Retomada das hostilidades ressalta o elevado nível de tensão entre Washington e Teerã, que continuam em desacordo sobre a situação do Estreito de Ormuz 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Motociclistas passam por um outdoor que retrata o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, dentro de um recipiente de catering, no centro de Teerã, Irã, no sábado, 29 de agosto de 2026 — Foto: AP Photo/Vahid Salemi Os Estados Unidos e o Irã trocaram ataques pela primeira vez em cerca de um mês no domingo, interrompendo um período de relativa calma no conflito. As forças americanas atingiram a ilha de Larak, no Estreito de Ormuz, e a República Islâmica respondeu com ataques contra alvos na Jordânia e nos Emirados Árabes Unidos. A retomada das hostilidades ressalta o elevado nível de tensão entre Washington e Teerã. Os dois países continuam em desacordo sobre a situação do Estreito de Ormuz e não demonstram disposição para retomar as negociações destinadas a encerrar uma guerra que já dura mais de seis meses. Uma autoridade americana disse que as forças dos EUA atacaram lançadores iranianos em Larak no domingo depois que integrantes da Guarda Revolucionária iraniana (IRGC) foram observados se preparando para lançar foguetes com minas marítimas no estreito. Larak é uma pequena ilha próxima ao estratégico porto iraniano de Bandar Abbas. Em comunicado, o Comando Central dos Estados Unidos (Centcom) afirmou ter realizado uma ação “limitada e precisa” contra forças iranianas envolvidas na instalação de minas e que representavam uma “ameaça iminente” à navegação. O Estreito de Ormuz, por onde normalmente passa um quinto dos carregamentos mundiais de petróleo bruto e gás natural liquefeito, está efetivamente bloqueado desde o início da guerra. Em resposta ao ataque a Larak, o Irã lançou mísseis e drones contra bases americanas na Jordânia. Segundo o Ministério das Relações Exteriores iraniano, os alvos eram instalações usadas para lançar e dar apoio à ofensiva americana contra a ilha. As Forças Armadas iranianas também disseram ter atingido a base aérea de Al Minhad, nos Emirados Árabes Unidos, no início desta segunda-feira. O Ministério da Defesa dos Emirados negou a informação, mas afirmou mais tarde que sua Força Aérea havia interceptado um drone vindo do Irã sobre as águas territoriais do país. Não foram divulgados mais detalhes, inclusive se o aparelho foi abatido. Projéteis cruzam o céu nesta captura de tela feita a partir de imagens divulgadas pelas autoridades iranianas que supostamente mostram mísseis lançados contra alvos militares dos Estados Unidos na Jordânia a partir de um local não identificado, divulgadas em 31 de agosto de 2026 — Foto: Wana News Agency via REUTERS Em outro episódio, a Guarda Revolucionária afirmou ter derrubado com mísseis de defesa aérea um drone americano, que caiu nas águas do Golfo, segundo a agência de notícias Mehr. A escalada também voltou a atingir a navegação em Ormuz, uma vez que a imprensa iraniana informou que as autoridades do país apreenderam um navio graneleiro perto do porto de Bandar Abbas e que um superpetroleiro pegou fogo e ficou imobilizado após ser atingido por duas minas navais no sul do estreito. Em meio à nova escalada, o conselheiro presidencial dos Emirados Árabes Unidos, Anwar Gargash, afirmou que a política iraniana de atacar países árabes do Golfo e a Jordânia fracassou. “Um estado de nem guerra nem paz não pode ser uma solução sustentável”, escreveu Gargash no X, acrescentando que uma saída política deve começar pela redução das tensões e pela retomada da navegação normal no Estreito de Ormuz. A retomada dos ataques também foi acompanhada por uma controvérsia envolvendo a ilha de Kharg, principal polo de exportação de petróleo do Irã. Nesta segunda-feira, uma autoridade iraniana classificou como “risível” uma publicação de Donald Trump com um vídeo gerado por inteligência artificial que, segundo o presidente americano, mostrava a ilha sendo “reduzida a pedaços”. “Ilha de Kharg sendo reduzida a pedaços!!! Presidente DJT”, escreveu Trump no domingo no Truth Social, sem fornecer mais detalhes. A Reuters verificou que o vídeo que acompanhava a publicação, mostrando grandes explosões, muito provavelmente foi gerado artificialmente, com base em um software que detecta imagens manipuladas por inteligência artificial. Trump faz publicação sobre suposto ataque à ilha de Kharg — Foto: Reprodução/Truth Social Horas depois da publicação, não havia evidências de que Kharg tivesse sido atacada. A ilha de Larak, alvo confirmado das forças americanas no domingo, fica a cerca de 660 quilômetros a leste de Kharg. A Casa Branca e o Departamento de Defesa dos EUA não responderam imediatamente aos pedidos de comentário da Reuters. “As publicações de Trump são risíveis, e as condições em Kharg estão calmas e adequadas”, disse Hamid Bovard, presidente-executivo da estatal National Iranian Oil Co. Segundo ele, as operações de petróleo não foram interrompidas e trabalhadores continuavam reparando danos anteriores e modernizando instalações. Kharg respondia por 90% das exportações de petróleo do Irã antes da guerra iniciada pelos bombardeios dos EUA e de Israel em 28 de fevereiro. Um ataque à ilha, portanto, poderia provocar graves perturbações no comércio de energia e aumentar significativamente a pressão sobre a economia iraniana. Em meio às tensões, o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, afirmou que seu país não busca a guerra, mas responderá de forma decisiva a qualquer agressão. “Jamais permaneceremos em silêncio diante de qualquer agressão...”, disse nesta segunda-feira, segundo a mídia estatal, antes de uma visita ao Quirguistão. Não ficou claro se a declaração foi feita antes ou depois da publicação de Trump sobre Kharg. Embarcações próximas ao Estreito de Ormuz, vistas de Musandam, em Omã, em 31 de agosto de 2026 — Foto: REUTERS/Stringer Pressão econômica sobre o Irã aumenta Trump ainda não alcançou os objetivos que estabeleceu no início da guerra: desmantelar o programa nuclear iraniano, limitar a capacidade do país de atacar adversários regionais e criar condições para que os iranianos derrubem seus governantes religiosos. A retomada das hostilidades no domingo ocorreu após semanas em que o governo Trump intensificou os esforços para punir Teerã e seus parceiros comerciais com sanções econômicas de alto custo, afastando-se das opções militares. O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, disse à Reuters no domingo que novas sanções secundárias provavelmente serão anunciadas semanalmente como parte dos esforços para pressionar o Irã, com foco inicial nos bancos. O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, caminha após uma entrevista coletiva para detalhar novas sanções contra o Irã, no Departamento do Tesouro, em Washington, D.C., Estados Unidos, em 24 de agosto de 2026 — Foto: REUTERS/Evelyn Hockstein Em meio às ameaças à navegação, o número de embarcações de carga visíveis atravessando o Estreito de Ormuz caiu para cinco por dia durante o fim de semana, mostraram dados de transporte marítimo. O número real pode ser maior, já que algumas embarcações desligaram seus sistemas de identificação automática para evitar ataques. A Guarda Revolucionária afirmou que o superpetroleiro que pegou fogo após ser atingido pelas minas tentava atravessar ilegalmente a via marítima, mas não forneceu detalhes sobre a embarcação ou sua tripulação, segundo comunicado citado pela televisão estatal. Na semana passada, Trump afirmou que todas as minas haviam sido detonadas ou retiradas das águas internacionais do Estreito de Ormuz e que o Irã havia sido advertido de que qualquer embarcação que instalasse novas minas seria destruída. O Irã negou a afirmação de Trump.