Um lago formado por um deslizamento de terra na fronteira entre o Nepal e a China começou a transbordar na sexta-feira, provocando pânico e colocando em risco áreas devastadas por uma enxurrada dois dias antes. As operações de resgate foram temporariamente suspensas, mas retomadas depois que a situação do lago, formado após o colapso de uma geleira que desencadeou inundações catastróficas na fronteira sino-nepalesa, foi considerada controlável na tarde de sexta-feira (horário local) por autoridades de ambos os países. Estima-se que o volume do lago, que se estende pelos dois lados da fronteira e fica rio acima da passagem fronteiriça de Gyirong, havia superado 2,5 milhões de metros cúbicos de água nesta sexta. No dia anterior, a China e o Nepal haviam estimado que o volume poderia subir apenas entre 1,5 milhão a 2 milhões de metros cúbicos, antes de transbordar para o rio Bhotekoshi. Diante do transbordamento, moradores correram para áreas mais elevadas carregando seus pertences enquanto avisos pediam que se mantivessem afastados do rio. Policiais permaneciam de prontidão com cordas e macas, segundo testemunhas ouvidas pela Reuters. “Todo mundo começou a gritar ‘corram’, então eu corri. A sirene na cidade de Bidur também disparou. Fiquei com muito medo”, afirmou Shanti Tamang, de 40 anos, à Reuters. A emissora estatal chinesa CCTV informou que o risco de rompimento do lago levou todas as equipes e veículos de resgate chineses a recuarem e permanecerem de prontidão em uma área segura. Posteriormente, “depois que o risco representado pelo lago represado rio acima foi considerado administrável”, as operações foram retomadas, acrescentou. As autoridades nepalesas também suspenderam as operações de resgate por 90 minutos, mas retomaram os trabalhos em seguida, afirmou um oficial do Exército. A inundação catastrófica de quarta-feira, causada pelo colapso de uma geleira, matou 547 pessoas no Nepal, segundo a polícia do país, e cinco no Tibete, na China. Quase 1.500 pessoas continuam desaparecidas nos dois países. A Cruz Vermelha estima que mais de 90 mil pessoas tenham sido diretamente afetadas pelo deslizamento no Himalaia e necessitem urgentemente de assistência humanitária. Vilarejos, vales, usinas de energia foram devastados pela avalanche de lama. Além disso, estradas e pontes situadas em uma rota que liga Katmandu a Lhasa, no Tibete, e é muito utilizada por praticantes de trekking e peregrinos, foram destruídas pela tragédia. O Ministério das Relações Exteriores da Índia informou nesta sexta-feira que cerca de 320 cidadãos indianos continuam desaparecidos, muitos deles eram peregrinos hindus que seguiam para o sagrado monte Kailash e o lago Manasarovar, no Tibete. Em Pequim, a cúpula do Partido Comunista da China, conhecida como “Politburo”, se reuniu nesta sexta-feira para orientar os trabalhos de resgate, informou a mídia estatal. As autoridades devem “formular cientificamente os planos de busca e resgate e fazer todos os esforços para procurar desaparecidos chineses e estrangeiros”, afirmou a reunião presidida pelo presidente Xi Jinping, de acordo com informações da a agência estatal de notícias Xinhua. O encontro apontou que os trabalhos de resgate enfrentam “desafios extremamente difíceis” e pediu o reforço do monitoramento de lagos glaciais, riscos de deslizamentos e lagos formados por barreiras naturais, além do envio de ajuda emergencial às áreas afetadas no Nepal e de maior cooperação internacional em desastres. Nesta foto divulgada pela agência de notícias Xinhua, uma imagem feita por drone mostra uma área atingida por inundações, na quinta-feira, 27 de agosto de 2026, em Nuwakot, Nepal — Foto: Sulav Shrestha/Xinhua via AP Anteriormente, equipes nepalesas haviam usado helicópteros para procurar sobreviventes e lançar suprimentos de emergência para milhares de pessoas isoladas em cidades e vales. Serviços de emergência — alguns com cães farejadores — também recuperaram dezenas de corpos arrastados até as planícies. Dibga Tamang estava entre as últimas pessoas resgatadas de Rasuwa na quinta-feira e foi retirada de helicóptero, com outras três pessoas, para um acampamento militar em Nuwakot. “Todas as nossas pessoas se foram. Estão mortas”, afirmou Tamang. “Não tenho mais ninguém esperando por mim. Tudo e todos se foram. É o fim.” Nepal recusa ajuda estrangeira em operações de resgate Embora ofertas de assistência estejam chegando de vários países, o Nepal afirmou que não precisa, neste momento, de ajuda estrangeira nas operações de busca e resgate. “A oferta de ajuda é natural. Nossas forças de segurança estão conduzindo as operações de busca e resgate. Por enquanto, não precisamos desse tipo de ajuda”, afirmou nesta sexta-feira Lok Bahadur Chhetri, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores. Uma equipe sul-coreana de resposta rápida já está em Katmandu, mas ainda não foi mobilizada porque o governo nepalês não tem, até o momento, um plano para aceitar equipes estrangeiras de resgate, segundo o Ministério das Relações Exteriores da Coreia do Sul. O Kathmandu Post informou que Índia, China, Estados Unidos, Reino Unido, Japão, Coreia do Sul, Sri Lanka e Bangladesh pediram ao governo autorização para que suas equipes de busca e resgate participassem das operações. Até a noite de quinta-feira, equipes chinesas ainda não haviam conseguido chegar à área mais atingida do lado chinês da fronteira, a passagem de Gyirong, segundo relatos da mídia estatal. Equipes trabalhavam para retirar detritos da principal estrada de acesso à região. Soldados do Exército ajudam uma família a desembarcar de um helicóptero após ser resgatada de uma área atingida por inundações repentinas no distrito de Nuwakot, no Nepal, na sexta-feira, 28 de agosto de 2026 — Foto: AP Photo/Rajesh Kumar Singh Edifícios foram ‘arrastados como palitos de dente’ Em várias partes do mundo, parentes dos desaparecidos buscavam desesperadamente informações sobre seu paradeiro. Sneha Sudhir era uma de dez mulheres cujos maridos haviam partido do Nepal em uma viagem ao monte Kailash, no Tibete, quando o desastre atingiu a região. Os homens, todos do norte da Virgínia, estão entre as dezenas de americanos desaparecidos. “Onde eles estão?”, perguntou Sudhir, chorando, de sua casa em Chantilly, na Virgínia, na quinta-feira. Segundo Sudhir, as mulheres estavam apoiando umas às outras e buscando informações com autoridades, políticos, amigos e familiares nos Estados Unidos e na Índia. “Todo mundo se reveza para chorar, enxugar as lágrimas e voltar ao trabalho”, afirmou. O presidente Donald Trump disse que os EUA ofereceram apoio ao Nepal. “Ninguém jamais viu algo assim, em que edifícios muito resistentes, sólidos e bem construídos foram arrastados como se fossem palitos de dente. É algo terrível. Estamos enviando ajuda, conversamos com a liderança e dissemos que, seja o que for que precisem, terão.” Moradores carregam seus pertences enquanto seguem para um local seguro após as inundações repentinas em Devighat, no distrito de Nuwakot, no Nepal, em 27 de agosto de 2026 — Foto: AP Photo/Niranjan Shrestha