Em setembro de 2023, o vice-presidente de relações públicas do Discord esteve no Brasil. A pedido dele, fui a São Paulo para uma reunião de três horas. O país ainda estava em choque com reportagens do Fantástico, que expuseram ao grande público o que os canais de denúncia e as autoridades veem todos os dias: violência extrema, abuso sexual de crianças e bebês, imagens gráficas de suicídio, automutilação e maus-tratos a animais. O Brasil engatinhava na regulação de plataformas, e ele me dizia que a prioridade da empresa no país era atender os pedidos das autoridades.

Desde a tragédia recente que vitimou uma adolescente de 13 anos em Naviraí (MS) —a jovem foi induzida por integrantes de um grupo que atuava na internet a praticar automutilação e tirar a própria vida durante uma transmissão ao vivo realizada na plataforma, segundo a polícia—, o Brasil acelerou de zero a 100 em 15 dias na implementação do ECA Digital.

A ANPD (Agência Nacional de Proteção de Dados), que ainda se estrutura para fiscalizar a lei, agiu rápido. De maneira técnica e acertada, determinou a suspensão, pela própria plataforma, do Go Live —funcionalidade usada no Brasil para transmitir crimes bárbaros, envolvendo abuso e extorsão sexual, ataques às escolas, automutilação e suicídio, sem que os abusos sejam detectados. As demais funcionalidades seguem funcionando normalmente.