Enrique Huberman chega a um hotel isolado na costa argentina munido de uma explicação respeitável para uma viagem. Médico homeopata, culto e homem de elevada opinião sobre si mesmo, pretende aproveitar o retiro para escrever um pequeno texto sobre Petrônio, o autor romano do "Satíricon".
Há, porém, outra razão que ele demora a admitir até para si: Mary Fraga. Talvez seja mais exato dizer que Huberman viaja tentando se convencer de que Mary não é a razão. O embaraço importa. Antes mesmo que haja um crime a investigar, Huberman já está ocupado em fabricar uma versão conveniente dos fatos.
Há nessa armadilha inicial muito do humor de "Os Que Amam, Odeiam", romance que o casal de intelectuais Silvina Ocampo e Adolfo Bioy Casares publicou a quatro mãos em 1946.
Huberman pretende fugir do amor como quem se afasta da origem de uma doença. Médico, está acostumado a observar, diagnosticar, prescrever. Diante do próprio desejo, no entanto, sua capacidade de diagnóstico se mostra bem menos segura.
Ocampo e Bioy acrescentam então uma segunda armadilha à primeira. Uma tempestade violenta isola o hotel do restante do mundo. O retiro voluntário se transforma em confinamento. E os hóspedes, pessoas suficientemente privilegiadas para se afastar de suas vidas e passar uma temporada à beira-mar, se descobrem obrigados à convivência.







