro, retirava pedaços de madeira antes que a queima terminasse. Aos poucos, passou a trabalhar com troncos maiores, mergulhando-os na água logo após serem retirados do fogo, evitando que continuassem queimando por dentro. — Cheguei a colocar um pedaço de madeira que achei bonito demais no congelador. Ainda o tenho até hoje. O congelador ficou defumado, com cheiro de carvão e lenha por muito tempo — ela conta, entre uma gargalhada. — As imagens que surgiam dali vinham imbuídas de um contato muito direto com o fogo. Não estava pensando muito: vou desenhar um X, Y, Z, vou desenhar alguma coisa. Era só: “Vou desenhar” e ponto. O que surgia como imagem era parte de um processo de relação direta do corpo com o papel. O curador Cesar Oiticica Filho, também diretor artístico da instituição, afirma que a mostra considera os elementos da natureza até na escolha do espaço físico — um segundo motivo além do tamanho das obras, claro. Segundo ele, a claraboia do local, além de permitir a entrada da luz solar, interfere diretamente na leitura das obras e na experiência do público. — Dá vontade de ver as obras saindo pelas janelas — afirma ele. — É preciso o mundo da arte sair do óbvio. Quando vi esses trabalhos, principalmente esses verticais, pensei na hora que ficariam lindos no espaço, iluminado pelo próprio sol “Hélio”. Monoclorofilotipia utiliza técnica com a qual Gabriela Gusmão trabalha desde 2013 — Foto: Pepe Schettino/Divulgação Há ainda espaço para trabalhos menores. Entre eles, a monoclorofilotipia, uma gravura produzida a partir da clorofila extraída de plantas, sem a adição de qualquer outro pigmento. As obras foram feitas principalmente com lavanda, planta dólar, alecrim, boldo, hibisco e hortênsia, colhidos ainda frescos e levados diretamente para uma prensa. Comprovar a cor A composição, segundo Gabriela, surge de forma intuitiva, à medida que a artista organiza as plantas sobre o papel conforme considera mais “bonito” naquele momento. Durante o processo, folhas, flores e pigmentos naturais se incorporam à obra, criando uma relação direta entre a matéria vegetal e a imagem resultante. Passado um tempo, surgem as cores marrom, amarelo e vermelho. — É um trabalho de comprovar a permanência da cor — afirma ela sobre esta técnica, com a qual trabalha desde 2013. Ao longo do tempo, a artista também veio aprofundando essa relação com os elementos em residências por Chipre, Itália, Estados Unidos e Alemanha. Mas a experiência mais fora do comum mesmo foi na Romênia, na pequena cidade de Slanic Moldova, com cerca de 5,4 mil habitantes, apenas com artistas brasileiros. — É uma cidade com minas de sal, em que entrávamos por um túnel enorme, para tratamentos em águas curativas muito loucas. Tinha uma que, se você acendesse um fósforo, ela começava a pegar fogo porque tinha um gás. E a gente ia passeando, visitando a casa da prefeita, a vizinhança, escolas, tinha uma parte séria também — conta, refletindo sobre a experiência nesses lugares: — Gosto de estar nesses ambientes em que a luz muda ao longo do dia, onde vejo o dia passar, vejo os passarinhos. Gosto de estar no meio disso. Isso me deixa muito mais viva.
Gabriela Gusmão usa carvão e plantas para narrar relação com o natural: 'Não há diferença entre mim e a terra'
Mostra reúne 29 obras da artista no Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica, no Rio, em que se observa o uso de elementos naturais







