Uma mãe que denuncia o filho à polícia. Se a premissa de “Quando”, quarto romance de Carla Madeira, é perturbadora, a realidade da criadora nos bastidores era puro caos. A autora de ficção mais lida do país ainda não se sentia pronta para escrever após sua última obra, “Véspera” (2021), quando vieram as mortes... Primeiro, o psicanalista; depois, a mãe; por último, a melhor amiga, após diagnóstico de câncer de pâncreas. Foi um corte seco na história da amizade profunda entre duas mulheres que fundaram uma empresa (a agência de publicidade Lápis Raro), engravidaram juntas e pariram no mesmo dia filhas amamentadas por Carla. No luto profundo, só havia uma salvação: a literatura. Fenômenos literário no país — seus livros “Tudo é Rio”, “A natureza da mordida” e “Véspera”, venderam um milhão e quatrocentos mil exemplares — , a autora é a convidada do “Conversa vai, conversa vem”, videocast do GLOBO, que vai ao ar, hoje, 18h, no Youtube do jornal OGLOBO e no Spotify. Leia um trecho: Carla Madeira e Maria Fortuna no estúdio da redação do GLOBO — Foto: Marina Calderon “Quando”, lançado pela Record há duas semanas e já na lista dos mais lidos do país, é dedicado à Simone... E à Luisa, filha dela, que se tornou minha sócia com a morte da Simone. Ela pegou na minha mão, atravessou a morte da mãe junto comigo. E foi de uma serenidade e competência... Se não tivesse ela, acho que não teria tranquilidade para escrever. Sobre Simone, se eu contasse a nossa história num livro, diriam que exagerei, que forcei a barra. Ela foi embora do dia para a noite... E a vida real ficou insustentável. 'O luto foi uma perturbação imensa. Mas eu estava com a escrita, e o lúdico de 'Quando' me ajudou muito' Se o livro é fruto de vários lutos, a linguagem te salvou da realidade? Demais. A linguagem é um recurso que ajuda a organizar o corpo. O biólogo Humberto Maturana diz que a emoção é no corpo e a razão é na linguagem. Essas duas coisas se autorregulam. A linguagem ajuda o corpo na obsessão dele que é voltar a um estado de equilíbrio. Mas volta como? Toda perturbação quer produzir sentido, e na hora que ela encontra uma maneira de encaminhar isso na linguagem, ajuda o corpo a se reorganizar. O luto, para mim, foi uma perturbação imensa. Mas eu estava com a escrita. A ludicidade de "Quando" me ajudou muito. E na linguagem de "Quando", você faz uma opção radical pela polifonia. O narrador está falando, entra um personagem que toma a palavra, depois outro, tudo sem ponto, é uma loucura. Aí entra minha mente matemática (curso que trocou pela Publicidade). Quero fazer essa polifonia, quero que roube as vozes, que tenha presente, passado em diferentes tempos de verbo, mas não quero que o leitor se perca um segundo. 'Tem algo da minha mãe em todas as mulheres que faço. Tive depressão pós-parto, e a presença da minha mãe nisso, a maneira como aconteceu, foi uma lente que mudou' Maternidade é tema estrutural da sua literatura. Perdeu a sua mãe, dona Irlanda, no momento em que escrevia a história de uma matriarca, a Viridiana, de "Quando". O que tem da sua mãe nela? Tem algo da minha mãe em todas as mulheres que faço. Seja por proximidade, por oposição; seja porque tem a ver, seja porque é o oposto. Minha mãe é uma matriz do feminino muito forte para mim. Minha maternidade chegou de uma maneira intensa. Tive início de depressão pós-parto, e a presença da minha mãe nisso, a maneira como aconteceu, para mim, foi uma lente que mudou. Mudou as intensidades que percebia no mundo. O medo virou maior, o amor, a coragem viraram maiores. Entendeu melhor a sua mãe ao se tornar mãe? Entendi. Ela teve seis filhos. Quando eu nasci, ela estava muito triste, não aguentava mais ter filhos, eram partos dificílimos. Não tinha ajuda, meu pai trabalhava o dia todo, era professor. Estava exausta. Para ela, minha chegada foi difícil. Depois de mim, veio um irmão que nasceu de seis meses e que teve um comprometimento cognitivo na estufa por falta