Na semana passada [21/8], falei de artistas e personalidades que, ao morrer, têm seus "legados", ditos eternos, rapidamente esquecidos. Citei o caso de Ary Barroso, o compositor que, durante 30 anos (1930-60), ditou a lei na música popular brasileira e cuja obra está hoje "fora dos palcos, das telas, das prateleiras, das páginas dos livros e da memória do Brasil". Instiguei o pessoal a lembrar outros e não me surpreendi ao ver que tantos gigantes não foram sequer citados.
O leitor Hermes Yali, endossando minha preocupação, contou a reação do astro Dustin Hoffman ao lhe dizerem que seu lugar na história do cinema "já estava garantido". Hoffman respondeu: "Não tenho qualquer ilusão sobre isso. Quem se lembra hoje de Paul Muni?". "Paul quem?", perguntarão muitos. Muni (1895-1967), astro de filmes como "Scarface" (1932), "O Fugitivo" (1932), "A História de Louis Pasteur" (1935), "Emile Zola" (1936), "Juarez" (1938) e outros, foi, em termos de interpretação, talvez o maior ator da Hollywood de seu tempo. Mas, quando se fala hoje daquela Hollywood, ele já não é ninguém diante de Cary Grant, muito mais lembrado pelos historiadores.
Muni foi o ator mais poderoso da Warner, o único que podia escolher papéis. Quando o chateavam, pegava seu chapéu e ia fazer teatro em Londres ou Nova York. Tal independência pode explicar a aversão dos estúdios a ele e o fato de ter sido apagado. Sua citação por Dustin Hoffman não foi ocasional. Dustin claramente considera Muni seu modelo como ator, aquele que o ensinou a fazer o mais difícil: desaparecer dentro dos papéis que interpreta. E se conforma com a certeza de que, um dia, seu nome também desaparecerá.






