Um exemplo de projeto do candidato que exigiria negociação com o centrão é a PEC Fiscal, um pacote de ajustes para reduzir os gastos públicos. Na entrevista, Renan reconheceu que aceitaria fatiar a PEC para facilitar a tramitação dela no Congresso. As jornalistas Andréia Sadi e Natuza Nery conduzem a entrevista diretamente dos novos estúdios da GloboNews, no Rio de Janeiro, com duração aproximada de uma hora e meia. "Eu adoraria passar ela [a PEC] integralmente, entendendo que ela tende a ser minorada por pressões parlamentares de bancadas durante esse período da transição. E eu entendo também que, se for o caso, eu precisaria passar um pedaço dessa PEC, por exemplo, as desvinculações [das receitas], desindexações [do valor do salário mínimo de aposentadorias e BPC]", disse Renan. Natuza Nery, Andréia Sadi e Renan Santos (Missão) — Foto: Globo/ João Cotta "Uma é desvinculação das receitas e a desindexação é o aumento do salário mínimo indexando ao aumento da aposentadoria do BPC." Renan Santos inicia uma série de entrevistas com os presidenciáveis. O presidente Lula (PT) foi sorteado como primeiro entrevistado, na terça-feira (4), mas informou que não compareceria. Quinta-feira (6) será a vez de Romeu Zema (Novo) e na sexta-feira (7) a de Ronaldo Caiado (PSD). Está prevista para segunda-feira (10) a entrevista com Flávio Bolsonaro (PL), que ainda não confirmou presença. Após a exibição no g1 e na GloboNews, o conteúdo completo ficará disponível em vídeo no g1 e em áudio no podcast O Assunto. Confira os destaques da sabatina de Renan Santos: PEC fiscal Renan Santos afirmou que o Brasil vive um "drama fiscal" e defendeu a adoção de medidas para reduzir o ritmo de crescimento das despesas públicas. Entre as propostas citadas, está a desvinculação de recursos destinados à saúde e à educação, além da desindexação de benefícios atrelados ao salário mínimo, como aposentadorias e o Benefício de Prestação Continuada (BPC). O candidato foi questionado sobre a PEC Fiscal, que o deputado Kim Kataguiri (Missão), aliado dele, tenta articular no Congresso. Renan disse que aceitaria, se eleito, fatiar as propostas da PEC e que negociaria o apoio dos partidos do Centrão para conseguir aprovar essa proposta. Ainda assim, chamou os parlamentares de "parasitas". Segundo Renan, a atual estrutura de gastos obrigatórios pressiona as contas públicas e dificulta a queda dos juros. "Essa impressão, somada ao drama fiscal que a gente vem passando, precisa ser respondida agora", disse. Na avaliação dele, esse cenário acaba corroendo o poder de compra da população, já que os ganhos nominais são compensados pela perda causada pela inflação. "Você dá com uma mão para o aposentado ou para o beneficiário e tira com a outra", afirmou. Sobre a negociação com o Centrão, o candidato disse: “Eu vou ter que conversar. Eu vou ter que negociar e compor com membros deste Parlamento. Eu sou um democrata, eu vou ter que compor. O que eu não farei são negociações não republicanas." Um exemplo de uso para o dinheiro economizado com o corte de gastos obrigatórios seria para investir em presídios. "A redução [desses gastos] vai virar superávit, e eu vou resolver questões orçamentárias com esse superávit. Tudo que for corte de gasto vira aumento de investimento. Investimento em presídio é um gasto que o Estado vai ter", afirmou. Diálogo com o Centrão Questionado sobre as suas propostas que dependem de aprovação do Congresso e o posicionamento que adota contra o sistema político e o Centrão, grupo que já chamou de "parasita", Renan Santos afirmou que irá dialogar caso seja eleito presidente. 'Eleitor brasileiro vai eleger pelo menos 300 parasitas e vagabundos', diz Renan Santos "Eu aceito a alcunha do antissistema no sentido de que eu não participo do grande jogo e seus vícios, mas eu entendo o funcionamento da fábrica de salsichas que é o Congresso Nacional", afirmou, ao relembrar que organizou manifestações de rua pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Renan afirma que vai haver o momento de diálogo e reforçou o uso do termo "parasitas" para o Centrão. "Assim como existe o momento de eu ser o Renan militante do MBL, existe o momento de eu ser o Renan presidente no partido Missão e existe o momento também dos candidatos, dos partidos adversários, apontarem os problemas e o momento de eles sentarem na mesa para poder discutir projetos", afirmou. ‘Prendeu, matou’ O candidato explicou uma de suas falas ditas na convenção do partido