de ar. Via na minha mãe um "não dito", olhares de exaustão pelos quais ela se culpou. Numa etapa na vida, minha mãe era maravilhosa, na hora que adoeceu... ela teve a doença da Viridiana. Não digo o nome no livro, mas se chama mastocitose, é raríssima. Começa com um enrijecimento na barriga e vem uma dor... Os filhos disputavam a minha mãe, porque ela era uma delícia. Muitas vezes, falava: "Queria que você me desculpasse". E eu: "Pelo quê, mãe?". Mas eu sei: pelo olhar de exaustão que vi na minha direção. Tudo isso é matéria da maternidade. E é uma matéria que, para usar uma palavra de 'Quando', são engramas (traço físico ou alteração biofísica e bioquímica no tecido nervoso que serve como a base física para o armazenamento de uma memória). Ontem (no dia 25/8, quando essa entrevista foi realizada) você esteve no presídio feminino Tavalera Bruce, em Bangu, no Rio. Como foi essa experiência? Emocionante, Maria. De chorar. Fico emocionada só de lembrar (os olhos enchem de lágrimas). O que pega é o irreversível. Tenho muito isso na minha literatura, a coisa definitiva. Umas meninas jovens... Fui num lugar de penas altíssimas, regime fechado. Elas leram "Tudo é rio" dentro de um projeto lindo, que se chama "Inspirar". Estive em outros presídios femininos, quando falaram sobre Lucy. E foi lindo, lúdico, como se fosse uma suspensão da realidade. Por alguns minutos, ficaram alegres, esqueceram que estavam ali. Um dos eixos de "Quando" é esse da espera. 'Nada nos protege da beleza' A mãe que espera o filho... É como se a espera fosse um baixo contínuo, um ruído. Uma mãe esperando um filho que não vê há 20 anos. Só tem um momento que tem um ponto final: a hora em que ela está numa situação em que há a suspensão desse estado de uma dor contínua. Porque a beleza de uma situação consegue suspender, ir num lugar pleno. Tem uma frase no livro que é: "Nada nos protege da beleza". Porque ela é a nossa salvação, tem essa força e falar "poxa, pode ser outra coisa a vida". E você viu essa suspensão nas mulheres dentro do presídio. No momento de falar de Lucy (prostituta de "Tudo é rio"), da sexualidade, eu vi. Ontem foi diferente. Foi lidar com a dimensão da esperança. O que é ter esperança? O que é poder imaginar? Plagiando uma frase que ouvi no presídio masculino: poder imaginar que, a partir do nome do livro, "Tudo é rio," que isso que estou vivendo vai passar. Vai demorar, mas para muitas daquelas mulheres vai passar, elas vão voltar para o mundo. E elas sabem disso. Então, como transformo isso que estou vivendo agora numa oportunidade? E essa a luta desse projeto. É lindo ver. As voluntárias estão lá se dedicando para oferecer reflexão, pensamento. 'Talvez, tenha nos homens uma visão utilitária da leitura. Algo como "não tenho tempo a perder" com o abstrato, o sutil' Edições da pesquisa "Retratos da leitura do Brasil" apontam que mulheres leem mais que homens. Em 2024, aponta 50,4 milhões de leitoras contra 42,9 milhões de leitores. O que podemos pensar sobre isso? Talvez, tenha nos homens uma visão utilitária da leitura. Algo como "não tenho tempo a perder" com o abstrato, o sutil. Talvez, por uma visão utilitária desse modelo social. Esse homem que precisa ser produtivo, ganhar dinheiro. E a mulher já vem com isso. Apesar de toda a luta, esse é um lado que é nosso, de lidar com a possibilidade do abstrato, da coisa em aberto, incerta. Basta ver o corpo. O do homem está tudo ali, explícito, objetivo. Na mulher é aquela coisa lá dentro, que empresta o corpo para a maternidade. Não sei, vejo assim, uma simbologia de dar conta. De querer isso. Estou vendo nos clubes de livro a inquietação. E é em tudo: as mulheres estão loucas para aprender, pensar, refletir, aprofundar. E está movendo, incomodando, balançando a árvore e trazendo muitos homens junto. A mesma pesquisa coloca em primeiro lugar a mãe ou uma responsável do sexo feminino como incentivadora de crianças e adolescentes pelo gosto pela leitura. Pais ou responsáveis masculinos, vem em terceiro lugar... A mulher está nadando de braçada rumo a expandir os horizontes e levar isso às novas gerações... O novo livro do Valter Hugo Mãe, "O século dos imbecis", traz essa alegoria sobre como o conhecimento alarga e como a desinformação emburrece, brutaliza. E sobre porque, socialmente, ainda vemos tanta gente tirando contentamento da miséria da desinformação. 