As duas embalagens: num ambiente, grita e provoca; no outro, fala de Previdência, reforma trabalhista e coalizão. Candidato à Presidência foi sabatinado por O GLOBO, Valor e CBN nesta quinta-feira 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Renan Santos na sabatina O Globo, CBN e Valor — Foto: Ana Branco / Agência O Globo No debate da Band, Renan Santos chegou com fraldas para Lula e Flávio Bolsonaro. Na sabatina de O Globo, chegou com Max Weber. Num ambiente, grita, provoca, produz corte para rede social. No outro, fala de Previdência, reforma trabalhista e coalizão no Congresso. Existem dois Renans? Não. O que existe são duas embalagens. Renan percebeu uma coisa que boa parte da política ainda não percebeu. O bolsonarismo deixou parcialmente órfão o território do antissistema. Não porque Bolsonaro tenha perdido sua base. Mas porque aquilo que nasceu prometendo destruir a velha política virou partido, bancada, família política e sucessão hereditária. Flávio Bolsonaro se apresenta como herdeiro do pai. Renan quer ser aquilo que vem depois dele. É uma operação inteligente. Ele não diz ao eleitor bolsonarista que sua revolta estava errada. Diz que escolheu o representante errado. Preserva a indignação e tenta trocar seu proprietário. Para o algoritmo, oferece raiva. Para o PIB, oferece PowerPoint. Para o debate, fralda. Para a sabatina, Weber. O primeiro Renan busca atenção. O segundo, legitimidade. E faz isso com competência, sobretudo entre homens jovens, antipetistas e cansados da política tradicional. O interessante é que, quando Renan baixa a voz, o conteúdo não fica mais moderado. Na sabatina, não apenas criticou a mudança da escala 6x1. Defendeu um novo regime trabalhista e chegou a falar em caminhar para a obsolescência da Justiça do Trabalho. Na segurança, defendeu o uso de Estado de Defesa em áreas dominadas por facções. No Jornal Nacional, já havia dito que “decisão ilegal não se cumpre”. Na sabatina, teve a oportunidade de recuar. Não recuou. Afirmou que, diante de uma decisão judicial que interrompesse uma operação considerada legal pelo governo, recorreria, ouviria a AGU, mas não desmontaria a operação. É aqui que a conversa fica séria. Renan diz defender o Estado Democrático de Direito. Acredito que ele acredite nisso. O problema não é sua intenção. É a arquitetura de poder que aparece em suas respostas. Quem decide que uma decisão judicial é ilegal? Se o presidente pode escolher quais ordens cumprir enquanto recorre, quem define o limite do presidente? Qual a diferença dessa atitude com a que Maduro tinha na Venezuela? A questão fica mais delicada quando chega à favela. Renan argumenta que milhões de brasileiros já vivem sem direitos porque facções mandam no território. Neste diagnóstico há uma verdade incômoda. Quem precisa pedir autorização ao tráfico para circular ou trabalhar está tendo sua cidadania sequestrada. Mas daí conclui que, para recuperar esses territórios, pode ser necessário um regime de exceção. Depois de 25 anos entrando em favelas e aprendendo com quem vive nelas, meu aprendizado é o contrário: se o drama histórico da favela é ter menos direitos do que o asfalto, a solução não pode começar oferecendo menos direitos ainda. Morador de favela não precisa que um presidente o transforme em cidadão. Ele já é cidadão. Favela não é antessala da cidade. É cidade. E visitar favela não dá procuração para falar em nome dela. Há uma diferença entre Estado de Direito e tribunal do crime. No tribunal do crime, quem tem a força decide a regra e a punição. Na democracia, ninguém pode ser dono da lei. Nem o traficante. Nem o juiz. Nem o presidente. Renan quer herdar a revolta de Bolsonaro sem herdar Bolsonaro. Aprendeu a trocar o grito pela explicação conforme a plateia. O problema é que, quando explica algumas de suas propostas, elas assustam mais do que seus gritos.