Missão, realizado em 1º de agosto, que repercutiu na imprensa: o slogan “prendeu, matou” como estratégia de política de segurança pública. “O que eu estou avisando é o approach. A resposta que a Presidência da República tem que dar é o bandido ser tratado como bandido e o cidadão como cidadão”, respondeu. Para Renan, a fala foi um recado político de intenção de enfrentar de maneira “dura” o crime. Ao ser questionado se a política do estado seria matar e como isso afetaria a atuação policial, disse que essa interpretação é “confusa”, e que parece meio “óbvio” que as pessoas não interpretariam o slogan “dessa maneira”. "Hoje a regra 'prendeu, soltou', a provocação do 'prendeu, matou' é: você tem que ter dois caminhos. o prendeu, o matou, não tem outro caminho." Inspiração em Bukele Questionado sobre o modelo de segurança pública implementado pelo presidente de El Salvador, Nayib Bukele, Renan Santos afirmou que admira a "capacidade de ação e resolução do Estado", mas negou que pretenda reproduzir no Brasil medidas como prisões sem mandado judicial, julgamentos coletivos ou detenções baseadas apenas em denúncias anônimas. Renan Santos (Missão) responde sobre estado de defesa Segundo o candidato, as políticas adotadas em El Salvador respondem a uma realidade diferente da brasileira e não poderiam ser simplesmente transplantadas para cá. Renan disse que pretende atuar dentro dos limites da Constituição e defendeu que o enfrentamento ao crime organizado leve em conta as características de facções como o PCC. "A vontade de agir para resolver esses problemas tem que ser a mesma", afirmou. Durante a entrevista, Renan foi questionado ponto a ponto sobre medidas adotadas pelo governo Bukele. Ele respondeu que não defende prisões sem mandado nem o aumento do tempo de prisão sem ordem judicial, por considerar que a Constituição exige autorização da Justiça. Também afirmou que não apoia julgamentos coletivos e disse que o enquadramento de integrantes de facções deve ser precedido de investigação. Sobre habeas corpus, porém, defendeu restringir o benefício para condenados por crimes hediondos. "Eu não sou o Bukele, eu sou brasileiro. Meu nome é Renan Santos. Eu não sou neto de palestinos. Eu tenho outra família, eu nasci na Mooca. Eu moro no Brasil", disse. Estado de defesa Ao tratar de combate ao crime organizado, Renan Santos afirma que pretende usar o estado de defesa em localidades específicas para retomar territórios ocupados por criminosos. A promessa é de tomar a medida nos dois primeiros meses de um eventual governo. "O decreto de estado de defesa é para você fazer operações, e nessas operações você ter os instrumentos de estado para buscar os bandidos", diz, apontando que seu eventual governo não vai "sair prendendo moradores aleatórios". 🔎 O Estado de Defesa é decretado para preservar ou restabelecer, em locais restritos e determinados, a ordem pública ou a paz social. Ele pode determinar restrições aos direitos de reunião, sigilo de correspondência e de comunicação. Existem alguns tipos de situações específicas em que o instrumento pode ser utilizado, como em regiões ameaçadas por grave e iminente instabilidade institucional ou atingidas por calamidades de grandes proporções na natureza. "Esses são os instrumentos excepcionais para vencer a guerra contra eles [criminosos]. Eu quero viver em um país de normalidade. Eu quero fazer o que for meramente necessário para recuperar os territórios", afirma o candidato. Combate ao feminicídio Questionado sobre que propostas tem para combate ao feminicídio, Renan Santos disse que a principal forma de combate é por meio de políticas públicas municipais e estaduais, com trabalho de polícias e guardas civis. O plano de governo do candidato não trata do assunto. Renan Santos (Missão) responde sobre feminicídio O candidato disse que a referência dele sobre o assunto são o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o prefeito da capital paulista, Ricardo Nunes (MDB). Renan disse que há uma naturalização da violência contra a mulher, o que leva a um aumento de crimes não reportados. “O homem que comete o feminicídio, a violência contra a mulher, ele é o mesmo homem que fala que tem que matar os bandidos. Ele não se vê como alguém que está cometendo um crime e, às vezes, a mulher, na ânsia de manter o núcleo familiar dela vivo, não reporta. Então você tem um número gigantesco de casos não reportados”, afirmou. 