'O que nós não estamos aprendendo enquanto Humanidade?' "Tudo é rio" se tornou best-seller graças às mulheres, que começaram um boca a boca em clubes de leitura, e foi indo... O fato do seu público ser majoritariamente feminino é um reflexo de serem elas a maior parte das leitoras no Brasil ou o seu tipo de literatura também contribui? Leva isso em consideração quando escreve? Não penso no leitor da vida real, no fazer porque mulheres vão gostar, homens vão ler ou porque quero atingir o público feminino. Estou imersa nas questões: sou uma mulher, meu corpo, minha vivência é atravessada por esse lugar. Posso imaginar o que quiser, pessoas totalmente diferentes de mim, pessoas que abomino, que admiro, posso tudo. Mas será sempre esse corpo, a partir dos seus afetos, fazendo isso. E isso pode interessar a todo mundo. Meus livros são muito lidos porque estão lidando com questões que já estão dentro das pessoas. Eu sou parte disso, dessa contemporaneidade que está lidando com as mesmas lutas, com as mesmas questões, com os mesmos assombros, com a mesma perplexidade. Vê o que aconteceu aqui em Copacabana: uma pessoa morreu a pauladas na rua. O estupro coletivo... Está todo mundo assombrado. Tinha que estar mais, né? Tinha que estar na rua. Que mundo é esse que estamos produzindo? Somos todos cúmplices e vítimas dessa engrenagem. O que vamos fazer com isso? É uma pergunta que Viridiana se faz: o que nós não estamos aprendendo enquanto Humanidade? 'A competição (da literatura) com as redes sociais é algo que não pode ser menosprezado. É um entorpecimento, vamos ficar com um monte de gente burra' Clubes de leitura, um fenômeno relativamente recente no país, apontam que há uma demanda, as pessoas querem ler. Muito se diz que o livro no Brasil é caro. Claro que há uma dimensão de classe, mas fica parecendo que, se for barato, todo mundo vai ler. O que falta para o Brasil ler mais? Muitas coisas. O primeiro é o valor que se dá à educação. Existe um contexto sobre o qual não podemos nos distrair: a competição com as redes sociais. É algo que não pode ser menosprezado. Precisa existir uma política que alguns países já estão fazendo: não pode rede social até 15, 16 anos. Vamos ficar com um monte de gente burra. É no momento que se forma o cérebro... O corpo humano tem plasticidade, se não usar, não vai ter. Isso é real. Reclama-se de que não há tempo para ler, mas gasta-se horas em rede social... A verdade é que aquilo é um entorpecimento. Não acho que seja uma questão econômica. Porque as pessoas compram coisas, celular, o crédito, a internet... Ah, livro é caro? Dá para ter a estratégia de se cotizar, fazer rodízio, biblioteca. Falta uma educação atenta. Os pais estão no celular e, assim, estão dizendo o tempo inteiro: "Isso aqui é muito mais interessante que um livro". Voltando à questão da polifonia na linguagem... Em "Quando", ela é bem mais radical do que em "Tudo é rio"... Quando tive essa experiência em "Tudo é rio", meu primeiro livro, tão intuitivo que nem sabia que estava escrevendo um livro, me divertia nessa coisa da linguagem. Contei isso a um primo, que leu todos os meus livros antes de serem publicados. Ele me deu de presente um livro chamado "Delírio", da Laura Restrepo. Eu amei. Tinha essa experiência mais radical. E quando, muitos anos depois, comecei "Quando" com uma voz aqui, outra ali, me lembrei desse livro. E vi como ela fazia a sinalização gráfica. Só de pôr uma maiúscula ali, já dá um clique, muda de voz. Fui vendo que existiam recursos menos usuais que eu podia