Candidato à Presidência pelo Missão, Renan Santos foi o terceiro entrevistado da série de sabatinas O GLOBO, CBN e Valor com os presidenciáveis. Durante uma hora e meia, o fundador do Movimento Brasil Livre (MBL) passou por temas como segurança pública, em que faz promessas radicais, criticou o fim da escala 6x1 e disse que, uma vez presidente, não cumpriria decisões judiciais que considerasse "ilegais". Romeu Zema (Novo) estreou a série na terça-feira, e Ronaldo Caiado (PSD) deu continuidade na quarta. Augusto Cury (Avante) participa na sexta-feira. Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) foram convidados, mas não confirmaram presença. Veja a seguir, em cinco pontos, como foi a entrevista com Renan. Estado de exceção e crime organizado Ao defender um estado de exceção permanente para combater o crime organizado, Santos justificou com o argumento de que pessoas que vivem em territórios dominados já não têm direitos. — Ninguém que mora em região tomada pelo tráfico tem direito de ir e vir, os direitos são mitigados. Existe uma ficção de Direito. Se você pegar um Uber, vai tomar paulada. Não estou retirando um direito que já existe, as pessoas vivem num regime opressivo liderado pelos criminosos — apontou. — O que vamos fazer é uma política de ocupação e de destruição da liderança do crime organizado, e, aí sim, a política de desfavelização, que é levar o Estado e dar, além de deveres, direitos a essas pessoas. O candidato disse ter visitado favelas e conversado com associações e organizações locais, mas afirmou que não considera automaticamente legítima a posição dessas entidades. Para ele, há o risco de que organizações de representação comunitária atuem em benefício próprio ou sejam utilizadas para fins políticos. — Em alguns lugares, visitei associações das favelas; em outros, associações de moradores. Cada lugar é uma realidade. E outra coisa: isso significa pressupor que toda a organização de representação local é virtuosa e que defende os interesses daquele lugar, e não os interesses próprios, e não recebe emendas e transforma aquilo em um feudo político — alegou. O candidato do Missão é um dos que citam El Salvador e o regime de Nayib Bukele, baseado na supressão de direitos e no encarceramento em massa, para falar de segurança. Ele promete a construção de dez presídios de segurança máxima com capacidade de 30 a 40 mil pessoas cada. O investimento seria de R$ 6 bilhões, o que foi questionado pelos entrevistadores com base no custo demandado pelas unidades que já existem no país. Além de El Salvador, Santos mencionou um presídio do tipo que está sendo construído no Equador “com valores muito menores” que os brasileiros. Em relação ao modelo em si das unidades defendidas por ele, disse que as penitenciárias absorverão uma “massa carcerária muito grande” para substituir os "cadeiões" estaduais. — São presídios maiores que mantêm padrão de isolamento muito mais rígido que os “cadeiões”. A cadeia que existe hoje é muito passível de ser controlada pelo tráfico. A infraestrutura é precária. Vamos ter presídios com uma infraestrutura muito melhor. Vai ter alto volume de presos, mas com o nível de segurança dos de segurança máxima — disse. Descumprimento de decisões judiciais Como vem dizendo ao longo da campanha, Santos indicou que não cumprirá, se eleito presidente, decisões judiciais que ele próprio considere “ilegais”. Afirmou, contudo, que não quer entrar em "conflitos idiotas" com o Judiciário ou "mandar um tanque atropelar o Xandão", em referência ao ministro Alexandre de Moraes. Foi perguntado, por exemplo, sobre a ADPF das Favelas, que impôs maior controle às operações policiais no Rio, e disse que não a obedeceria. — O que estou dizendo é que, no combate ao crime organizado, se estou tocando dentro da lei operações que são importantes para a população brasileira, exijo ser respeitado. Não vou ficar que nem um doido desrespeitando decisões judiciais, não sou essa pessoa. Ele deu como exemplo hipotético um cenário em que o governador do Ceará, Elmano de Freitas (PT), não queira "colaborar" com uma empreitada do governo federal na segurança. Nesse caso, Renan acionaria estado de defesa e "assumiria a polícia de lá". 