Comunidades continuam frequentemente sub-representadas ou até excluídas dos espaços de decisão sobre as pesquisas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Imagem aérea da floresta amazônica — Foto: Mauro Pimentel/AFP A Amazônia nunca esteve tão presente no debate global. Em meio às crises climática e de biodiversidade, governos, universidades, agências internacionais e empresas anunciam investimentos e reforçam o discurso sobre a importância da região para o futuro do planeta. A expectativa é que mais recursos gerem mais conhecimento, melhores soluções para os desafios amazônicos e impactos para além de suas fronteiras. Mas há uma pergunta a fazer: mais dinheiro, por si só, é suficiente para transformar a ciência produzida na Amazônia? Dois trabalhos recentes de que participo, nas revistas npj Biodiversity, do grupo Nature, e Perspectives in Ecology and Conservation, ajudam a refletir sobre a questão. Um deles discute como práticas de colonialismo científico — a produção de conhecimento sobre uma região fora dela — ainda persistem na Amazônia, reproduzindo desigualdades na definição das agendas de pesquisa, no acesso aos dados e no reconhecimento acadêmico. Outro propõe caminhos para fortalecer a ciência amazônica com integração institucional, governança compartilhada e financiamento de longo prazo. Embora partam de perspectivas diferentes, ambos convergem à mesma conclusão: a Amazônia precisa não apenas de mais investimentos, mas também de mais protagonismo local. Apesar dos avanços científicos sobre biodiversidade, clima, conservação e desenvolvimento sustentável, pesquisadores amazônidas, estudantes e comunidades locais continuam frequentemente sub-representados ou até excluídos dos espaços de decisão sobre as pesquisas. São, muitas vezes, vistos apenas como coletores de dados ou meros facilitadores. Essa realidade revela que o problema vai além dos recursos e inclui a forma como o conhecimento é produzido e as relações de poder, com práticas muitas vezes naturalizadas dentro do próprio ambiente acadêmico. Pesquisas na região frequentemente envolvem parcerias com instituições locais, estudantes, técnicos de campo, comunidades tradicionais e povos indígenas. Essa colaboração, no entanto, não pode ser confundida com extração de conhecimento. O compromisso com uma ciência mais justa requer reconhecimento das contribuições realizadas e oportunidades reais de liderança. Também exige coerência entre discurso e prática. Nos últimos anos, termos como inclusão, diversidade, equidade e decolonização passaram a ocupar espaço nos debates científicos. Mas esses princípios só produzem mudanças concretas quando se refletem nas decisões cotidianas sobre quem lidera projetos, quem define perguntas, quem assina artigos, quem recebe recursos e quem se beneficia das oportunidades geradas pela pesquisa. Essa transformação inevitavelmente implica revisar privilégios historicamente acumulados e reconhecer que diferentes experiências e perspectivas tornam a produção científica mais robusta, inovadora e conectada à realidade amazônica. A discussão também alcança a formação da próxima geração de pesquisadores. Durante muito tempo, a academia naturalizou a ideia de que estudantes deveriam aceitar condições precárias, jornadas excessivas e baixa autonomia em nome do avanço do conhecimento. A dedicação à ciência não pode servir como justificativa para relações desiguais ou exploração do trabalho acadêmico. Nenhum estudante deveria precisar escolher entre sua dignidade e sua carreira. Uma ciência amazônica forte precisa de ambientes de pesquisa saudáveis, colaborativos e respeitosos. A excelência científica não depende apenas de laboratórios, equipamentos ou financiamento, mas das pessoas que tornam essa ciência possível. Nunca houve tanta atenção internacional à Amazônia. Transformar essa oportunidade em legado exige reconhecer que os desafios da ciência amazônica não são apenas técnicos ou financeiros. São também humanos. *Deliane Penha, bióloga, é professora na Universidade Federal do Oeste do Pará e pesquisadora apoiada pelo Instituto Serrapilheira