explorar. Também tinha vivido uma coisa interessante: Alison Entrekin, que traduziu "Tudo é rio" para o inglês, falou: "Carla, aqui não tem nenhum sinal gráfico e, no inglês, isso vai ser difícil, porque não tem esse recurso que o português tem, o livro vai ficar muito experimental se eu não sinalizar que é um personagem falando, posso?". Eu concordei. Como decide quem deve falar em determinada hora? Essa era a questão dentro de mim: Isso aqui é elaborado demais para estar na boca de um personagem? Então, é narrador. Se não, é personagem. Nesse ângulo da história o personagem vai falar muito melhor que o narrador porque aconteceu com ele. A mesma coisa o tempo... Comecei a entender que tinha hora em que contar no passado era melhor, pegar o passado e trazer para o presente. Você sabe o que aconteceu no passado, mas boto a cena no presente. É como se você fosse cúmplice. Te ponho lá no meio da cena. Comecei a perceber o quanto não queria que essas coisas fossem gratuitas. O título traz atemporalidade. A literatura consegue fazer com o tempo o que uma narrativa puramente cronológica não conseguiria? Permite que eu conte uma história que não seja cronológica, mas que fique cronológica depois. Até quase o dia de publicar, o livro quase se chamou "Sopro". Tinha a ver com um sonho de Viridiana. A ideia de poder apagar uma chama ou acender uma brasa. O ato dela, que podia ser bom ou ruim. Por que resolveu mudar? Uma pessoa que leu disse que o título tinha que ser sobre o tempo. Ele deveria ser protagonista. Quando ela me falou isso, fiquei louca. Falei: "É verdade". 'Perdão não é sinônimo de impunidade. Ver que uma pessoa compreende dessa maneira é uma espécie de fracasso da minha intenção, do autor', sobre as críticas de que 'Tudo é rio' romantiza a violência doméstica Como bateu em você críticas de que o final de "Tudo é rio", em que Dalva perdoa Venâncio, é machista e romantiza a violência doméstica? Fiquei muito triste. Me interessa que o livro se tornou uma ocasião de conversar sobre isso. Perdão não é sinônimo de impunidade. Ver que uma pessoa compreende dessa maneira é uma espécie de fracasso da minha intenção, do autor. A pessoa não viu o que foi dito sobre o perdão no livro. Que o perdão não muda o passado e não é esquecer. Está lá no último parágrafo "o próximo passo é a possibilidade do abismo". Ou seja... Não é lugar de certeza. O que vai acontecer depois? Coloco isso lá e, para mim, está claro. Para muitas pessoas não estava. Mas também é legal pensar nesse fracasso... (Marcel) Duchamp (pintor) fala que o coeficiente artístico está exatamente nesse espaço que existe entre a intenção do artista e a aquilo que é percebido pelo público. Quanto maior esse buraco, mais artística é a obra. Porque é o espaço da subjetividade. É nesse espaço que entra a gente. E que se dá a reflexão. Sim. Comecei a ficar mais tranquila com essa crítica, apesar de a pessoa vir na minha jugular, porque acha que sou eu, que concordo com o Venâncio. A autora de "Morra amor" (a argentina Ariana Harwicz), falou que, às vezes, escreve sobre aquilo que mais a horroriza e a espanta. Talvez, na minha depressão pós-parto, naquele início... O meu medo era machucar a minha filha, que é o que muitas mulheres sentem. É uma questão que está ali, é o pavor, é olhar para aquele lugar, é mediar com a linguagem, é a possibilidade de olhar para uma coisa que, sem a linguagem, a gente não conseguiria dar conta de tão pesada que é. Parte da crítica compara seus livros a 'folhetins novelescos', com 'frases de efeito, clichês'. Já disse que depois de "Tudo é rio", não queria que ninguém mais grifasse suas frases em "Véspera", por exemplo. Tem a ver com essa crítica? Por que esse desejo? Como distingue uma frase necessária ao romance e outra que chama mais atenção por ela mesma? Primeiro: para dizer isso, é preciso ler meus livros. "Tudo é rio" é muito diferente de "A natureza da mordida" em termos de linguagem. Que é diferente de "Véspera". Que é diferente de "Quando". Tentar pensar a linguagem, a textura, me interessa profundamente. Se não encontrar certo desafio na forma, não vou ter interesse em fazer o livro. "Tudo é rio" é jorro mesmo, não tem contenção nenhuma mesmo. 