'Autoridade masculina' Questionado sobre um vídeo exibido durante a entrevista, em que diz ser machista, Renan afirmou que defende o restabelecimento da "boa autoridade masculina" na criação de filhos. Segundo o candidato, jovens que crescem sem a presença do pai têm maior probabilidade de apresentar pior desempenho escolar, cometer crimes e reproduzir ciclos de pobreza. Renan afirmou que esse fenômeno está relacionado, sobretudo, ao abandono paterno e à falta de responsabilidade afetiva e financeira dos homens. "A questão central é: se você não restabelece esse tipo de postura, próxima de uma autoridade masculina que estabeleça limites e sirva de exemplo, a tendência desse rapaz não é apenas cometer crimes, mas ter uma vida mais disfuncional", afirmou. Durante a entrevista, as entrevistadoras questionaram se esse raciocínio não culpabilizaria mulheres que criam os filhos sozinhas. Renan respondeu que não e disse que apenas citava "dados estatísticos" sobre famílias monoparentais. "A maior parte dos casos de rapazes que cometem crimes vem de famílias em que o pai não está presente. Isso é estatístico. Isso é um dado", afirmou. O candidato também voltou a dizer que a declaração em que se definiu como "machista" foi uma provocação. "O que é o machismo? Vamos restabelecer a boa autoridade masculina", disse. "Talvez eu não seja o melhor comunicador do mundo. Só que eu estou falando uma verdade, porque eu quero resolver problemas de verdade." Promessa de acabar com favelas Ao tratar da proposta dele para desfavelização nas cidades, Renan Santos afirma que "países sérios não têm favelas" e que vai combater a existência da 'anomalia urbanística', como chamou este tipo de moradias, caso eleito presidente. "Culturalmente, o Brasil adotou outro caminho, que é o de aceitar a favela como elemento da própria personalidade. 'Ah, favela faz parte da nossa cultura'. Eu não acho que isso deva ser aceitado, e é um enfrentamento que tem que ser urbanístico, estrutural e cultural também", diz. O candidato afirma que as pessoas não serão retiradas dos lugares em que vivem para que sejam construídos empreendimentos imobiliários nestes locais. Ele defende o que chamou de leilão reverso para levar investimento privado às regiões de favelas. Segundo Renan, a proposta pretende transformar as favelas em bairros ao levar vias de acesso, arborização, equipamento urbano e conexão com transporte público. "O que é uma política de desfavelização? Primeiro, é atestar que viver em uma favela é indigno", afirma. "Resolver a favela é você resolver múltiplos problemas ao mesmo tempo, dentro de uma chaga que é urbana", diz. As pessoas, segundo ele, terão títulos de propriedade das casas após essa transformação em bairro. "Uma pessoa que vive hoje em uma favela não é titular de direitos, tem taxas de tuberculose maior, taxa de gravidez na adolescência maior e a presença endêmica do crime organizado". Entrevistas g1 e GloboNews A entrevista de Renan Santos faz parte de uma série realizada com os candidatos ao Palácio do Planalto. Foram convidados os cinco primeiros colocados na pesquisa Datafolha mais recente, divulgada no dia 24 de julho. Um sorteio realizado no dia 27 de julho, com a participação de representantes das campanhas, definiu a seguinte ordem: terça-feira (4): Lula (PT) – a assessoria do presidente informou que ele não compareceria.quarta-feira (5): Renan Santos (Missão) – confirmou presença.quinta-feira (6): Romeu Zema (Novo) – confirmou presença.sexta-feira (7): Ronaldo Caiado (PSD) – confirmou presença.segunda-feira (10): Flávio Bolsonaro (PL) – ainda não confirmou presença. Renan Santos tem 42 anos, é ativista político e empresário. Natural da cidade de São Paulo, ele estudou direito na Universidade de São Paulo (USP), sem concluir o curso. Esta é a sua primeira eleição e estreia na carreira como candidato à Presidência e levará pela primeira vez às urnas o partido Missão, sigla criada em 2025. Renan lidera o Movimento Brasil Livre, grupo que ajudou a fundar em 2014 ao lado do deputado federal Kim Kataguiri e outros ativistas. O movimento virou um partido político e tem como origem a organização e a participação de protestos que pediam o impeachment da então presidente Dilma Rousseff, em 2015 e 2016. O candidato se inspira em Nayib Bukele, presidente de El Salvador, com um discurso de guerra ao crime organizado. No evento de lançamento de sua candidatura, defendeu "matar quem roubar" e colocou a segurança pública e o combate ao crime organizado como temas centrais de sua candidatura.