6x1 e economia Renan classificou o fim da escala 6x1 como uma medida "perigosíssima" e "populista" alimentada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Para reforçar o argumento, citou a crise que setores como o varejo já enfrentam. — Imagina isso num cenário em que estão prometendo que as pessoas vão trabalhar menos e ganhar mais. É um problema dramático, vindo de uma medida populista de um presidente que está tentando recuperar a discussão sobre trabalho — disse. — O efeito da escala 6x1 vai ser aumento da informalidade e diminuição da arrecadação de valores que vão para a previdência e, no fim do dia, aumento do rombo fiscal. Na visão de Renan, o país precisa de uma nova legislação trabalhista que substitua o predomínio da CLT e do modelo de microempreendedor individual (MEI). Ele também defende uma jornada de trabalho de 44 horas semanais. — Precisamos de um regime trabalhista que encare o problema de aumento da base, com base maior e tributação menor. E que gere segurança jurídica para contratar e demitir — apontou o presidenciável, que se mostrou simpático ao fim da Justiça do Trabalho. — Acho que ela tem que caminhar para a obsolescência e substituição. É um caminho natural. Renan também defendeu a ampliação da formalização dos trabalhadores. Segundo ele, o número elevado de MEIs seria, em parte, uma resposta de empresas e funcionários aos custos e à rigidez do modelo da CLT. — Todos os funcionários que trabalham comigo são MEI. É a forma que o brasileiro encontrou para contratar alguém, com a pessoa ganhando mais e se adequando ao bolso da empresa e do trabalhador — disse. Relações políticas Apesar de ventilar várias ideias de viés autoritário, Renan se classificou como um democrata e disse que negociaria com o Centrão para formar um governo. Ao mesmo tempo, contudo, afirmou que os eleitores tendem a colocar “300 bandidos” no Congresso. Fundador do Movimento Brasil Livre (MBL), ele relatou que aprendeu a lidar com esse perfil de político durante as manifestações pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). — Primeiro, é a aceitação. Chegar no parlamento e perguntar “quem vai compor governo comigo?” Eu vou chamar os partidos, já estou avisando — apontou. — Eu sou crítico a eles, falo de todos os escândalos. Eu sou um democrata, aquele que chora quando vê o que o eleitor faz com o sufrágio dele. Na hora de sufragar, o eleitor vai meter pelo menos 300 bandidos no Congresso. Que vão comprar o voto deles, pois essa vai ser a maior eleição de todas de derramamento de dinheiro. Perguntado sobre a decisão do deputado federal Kim Kataguiri (Missão-SP), um de seus maiores aliados, de votar contra o PL da Misoginia, o presidenciável disse que concorda e classificou o texto como uma tentativa de "censura". Renan fez menção ao termo "betinha", gíria usada por adolescentes ligados à machosfera para ironizar a figura do "homem beta", descrito nas redes sociais como submisso e que se contrapõe ao ideal de "homem alfa", visto como dominante. — O espírito do tempo do legislador hoje é de censura. É o de não focar na resolução de temas concretos e de fazer demonstração pública de virtude sobre assuntos abstratos para ganhar voto — opinou. — O menino que brinca com outro que joga mal ou está zoando chama de betinha. É brincadeira de criança. Nunca esse tipo de coisa deve ser alvo de política estatal. Saúde Ao analisar o Sistema Único de Saúde (SUS), o representante do Missão brincou que era "SUScético" no passado, até começar a estudar o funcionamento de serviços de saúde pública em outros países. Assim como na área de segurança, inspirou-se em El Salvador ao defender a criação de um modelo de atendimentos baseado no criado por Nayib Bukele. — O DoctorSV, feito em El Salvador em parceria com o Google, é muito importante. O prontuário único é um aliado incrível, com capacidade de processamento de informações. As IAs e machine learning vão permitir capacidade preditiva de desenvolvimento de doenças e acompanhamento e, por consequência, alocação de recursos — garantiu. — E falo como uma pessoa que criticava o SUS. Até que vi o NHS (National Health Service, do Reino Unido), vi tecnologias que permitem que sistemas centralizados tenham ganho em escala.
Sabatina O GLOBO, CBN e Valor: Veja como foi a entrevista com Renan Santos em cinco pontos
Candidato à Presidência pelo Missão foi o terceiro entrevistado da série, que continua nesta sexta-feira, às 10h30, com Augusto Cury (Acante)