'Tem coisa em 'Tudo é rio' que, hoje, tendo aprendido com Mia Couto que o amadurecimento de um autor tem a ver com contenção, eu não faria. Vou mudar? Não!' Você diz que é um 'transbordamento'. Tem coisa lá que, hoje, tendo aprendido com Mia Couto que o amadurecimento de um autor tem a ver com contenção, eu não faria. Vou mudar? Não. É o que foi feito, é poético, tem coisas lindas. É jorro mesmo. "Véspera" é outra textura. Então, convido a quem diz isso que me dê uma chance. Mas a coisa frasista tem a ver com seu lado publicitária. A coisa da facilidade de ter sínteses... Por 40 anos fui diretora de criação numa agência publicitária, que vem da redação, dei aula em universidade federal. Eu, Leminski, Giovana Madalosso, Luís Fernando Veríssimo... Todos nós estamos aí, filhos dessa habilidade. 'As pessoas que estão lendo os meus livros são as mesmas que estão lendo todos os livros: Machado, Clarice, Ana Maria Gonçalves. Essa é uma afirmação que, para mim, gera uma insegurança de quem fala', sobre críticas por fazer uma 'literatura comercial'. Sobre a crítica de fazer uma literatura comercial...Conversando com uma amiga, a jornalista e escritora Mariana Paiva, conversamos sobre como, às vezes, temos a sensação de que as pessoas têm mania de premiar uma literatura hermética, para duas ou três pessoas. Uma obra que vende muito, cai no gosto das pessoas, é ruim? O que o escritor quer não é vender? O que queremos não é que as pessoas leiam? Quando isso começou, falei: "Será?". Essa mania de dizer que se a coisa é popular, se alcança muitas pessoas... Vendi um milhão e quatrocentos. Isso é muito para a literatura, mas é nada para o Brasil. Num país de 220 milhões de pessoas isso é popular? As pessoas que estão lendo os meus livros são as mesmas que estão lendo todos os livros: Machado, Clarice, Ana Maria Gonçalves. Essa é uma afirmação que, para mim, gera uma insegurança de quem fala. Como se houvesse uma literatura alta e uma literatura baixa. "Nossa, eu não leio isso". Minha literatura dá um nó mesmo na cabeça de algumas pessoas. A jornalista Leila Ferreira deu "Tudo é rio" de presente para a Martha Medeiros, que publicou a crônica que foi uma virada na história do livro. Leila foi de manhã à manicure, que falou "estou lendo um livro impressionante, você tem que ler, 'Tudo é rio'". À noite, foi na análise, e o psicanalista dela disse: "Tem que ler um livro chamado 'Tudo é rio'". Ela leu. E pirou. E indicou para Marta, que fez a crônica super generosa. Então, gente... (dá um beijinho no obro) 'Teve um momento em que eu era 'a escritora' mais vendida. Depois, me tornei 'o escritor' mais vendido. Porque a nossa língua não para, é maravilhosa E aí, no lugar de escritor, fiquem à vontade (para criticar)' Há um tanto de machismo e misoginia nessas críticas? Parece que mulher não pode fazer o que acredita, tem sempre que ficar provando as coisas. Se fosse homem ouviria isso? Tem hora que não gosto de levar para esse lugar. Uma coisa importante para dizer "sou escritora" é "liberou a crítica". Se começar a falar que estão me criticando porque sou mulher, já me coloquei num lugar que não quero. Agora, posso te dizer que vejo pessoas que venderam e senti um tratamento diferente. Não tenho dúvida que isso pode ter acontecido em alguns lugares. Mas tenho cuidado para dizer. Teve um momento em que eu era "a escritora" mais vendida. Depois, me tornei "o escritor". Porque a nossa língua não para, e é maravilhosa, poderosa. Pode chiar o quanto for, mas ela vai, ninguém segura. Então, em algum momento, virei o escritor mais vendido. E aí, no lugar de escritor, fiquem à vontade (risos). 