Escritor brasiliense detecta as vibrações incômodas que atordoam a Humanidade em meio ao grande debate ambiental 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Zumbido — Foto: Unsplash/Pawel Czerwinski RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você O novo romance de Vinícius Portella, "Zumbido", explora um misterioso ruído global. A trama se passa em Minas Gerais, onde cientistas investigam o fenômeno. A obra utiliza a ficção científica para debater a crise climática e a geopolítica mundial. O mistério sonoro divide governos e expõe a apatia da população. Ao trazer a pesquisa científica para o Brasil, o livro propõe o país como agente ativo no debate ambiental, superando a posição de mero espectador. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Em um mundo pós-pandemia, imagine se ao menos um terço das pessoas ao redor do mundo passassem a escutar um zumbido insistente. É essa a premissa do livro “Zumbido”, de Vinícius Portella (autor do ótimo “A Grande Porção de Lixo do Pacífico e outros contos”, de 2024). Nascido em Brasília, o escritor é também editor e já publicou artigos acadêmicos sobre cultura e tecnologia, além de um livro de contos e outros dois romances. Agora, em seu novo livro, o zumbido é definido como “uma vibração de baixa frequência, às vezes trêmula e fraca, às vezes mais forte e rápida. Ciciado insistente murmurando, conseguia de algum jeito parecer ao mesmo tempo grave e fininho, pequena enxaqueca do tamanho do mundo, a martelar os tímpanos, castigar as têmporas. Muriçoca teimosa zunindo invisível no fundo de tudo”, conforme escreve o autor. "Zumbido", de Vinícius Portella — Foto: Divulgação A obra acompanha os desdobramentos desse fenômeno, mas de um ponto de vista científico, fazendo a ação se passar no Brasil, mais especificamente na cidade de Ressaquinha, em Minas Gerais, uma das cinco zonas do mundo onde o som é mais intenso. Dois grupos de pesquisa viajam para o local: um representando países do Norte Global, como Itália, França, Inglaterra e Japão, e retratado na narrativa principalmente pelo americano Mark; e o outro, de países do Sul Global, como Irã, Índia e China, centrado na figura da brasileira Rosana. Logo no início da narrativa entendemos que a crise do zumbido é também uma crise política e de informação. O romance entre Mark e Rosana, por exemplo, ocorre em segredo — não apenas pelo fato de Rosana ser casada, mas por estarem alinhados a comitês diferentes, como Romeu e Julieta distópicos. Ao longo da história, entendemos mais sobre a política global e acompanhamos os pesquisadores na busca incessante por respostas. Em certo ponto, a ficção científica dá lugar à investigação sobre o que é o zumbido e de onde ele vem. É curioso notar que, tanto no romance quanto em seu artigo científico, Portella cita o exemplo real de um ruído percebido por radiotelescópios em 1964. No começo, os físicos não entendiam o que era aquele som captado e chegaram a limpar o equipamento, achando que pudesse ser alguma interferência. Depois, descobriram que se tratava de “radiação cósmica de fundo em micro-ondas (...) Rastro do Big Bang. A luz mais velha do universo”, segundo um pesquisador explica a Rosana enquanto teoriza que o zumbido pode significar algo maior. Ecos ambientais É possível notar o subtexto ecológico no livro de Portella desde o início da história. Enquanto os governantes travam uma verdadeira guerra fria de acusações envolvendo o impacto da ação humana no planeta, o zumbido aproxima as pessoas que o escutam, mas logo se torna um assunto saturado para o restante da população. “E não era de se surpreender que tantos seguissem pouco emocionados com aquela bizarrice, alternando entre a descrença e a impaciência diante de uma situação que lhes parecia invisível e irrelevante”, afirma o narrador em terceira pessoa logo no primeiro capítulo. Nesse sentido, a obra aponta para a mesma direção de outras ficções científicas nas quais um evento sem explicações aparentes passa a intervir na rotina das pessoas como forma de alerta. Alguns exemplos recentes disso são “Quando os prédios começaram a cair”, de Mauro Paz, em que desabamentos inexplicáveis desfiguram cidades ao redor do mundo; “O silêncio”, de Don DeLillo, que retrata um apagão tecnológico em todo o planeta; e “A extinção das abelhas", de Natalia Borges Polesso, em que a morte desses insetos é um prenúncio de problemas ambientais. O mérito de todos esses livros, e agora também de “Zumbido”, é falar sobre o inimaginável, como afirma Ana Rüsche em seu livro “Quimeras do agora”, que investiga as relações entre literatura e Antropoceno: “uma das grandes questões da crise climática é a escala do acontecimento. Parece inimaginável. Assim, uma das colaborações da literatura e das outras artes é justamente fornecer imaginários possíveis para dar conta de introjetarmos o que se passa”. Nesse sentido, o fato de a história do livro de Portella trazer o conhecimento científico para o Brasil pode ser visto como uma metáfora de ação que nosso país pode tomar como agente na crise climática, e não apenas como mero expectador. Bruna Meneguetti é jornalista e escritora ‘O último maxixe’, de Igor Miguel Pereira Esta ficção histórica acompanha a compositora Chiquinha Gonzaga (1847-1935) e seu encontro com o samba, tendo como pano de fundo a batida que surgiu no bairro do Estácio e os primórdios do cinema falado no Brasil. Foto: Divulgação ‘Pau Brasil 100 anos’, Gênese Andrade O volume traz fac-símilesrede do “Manifesto da Poesia Pau Brasil” (1924) e do livro “Pau Brasil” (1925), ambos de Oswald de Andrade. Reúne ainda mais de 50 textos críticos publicados entre 1924 e 1927 e percorre a correspondência dos modernistas, reconstituindo polêmicas literárias. Foto: Divulgação ‘A arte de matar’, de Salgado Maranhão Vencedor do Prêmio Jabuti (1999) e do Prêmio de Poesia da ABL (2011 e 2016), o autor traz nova seleção de poemas. De figuras históricas como Caim, o primeiro assassino da tradição bíblica, ao crime organizado, o poeta mira na violência. Foto: Divulgação ‘Casa Flor’, de Janaína de Figueiredo e Duda Oliva A obra apresenta para a criançada as histórias da Casa da Flor, construída em São Pedro da Aldeia, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro. Foto: Janaína de Figueiredo e Duda Oliva
Crítica: Ficção científica bem-humorada, 'Zumbido' mira mundo louco em que vivemos
Escritor brasiliense detecta as vibrações incômodas que atordoam a Humanidade em meio ao grande debate ambiental






