Mulheres da região são também criadoras, produtoras, pesquisadoras, empresárias e lideranças. São autoras da economia 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Imagem aérea da floresta amazônica — Foto: Mauro Pimentel/AFP Eu sou uma mulher amazônica. Trago em mim a portuguesa, a cabocla, a indígena e todas as misturas que me formaram. A Amazônia não é uma paisagem que carrego comigo. É a maneira como aprendi a sentir, criar e fazer escolhas. Quando penso nessa liberdade, penso nas icamiabas. A memória amazônica fala dessas mulheres indígenas como guerreiras que viviam sob suas próprias regras, protegiam seu território e não entregavam a ninguém o direito de decidir por elas. Não sei onde termina a história e começa a encantaria. Sei que essa imagem atravessou os séculos porque diz algo profundo sobre nós. As icamiabas nunca se renderam. E eu me reconheço nessa força. Precisei defender minha voz, minha origem, meu repertório e o direito de seguir inteira. Levei Belém para todos os palcos porque nunca consegui separar quem sou do lugar de onde vim. Mas essa história não é apenas minha. Muito se fala e pouco se sabe da Amazônia. Menos ainda sobre as mulheres que a constroem todos os dias. Elas conhecem o tempo das águas, a cura guardada nas folhas, a época de colher e o ponto certo do fruto. Transformam alimento em sustento, conhecimento em trabalho e memória em continuidade. Foram lembradas principalmente pelo cuidado e pela resistência. São também criadoras, produtoras, pesquisadoras, empresárias e lideranças. São autoras da economia, da cultura e das soluções que fazem a região avançar. Ser autora é conhecer, criar e decidir. É transformar um saber recebido em renda, identidade e oportunidade. No Pará, essa autoria tem dimensão concreta. Levantamento divulgado pelo Sebrae em 2025, com base na PNAD Contínua do IBGE, mostrou que mais de 427 mil mulheres estavam à frente de pequenos negócios no estado. Na Ilha da Jussara, uma reportagem da Reuters mostrou como mulheres que sempre conheceram o açaí passaram a liderar também a busca por crédito e as decisões sobre a produção. Em uma década, ajudaram a ampliar em 50% o volume produzido. Não abandonaram a tradição. Deram a ela novos caminhos. É nesse encontro que ancestralidade, inovação e desenvolvimento deixam de seguir caminhos separados. Na escolha das sementes, no beneficiamento da mandioca, na preparação de óleos, farinhas, cacau, mel e alimentos, existe conhecimento transmitido entre gerações. Quando encontra ciência, gestão, financiamento e acesso a mercados, esse saber permanece vivo, gera renda e fortalece o território. A ancestralidade também é uma tecnologia de continuidade. É conhecimento vivo, capaz de responder ao presente e criar futuro. As mulheres amazônicas já transformam matéria-prima em produto, produto em identidade e conhecimento em inovação. O próximo passo é ampliar sua presença onde o valor econômico cresce e as decisões são tomadas. Tecnologia, financiamento e grandes mercados precisam reconhecer quem sustenta a origem dessas cadeias. Isso é inteligência econômica, justiça e compromisso com o futuro da Amazônia. Foi dessa convicção que nasceu o Fórum Varanda da Amazônia. Ao escolhermos “Amazônia, substantivo feminino” como eixo, queremos colocar em diálogo mulheres da floresta, da cultura, da ciência, dos negócios e da vida pública. O Fórum não pretende falar por elas. Quer criar pontes para que experiências se encontrem, projetos ganhem parceiros e conhecimentos alcancem reconhecimento. Minha voz está a serviço desse encontro. Das icamiabas às mulheres que hoje conduzem barcos, laboratórios, propriedades, empresas, associações e cooperativas, existe uma história de liberdade, criação e autonomia que nunca deixou de ser escrita. A Amazônia sempre foi substantivo feminino. Enquanto muitos ainda discutem o futuro da Amazônia, elas já o constroem diariamente. *Fafá de Belém, cantora e compositora, é idealizadora do Fórum Varanda da Amazônia