'Meus pais nunca falaram 'não pode fazer isso porque é mulher'. E não passou pela minha cabeça que não poderia fazer algo porque tinha 50 anos', sobre ter mudado de profissão Começou cursando Matemática, foi para Publicidade, virou professora de redação, fundou sua agência de publicidade. A literatura só chegou na sua vida após os 50 anos, idade desafiadora num mercado e num mundo machista e patriarcal. O que foi fundamental na sua vida, na forma como foi criada, nas suas referências, para sequer levar em conta o etarismo e outros obstáculos para fazer as transformações que desejava? Você foi num lugar fundamental. Meu pai foi religioso. Ele é de 1919. Sujeito erudito, matemático, que sabia cinco línguas, formação na França. Casou com a minha mãe 22 anos mais jovem, mal tinha o ensino fundamental. E que era uma força da natureza, de poética, delicada, linda, alegre. O perrengue do meu pai foi perceber que aquela mulher que teve seis filhos, um atrás do outro, dona de casa, se reinventou. Virou professora de ioga. Em determinado momento, caiu a ficha da transformação. Acredito em transformação porque vi dentro da casa do meu pai. Isso marca a minha literatura. Meu pai virou outro homem, que levantava todo dia, lavava a cozinha, fazia as coisas. E a minha mãe virou uma professora de ioga, que ganhava o dinheiro dela. Vi essa mudança dentro da minha casa. Isso foi muito poderoso. Os dois nunca falaram, nem quando era meu pai patriarcal e minha mãe dona de casa, "você não pode fazer isso porque é mulher". Meu pai nunca olhou para uma roupa minha e disse que eu não podia vestir aquilo porque estava muito sensual. E olha que eu abusei (risos)... Leva um tempo, porque tenho esse perfil de pensar no outro, considero, sou libriana... Mas na hora que tomo uma decisão, Maria... Nem olho para trás. Então, larguei a Matemática. Falei que não ia mais à universidade, e ele respeitou. Fui para a Comunicação. Quando fui abrir minha agência, meus pais me deram a sala da casa deles: "Toma uma linha de telefone". 'Não passou pela minha cabeça "ah, não posso fazer isso porque tenho 50 anos". Como assim? Estava com a potência toda dentro de mim, não vou fazer? Por quê?' Quando quis mudar novamente o rumo aos 50, apenas foi... Nossa.... Sinceramente, não passou pela minha cabeça "ah, não posso fazer isso porque tenho 50 anos". Como assim? Estava com a potência toda dentro de mim, não vou fazer? Por quê? O que é mais importante para um escritor, memória ou imaginação? Não acredito que isso se separe. Não há imaginação sem memória. Não existe a possibilidade. Você pode imaginar, mas a matéria que está ali, que permite você pensar uma outra coisa que não está aqui, é o que está aqui. De onde vem a ideia para um livro? Como é seu processo? Tem uma organização, uma disciplina, tipo "agora vou sentar, ter uma ideia e escrever durante quatro horas?". Como funcionam seus caminhos de criação? Não tem uma disciplina, uma rotina, cada livro foi diferente. "Tudo é rio", escrevi em set de filmagem, a voz estava tão alta... "Quando" já precisei de muito mais silêncio. Até passarinho me incomodava (risos). Porque a voz estava muito mais de buscar. Não tem uma fórmula. Também não sou uma autora de composição, não planejo, não tenho um roteiro desenhado. É quando estou envolvida, na hora em que estou lá no livro, que me sinto o tempo inteiro um corpo escutando. Os personagens te atormentam? Sonha com eles? Me atormentam, acordo de madrugada, anoto. "Vai servir o almoço, tem cinco minutos". Cinco minutos, para mim, é tempo. Eu vou igual um rodo, que puxa a água, traz aqui e, depois, vai lá de novo, puxa, avança um pouquinho. Vou relendo, trazendo... É um processo delicioso. Como é sua relação com a palavra? Fica obsessiva atrás da palavra perfeita, fundamental para cada lugar? Nossa, é obsessão. Engrama, uma palavra de "Quando", foram três anos para encontrar. Acredito nas forças que a literatura põe em andamento, porque essa apalavra veio ao meu encontro. Eu pus lá no livro a definição para facilitar a