0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Lula em bancada para entrevista com presidenciáveis — Foto: Globo/Manoella Mello A estreia de Lula na maratona eleitoral pela TV Globo mostrou por que ele passou os últimos meses faltando a debates e dando entrevistas a veículos camaradas. Pela primeira vez, o presidente foi confrontado de verdade com as suspeitas de tráfico de influência e corrupção que atingem seu filho, Lulinha, o ex-chefe de gabinete, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, e seu ex-líder no Senado, Jaques Wagner (PT). Dos 40 minutos de entrevista, 25 foram sobre corrupção, nos quais Lula demonstrou não ter aprendido muito em relação ao passado. Assim como quando surgiram as primeiras denúncias do mensalão, se disse deprimido e chateado, porque tanto o filho quanto o ex-chefe de gabinete “sabem que não podiam cometer nenhum erro”, mas garantiu que se algo ficar provado contra eles, terão que pagar. Mas as afirmações sensatas logo deram lugar à irritação, quando ele passou a comparar a situação do filho à Lava-Jato e a acusar a Polícia Federal de vazar informações e a imprensa de divulgar mentiras. Lula também derrapou ao dizer que não conhece a lobista Roberta Luchsinger, que aparece nas mensagens captadas pela PF falando em nome de Lulinha e se jactando de ter sido convidada para ocupar o cargo que quisesse no governo. “Eu não conheço essa moça, eu nunca vi essa moça na minha vida, ela nunca esteve próxima de mim”, afirmou. Poucos minutos depois, já era desmentido nas redes sociais pelas fotos em que ele e Roberta aparecem juntos, sorridentes, em diferentes situações. E ainda arriscou-se desnecessariamente ao lançar aos entrevistadores uma pergunta desafiadora: “Essa mulher conseguiu liberar o dinheiro?” Em vários momentos reclamou da entrevista, e quis “ensinar” a Renata Vasconcellos o que ela deveria perguntar, ao invés de cobrá-lo a explicitar as metas de redução da dívida. “Eu pensei que uma jornalista da sua qualidade e da sua competência poderia começar essa entrevista falando diferente”. “Você poderia dizer: ‘presidente Lula, o senhor foi o único presidente na história do Brasil que fez superávit primário nos oito anos do seu primeiro mandato’”. Fosse outro candidato, seria acusado de mansplaining e misoginia. Lula só saiu das cordas quando começou a responder sobre educação e segurança pública. Ainda assim, falou mais de passado do que de futuro e fez promessas velhas — como a criação do Ministério da Segurança Pública, que estava prevista na transição e não saiu do papel, ou o fortalecimento do Sistema Único de Segurança Pública — ideia de 2003. Em seu favor, diga-se que não teve chance de abordar temas que poderiam favorecê-lo, como soberania e a escala 6x1 — e demonstrou energia de sobra, um ativo para um político de 80 anos. Não se tratasse de Lula, um desempenho como o de ontem poderia se converter em problema. Para ele, pode acabar se tornando apenas a memória de uma noite ruim. Só depende do que estiver disposto a corrigir.