Todo dia morre um artista ou intelectual –jovem ou velho, famoso ou quase, de qualquer ramo. Consternado, vou à internet, às TVs e às reportagens e ouço ou leio a infalível declaração: "Perdemos Fulano, mas seu legado jamais será esquecido". Será? Antes cêsse, mas não ésse, penso eu. Será esquecido, sim, e esse esquecimento começará assim que encerrarem o velório, e o jornal com seu obituário for forrar a gaiola do papagaio. No Brasil, é um erro morrer.

E não importa o tamanho do morto. Exemplo? De 1930 a 1960, ninguém mais presente, poderoso e influente na música popular do que Ary Barroso (1903-1964). E dava razões para isso: fora o primeiro sambista a ficar famoso, o principal abastecedor de Carmen Miranda e Francisco Alves e fixador de gêneros como o samba dolente ("Faceira", 1931), o samba-canção ("Maria", 1934), o samba de Carnaval ("Foi Ela", 1935), o samba dramático ("Na Batucada da Vida", 1935), o samba baiano ("Na Baixa do Sapateiro", 1938), o samba-exaltação ("Aquarela do Brasil", 1939) e muitas outras variantes. Como compositor de piano, tinha uma orquestra nos dedos.

Não só. Foi também o primeiro compositor brasileiro a ser chamado por Hollywood; o mais ouvido locutor esportivo de seu tempo; sinônimo do Flamengo, do qual foi cartola secreto; descobridor de talentos em seu programa de auditório; inspirador da bossa nova (Tom Jobim e João Gilberto o adoravam); e, embora provocasse ciúmes até em Villa-Lobos, dizia-se, com orgulho, um sambista. Pois, com tudo isso, Ary está esquecido.