vida de todo mundo. É a marca que deixa, é um traço feito na matéria a partir de um acontecimento intenso. Você é cantora, compõe, a música está dentro dos seus livros, você pinta quadros. Como essas artes se fundem na sua literatura? Qual é o papel específico da literatura nas artes? Você estava falando das pessoas que veem séries... Cinema também é maravilhoso, provocativo... Mas a literatura é mais trabalhosa. Vejo isso no processo de criação dos meus filhos, o meu esforço para pôr a literatura na vida deles... Mas na hora que ela te pega, que descobre a força daquilo... É da ordem de um corpo inteiro afetado. E horizontes se abrindo. Se abrindo, porque te convoca. Se eu falo, em "Véspera", "Veneza é linda", é a sua Veneza, é o seu lindo. É uma convocação a imaginar. E, talvez, imaginar seja o exercício mais extraordinário do ser humano. Porque é isso, é ser capaz de, com aquilo que você tem, ir para outro lugar. "Véspera" vai virar série de TV. Como foi acompanhar o processo da adaptação? Do que fez questão? A escolha de Joana Jabace, mãe de meninos gêmeos, na direção foi fundamental para você topar? A escolha foi muito bacana, não podia ser outra pessoa. Joana é mãe de gêmeos, teve um episódio de violência na vida, é uma diretora incrível. Foi uma escolha acertada. Em "Tudo é rio" (que vai virar filme dirigido por Julia Rezende), compreendi que tinha que ser uma mulher. Minhas interlocuções com a Julia têm sido muito importantes. Em "Véspera" não tinha sido uma exigência ser mulher, em "Tudo é rio", sim. O que diria para alguém que quer ler, tem vontade e simpatia, mas a literatura não faz parte da vida? E do alto da sua experiência de quem bancou parte de seu primeiro livro e não desistiu diante dos 'nãos' de editoras, que dica daria para quem quer começar a escrever? Pessoas me disseram, ontem, no presídio que nunca tinham conseguido ler um livro inteiro, mas que "Tudo é rio" pegou. Na Flip, a mãe de um menino autista me apresentou a ele e disse que ele nunca tinha conseguido ler um livro. Mas leu "Tudo é rio". Pessoas me dizem que voltaram a ler por causa desse livro. Então, indico "Tudo é rio" (risos). 'Para quem está escrevendo e tem o desejo de publicar, primeiro: Escreva e tira da frente a ideia de publicar, de quem vai gostar ou quem não vai' Sem a menor cerimônia (risos)... Sem a menor cerimônia, desculpa. E vai, atravessa, insiste, porque, em algum momento, vai encontrar um livro que te pegue. E vai ver o que é ser pego por um livro. Pode ser qualquer outro. Para quem está escrevendo e tem o desejo de publicar, primeiro: Escreva e tira da frente a ideia de publicar, de quem vai gostar ou quem não vai. Vai para dentro, vai no que você tem adesão, convoca sua experiência e faz essa experiência ser esplêndida, para usar uma palavra de "Quando" (risos). Agora, quando se trata do desejo de publicar, de as pessoas lerem, porque quem escreve quer ser lido: Não desista! Mande para um, para outro. Ouvi vários nãos. E fui. Falei: "Ninguém quer? Eu quero!". E fiz. Em parceria com a Quixote (editora), que fez um trabalho lindo para o livro ser conhecido e cair no boca a boca. 'Quando se trata do desejo de publicar, de as pessoas lerem, porque quem escreve quer ser lido: Não desista! Mande para um, para outro'. E depois a Record, que comprou e relançou... Veio a Record. E falei para eles que isso não ia virar job, que tinha um lugar na minha vida, que não queria que virasse outra coisa. E veio "Quando", que quero que seja lido, que dê certo. Para mim, já foi um sucesso porque me tirou de um lugar muito difícil e me deu recursos para, como diz a Fernanda (Torres), falar a vida presta.
'A vida real ficou insustentável', diz Carla Madeira, escritora de ficção mais lida no Brasil
Ao lançar 'Quando', seu quarto romance, autora conta como a literatura a salvou de uma série de lutos, convoca críticos a lerem seus livros e diz que rede social é 'entorpecimento' e obstáculo à leitura








