Impacto total ainda está sendo dimensionado no país e na região autônoma do Tibete, onde equipes de resgate chinesa conseguiram chegar nesta sexta. 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Um homem está sentado em meio aos escombros de uma casa inundada por lama após enchentes repentinas em Devighat, no distrito de Nuwakot, no Nepal — Foto: Arun Sankar/AFP A Cruz Vermelha estimou nesta sexta-feira que as enchentes e deslizamentos de terra que varreram o Nepal e o Tibete afetaram diretamente ao menos 93 mil pessoas apenas do lado nepalês da fronteira, onde a contagem de mortos oficial atingiu 579, em um momento em que as equipes de resgate ainda lutam para acessar áreas afetadas. O número de desaparecidos saltou para 1,9 mil após a informação de que 993 trabalhadores de projetos do setor energético estavam na região, ampliando a quantidade de desaparecidos no total — somado à região autônoma chinesa — para 2,4 mil. A chuva constante e a previsão de mais precipitação nos próximos dias é motivo de preocupação para os trabalhos de busca, com autoridades dos dois lados da fronteira monitorando dois lagos de água represada que ameaçam romper, além da possibilidade de novas geleiras cederem, ocasionando uma nova avalanche. — O trauma deste evento é enorme. Milhares de casas foram destruídas ou sofreram significativos danos. Acreditamos que pelo menos 93 mil pessoas foram afetadas e estão em situação de grande necessidade — afirmou o chefe da delegação da Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho no Nepal (IFRC, na sigla em inglês), David Fisher, acrescentando que não foi possível fazer um levantamento sobre parte das áreas atingidas "devido à destruição de estradas e pontes, bem como à interrupção da cobertura de telefonia móvel e do fornecimento de energia elétrica". Em solo e com apoio aéreo, equipes de resgate civis e militares continuam em busca de sobreviventes. O Exército do Nepal divulgou um vídeo nesta sexta-feira mostrando o resgate de pessoas que ficaram presas no túnel de uma hidrelétrica em construção após a enchente de quarta-feira. Um comunicado inicial afirmou que 350 pessoas haviam sido retiradas, e que ainda havia 100 para prestar socorro. Do lado tibetano, a primeira equipe de resgate chinesa conseguiu alcançar o posto de fronteira de Gyirong, onde cães-farejadores ajudavam a localizar vítimas. À medida que os trabalhos avançam, a dimensão real do desastre vai se revelando. O Nepal estima os danos materiais, em uma contagem preliminar, em US$ 1,3 bilhão (R$ 6,77 bilhões no câmbio atual). A liderança chinesa não emitiu estimativas sobre a situação no Tibete. A coordenadora residente da ONU no Nepal, Lila Pieters Yahia, afirmou que mais de 40 pontes foram destruídas ou danificadas no país, e que "mais de 40 quilômetros de estradas foram completamente destruídos". A ação imediata de países vizinhos, como a Índia, e de agências da ONU têm suprido algumas das necessidades da operação de resgate e do auxílio aos afetados. Água, cobertores, roupas e comida foram entregues nos distritos nepaleses em situação crítica. Autoridades, porém, temem o que está por vir, uma vez que a pobre nação do Himalaia provavelmente vai precisar de recursos externos para se reerguer — um processo que pode expor os mais vulneráveis. — O que sabemos é que os riscos existentes para mulheres e meninas disparam quando ocorrem desastres. Mais mulheres e meninas são vítimas de exploração e abuso. Mais mulheres e meninas passam fome e ficam sem medicamentos quando os recursos são escassos — afirmou a representante da ONU Mulheres no Nepal, Patricia Fernandez-Pacheco, apontando que cerca de 160 mil mulheres e meninas que vivem nos distritos de Rasuwa e Nuwakot foram direta ou indiretamente afetadas. Forças Armadas do Nepal resgatam sobreviventes de enchente presos em túnel de hidrelétrica Sob risco contínuo As operações de resgate nos dois lados da fronteira chegaram a ser suspensas nesta sexta-feira, após autoridades chinesas e nepalesas emitirem um alerta às equipes em campo sobre o transbordamento de um lago de água represada que se formou após a avalanche de quarta-feira. No Nepal, autoridades chegaram a ordenar que as pessoas se deslocassem para áreas mais altas, longe da várzea dos rios, mas as missões foram retomadas depois que se constatou que o volume de água que entrou na bacia do rio Bothe Koshi não provocou uma subida significativa do nível da água. Com a chuva caindo e o clima de monções prometendo mais precipitações para os próximos dias, os resgatistas temem que o solo instável possa ceder, provocando novos deslizamentos nas margens do rio e em áreas de encosta. As preocupações também se viram para o topo da Cordilheira do Himalaia, onde um segundo lago de água represada foi localizado, e também ameaça despejar milhares de litros cúbicos de água no mesmo caminho da torrente de quarta-feira. Lagos formados após avalanche preocupam Nepal e Tibete — Foto: Arte/O GLOBO A Autoridade de Gestão de Desastres do Nepal informou nesta sexta-feira que monitora os dois lagos, o que cientistas afirmam ser vital para poder emitir um alerta em caso de necessidade. Outros riscos são mais difíceis de monitorar, e estão exigindo uma operação complexa. Uma fonte do Departamento de Hidrologia e Meteorologia do Nepal ouvida pela rede britânica BBC disse que duas geleiras perto da que cedeu na quarta-feira sobre o rio Lhende estão em observação, com base em imagens de drones compartilhadas pela China, captadas nna encosta norte do Monte Langtang Lirung. — Imagens de satélite sugerem que uma das geleiras pode conter massas de gelo suspensas que exigem observação e avaliação — disse Qianggong Zhang, chefe da área de riscos climáticos e ambientais do Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas (ICIMOD), citando que as outras duas geleiras alimentam o mesmo rio que transbordou. 'Tsunami' no Himalaia Mesmo sem números finais, a tragédia já é a mais letal no Nepal desde o terremoto de 2015, quando mais de 9 mil pessoas morreram. Em 1993, enchentes históricas mataram mais de 1,3 mil pessoas. A tragédia do lado tibetano ainda é difícil de projetar, com as autoridades chinesas se referindo a apenas cinco mortos até o momento, e cerca de 550 desaparecidos — embora hajam admissões públicas de que o cenário é mais grave que o retrato momentâneo, com o primeiro-ministro Li Qiang afirmando que a região presenciou uma "significativa perda de vidas" durante uma reunião de cúpula do governo. Sobreviventes compararam a torrente de água que desceu das montanhas com uma "tsunami" em meio ao Himalaia, considerando a força com que a parede de água, lama e destroços arrastou tudo que estava no percurso. Inundações deixam mortos no Nepal e deslizamento provoca 'numerosas' vítimas no Tibete — Assim como um tsunami que varre tudo em seu caminho, a água levou ônibus, casas, pessoas... Levou tudo — disse Anjana Raja, indiana-americana resgatada pelas autoridades, em entrevista à rede americana CNN. — Vimos pessoas sendo arrastadas pela água. Foi algo extremamente traumático de presenciar. Em 30 minutos, tudo havia sido levado e desaparecido. O trabalhador Buddha Tamang, resgatado do túnel identificado pelos militares nepaleses no curso do rio Trishuli, disse que só sobreviveu porque estava dentro de um túnel na barragem onde trabalhava quando a inundação atingiu o local. — Sobrevivi porque estava no túnel — disse Tamang, resgatado por helicóptero na quinta-feira após ficar ilhado por mais de 24 horas. — Os supervisores que trabalhavam do outro lado... todos foram levados pela correnteza. (Com AFP e NYT)