Natural do sertão baiano, artista apresenta obras no Rio que discutem sexualidade e gênero sob a perspectiva de povo tradicional 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 A artista Yacunã Tuxá — Foto: Marina Calderon RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você A artista baiana Yacunã Tuxá apresenta 36 obras na exposição "Toda árvore tem raiz", no Rio de Janeiro. Seus trabalhos discutem sexualidade e gênero sob a perspectiva indígena. Após a inundação de sua aldeia histórica pela Barragem de Itaparica nos anos 1980, as mulheres Tuxá lideraram a resistência. A mostra resgata essas memórias afetivas e cotidianas. Yacunã utiliza ferramentas digitais e redes sociais para difundir as tradições de seu povo. A exposição também exibe peças de barro utilitárias produzidas por mulheres da aldeia. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO “Existe indígena gay?” foi uma das primeiras perguntas que Yacunã Tuxá, de 32 anos, precisou responder ao se identificar como mulher bissexual em uma cidade grande, Salvador. A artista indígena saiu de Rodelas, cidade no sertão da Bahia onde hoje seu povo está instalado, para estudar na capital baiana — e ali passou a conviver com conflitos da urbanidade e com questões sobre o próprio corpo, inclusive sua sexualidade. Na relação com sua aldeia, porém, essa discussão já estava superada havia muito tempo. A sexualidade é bem representada na obra de Yacunã. A artista, que começou a desenvolver seus trabalhos em 2019, produziu naquele mesmo ano “Mulher indígena e sapatão”, que pertence à coleção do Masp. É um desenho digital com uma jovem segurando a bandeira LGBTQIA+ sobre o corpo. A peça está na exposição “Toda árvore tem raiz”, em cartaz na Caixa Cultural, no Centro do Rio, reunindo outras 35 obras. — Eu me assumi quando tinha 15 anos, e foi difícil. Fui a primeira mulher a se assumir dentro da minha comunidade. Cresci vendo pessoas LGBTs, mas demorei para me assumir — diz a artista. — Fui encontrar o entendimento de quem eu era dentro da minha própria cultura. Não foi fora dela. 'Mulher indígena e sapatão' (2019), de Yacunã Tuxá — Foto: Divulgação Incompreensão LGBT O processo de adaptação de Yacunã em Salvador aconteceu ao mesmo tempo que ela começou a ter vivência como mulher bissexual. Foi nesse momento que chegou à conclusão de que “o movimento LGBT não conseguia entender as dissidências de sexo e gênero que há dentro das comunidades indígenas”. — Nosso povo tinha uma liberdade sexual muito grande. A própria ideia binária de gênero que se faz, para muitas comunidades, nunca existiu. Não cabe falar dessas caixinhas que existem na cultura ocidental — aponta. — A minha avó (Bezinha) foi a primeira pessoa a dizer que isso pode acontecer com qualquer pessoa. História inundada A avó Bezinha, que morreu em 2015, é uma das muitas mulheres que aparecem na obra de Yacunã. A resposta para isso, segundo a artista, encontra-se também na história recente do próprio povo tuxá. Na década de 1980, esta comunidade foi deslocada por conta da construção da Barragem de Itaparica, no Rio São Francisco. A antiga aldeia foi completamente inundada. Assim, todo o povo se reuniu nos arredores de Rodelas. Por ali, foram instaladas cerca de 60 casas num território não demarcado. — Foram as mulheres do meu povo que articularam novas maneiras de seguirmos vivos, de manter a nossa tradição. Elas criaram ferramentas de resistência para que a gente conseguisse continuar sendo quem éramos com sabedoria. Entenderam que a educação precisava ser o nosso foco — afirma a artista, que atribui às mulheres de seu povo a sua vontade de seguir para Salvador estudar: hoje cursa Letras na UFBA. Detalhe de 'Era o rio, sempre foi o rio' (2026), de Yacunã Tuxá — Foto: Marina Calderon Nos trabalhos de Yacunã ali reunidos, é quase imperceptível uma menção direta ao evento da construção da barragem. Porém, há um olhar para o que a água não conseguiu submergir: se as habitações, o pátio e o roçado foram levados pela barragem, a memória deles resiste, comenta Vera Nunes, curadora da mostra ao lado de Naine Terena. — Ela não faz uma crítica ao problema que aconteceu, mas um resgate porque quer manter viva a memória de seu povo. A gente não vê a dor; Yacunã não conta da inundação — diz a curadora. — O que foi inundado não vai voltar. Então, o que pode voltar é a memória, a reza, o canto, a imagem que ela tem na cabeça dela e que nos é transportada. A exposição na Caixa Cultural conta ainda com peças utilitárias ou decorativas produzidas pelas mãos das mulheres da aldeia da artista: cuias, cachimbos, maracas, moringas e pequenas estátuas femininas. Vera Nunes afirma que essas produções de barro são envoltas por uma “narrativa de afeto”. Essas esculturas proporcionaram a Yacunã seu primeiro contato com a arte, mesmo sem terem sido concebidas como tal: — Os primeiros museus que visitei foram na aldeia mesmo. Essas peças são obras de arte que fazem parte do nosso cotidiano. A ideia é de que arte e vida não se separam. Detalhe de obra de Yacunã Tuxá — Foto: Marina Calderon É com o uso de sua presença nas redes sociais (onde tem cerca de 30 mil seguidores) e de parte de seu trabalho feito digitalmente que Yacunã procura verbalizar anseios e a tradição de seu povo. A curadora Naine Terena reforça que o uso das tecnologias é uma ferramenta para contar a história dos tuxá. — Embora ela tenha muitas produções que esteticamente transitam no digital, que parece algo descolado dos indígenas, vai aí usando as materialidades possíveis e que domina para contar a sua história e a das pessoas que fazem parte de sua vida — diz.
Povos indígenas tinham liberdade sexual que a cultura ocidental não reconhece, diz Yacunã Tuxá
Natural do sertão baiano, artista apresenta obras no Rio que discutem sexualidade e gênero sob a perspectiva de povo tradicional
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