Alimentos devem subir até 9,5% no ano que vem, com impacto em itens como feijão, arroz e produtos in natura 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Valor do contrato do café arábica já subiu 35%, no caso do cacau, alta no mercado futuro é de 40% desde fevereiro. No açúcar, em agosto, valorização foi de 22% em Nova York — Foto: Custódio Coimbra, Dado Galdiere e Jonne Roriz (Bloomberg) Antes mesmo de o fenômeno climático El Niño — que provoca aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico — atingir seu ápice, ele já começa a afetar o preço de commodities agrícolas. A expectativa é que a intensificação dos efeitos comece nos próximos meses, mas o mercado financeiro e o setor agrícola já sentem o impacto. O chamado “prêmio de risco climático” tem antecipado a valorização de commodities, como café, açúcar e cacau. Levantamento da consultoria StoneX, elaborado a pedido do GLOBO, mostra que os contratos futuros de cacau em Nova York acumulam alta superior a 40% desde o início de fevereiro. O movimento é impulsionado pela preocupação com a próxima safra (2026/2027), percepção que ganha força conforme modelos climáticos passam a indicar probabilidade elevada de um El Niño forte. O aumento de preços ocorre mesmo em um período de melhora da oferta de curto prazo e recuperação de estoques, mostrando que o mercado financeiro concentra as atenções nas incertezas climáticas futuras. Junho foi marcado por chuvas excessivas em importantes regiões produtoras de cacau da Costa do Marfim e de Gana, o que aumentou relatos de enchentes, dificuldades operacionais e pressão de doenças. Isso prejudica a produtividade e reduz o ritmo das vendas antecipadas. A StoneX revisou para baixo a projeção de superávit global de cacau, de 149 mil para apenas 25 mil toneladas, incorporando o risco climático de forma mais incisiva. Em agosto, os contratos de açúcar em Nova York acumulam alta de 22%, com preço na faixa de 17 a 18 centavos de dólar por libra-peso. No primeiro semestre, o valor estava em 14 centavos. No caso do café, os preços do arábica já subiram 35% e os do robusta, 20% desde meados de junho. Carolina Giraldo, analista sênior do agronegócio da StoneX, afirma que o El Niño já exerce influência na formação dos preços nas Bolsas de Nova York, antecipando um prêmio de risco climático. No caso do café, embora os efeitos mais severos do El Niño sejam esperados nos próximos meses, mudanças climáticas já são percebidas, com chuvas acima do padrão no cinturão cafeeiro brasileiro. Isso altera a qualidade dos grãos, causando fermentação e dificultando a secagem. E a umidade quebrou a dormência das plantas, antecipando as floradas em Minas Gerais, São Paulo e Bahia. — O El Niño é um dos fatores que dão sustentação à alta recente nos preços do café. O mercado financeiro se antecipa diante da alta probabilidade de um El Niño forte coincidir com etapas reprodutivas mais sensíveis do cafeeiro. O excesso de umidade causou atraso na colheita, provocou a fermentação dos grãos, dificultando a secagem e prejudicando a qualidade final da bebida, afetando especialmente os cafés especiais — diz Carolina. Efeitos do El Niño — Foto: Editoria de Arte Comida pode subir até 9,5% Relatório do Itaú afirma que o fenômeno deve prejudicar a produção agrícola e contribuir para uma queda do PIB agropecuário em 2027. O texto afirma que a cultura do milho deve ser a mais afetada, pois a alteração no regime de chuvas provoca atraso no plantio da soja e reduz a janela ideal para a “safrinha”, a segunda safra de milho. O governo Lula já discute ampliar a compra e os estoques do produto para conter os impactos do El Niño. O Itaú projeta uma retração de 1,3% do PIB da agropecuária, já incorporando uma quebra na produção de milho, com queda de 17% desse volume. — É uma projeção muito próxima à média observada nos episódios recentes de El Niño forte, quando as perdas foram de 21% entre 2015 e 2016 e 13% entre 2023 e 2024. O milho é a cultura que historicamente mostrou maior vulnerabilidade ao fenômeno — explica Julia Gottlieb, economista do Itaú Unibanco. O Itaú projeta inflação de 5,1% em 2026 sendo que 0,3 ponto percentual desse total já corresponde ao efeito estimado do fenômeno. Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, reforça que o impacto inflacionário maior, causado pelo El Niño, deve ocorrer em 2027, quando a safra agrícola afetada chegará às gôndolas dos supermercados. Vale projeta que a inflação de alimentos no domicílio pode subir entre 7,5% e 9,5% no ano que vem, com feijão e arroz liderando as altas. Além disso, a seca na Amazônia pode encarecer o frete rodoviário entre 10% e 22%, diz. Ele pondera, entretanto, que a estrutura produtiva do agro brasileiro mudou nos últimos dez anos, o que deve atenuar os efeitos do El Niño nos preços na comparação com outras vezes que o fenômeno se manifestou. A produção do agro brasileiro migrou do semiárido (região mais vulnerável à seca) para o Cerrado do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia (região conhecida como Matopiba) e para o Centro-Oeste. Com isso, na cultura de milho, por exemplo, a sensibilidade da lavoura à seca caiu de 20% em 2016 para 15% hoje. — O semiárido pesa menos no total da produção. Em 2016, por exemplo, o feijão dessa região ainda significava muito na oferta, o que causou explosão de 135% no preço. Hoje, a produção está mais deslocada para áreas irrigadas de terceira safra no Centro-Oeste, o que limita a escala de pressão sobre preços em comparação a 2016 — diz Vale. Ele lembra que após o El Niño de 2015/16, a inflação de alimentação no domicílio ficou quase 8 pontos acima do IPCA cheio. No episódio mais recente (2023/24), o excesso foi de apenas 3,5 pontos, mostrando que a adaptação da lavoura já chegou aos supermercados. Agora, o fenômeno deve adicionar entre 0,6 e 0,9 ponto percentual ao IPCA. — O Brasil está mais protegido contra a seca no Norte e Nordeste do que em 2016, mas mais exposto aos riscos de excesso de água no Sul e aos gargalos logísticos na Região Norte. O arroz gaúcho é irrigado e não sofre com a falta de água, mas com o excesso de chuva, que pode causar alagamentos, atrapalha o plantio e a colheita — diz o economista, que vê o produto como o maior risco de alta de preço causada pelo El Niño, já que o Rio Grande do Sul concentra 71% da produção nacional. Mudança de hábitos A preocupação com os efeitos do fenômeno climático aumentou no início de agosto, quando novo boletim do National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) mostrou que a probabilidade de o El Niño atingir a categoria “muito forte” ainda em 2026 subiu de 81% para 95%, com o fenômeno persistindo até outubro de 2027. Alexandre Bertoncello, economista e consultor, observa que historicamente, em ciclos de intensidade média, o El Niño impacta a inflação de alimentos em 1,5 ponto percentual ao ano. Na prática, diz ele, para cada mil reais gastos em comida, o brasileiro passaria a gastar R$ 15 a mais devido ao choque climático. Se a intensidade do fenômeno aumentar, o impacto será maior. — Enquanto a alimentação no domicílio subiu 1,43% em 2025, a expectativa é que esse índice suba para uma faixa entre 7% e 8% em 2026 — prevê. Mas ele alerta que uma quebra na produção de milho e soja elevaria o custo da ração animal, gerando um choque generalizado, afetando preços de ovos, aves, suínos, carne bovina, leite e derivados. Em um segundo momento, o excesso de umidade no Sul pode diminuir a produção de arroz e trigo. Além da perda física, o custo de colheita e armazenamento sobe, pois grãos guardados úmidos estragam mais facilmente ou exigem processos de secagem mais caros. Bertoncello prevê que os alimentos no IPCA de 2027 podem subir para algo entre mais de 8% ou 9%. Ele define o cenário como “bastante preocupante”, típico de ciclos de El Niño forte. De acordo com a Nottus, empresa de inteligência de dados e consultoria meteorológica para negócios, o fortalecimento do El Niño ao longo do segundo semestre deste ano deve provocar mudanças nos hábitos de consumo no Brasil, principalmente devido à alteração na duração das estações e à ocorrência de eventos climáticos extremos. — O fortalecimento do El Niño tende a reduzir a duração do frio e antecipar a transição para temperaturas mais elevadas, especialmente na segunda metade da estação — diz Alexandre Nascimento, sócio-diretor e meteorologista da Nottus. Itens de meia-estação e produtos relacionados à climatização (como ventiladores e ar-condicionado) devem registrar crescimento de demanda mais cedo que o habitual. A consultoria alerta que problemas na produção de matérias-primas (como fibras naturais e couro) e desafios logísticos causados pelo excesso de chuva no Sul ou seca no Norte podem pressionar os preços para fabricantes e para varejistas.