Pela primeira vez concorrendo a um cargo público, Renan Santos (Missão) protagonizou alguns dos momentos mais inusitados do primeiro debate de presidenciáveis, no domingo (23). Para os estúdios da TV Bandeirantes, o candidato levou fraldas com os nomes de Lula e Flávio e enfileirou xingamentos contra o presidente e o senador. Sem marqueteiro, Renan e a equipe apostam em uma estrutura de “guerrilha digital” para alavancar a candidatura do empresário — e também dos candidatos a deputado da legenda. Além disso, apontam a entrevista ao Jornal Nacional, nesta semana, como um dos momentos mais importantes da campanha. Nessa "guerrilha", os apoiadores do Missão são incentivados a produzirem e compartilharem cortes de vídeos do candidato nas redes sociais em diferentes frentes. São impulsionados por um aplicativo próprio da legenda, com tarefas de gamificação para criar uma competição entre os usuários, além de grupos no Discord e um curso que promete ensinar os interessados a monetizar a empreitada. O entorno do candidato elenca como principal dificuldade o desconhecimento do eleitor sobre Renan, e usa como exemplo as primeiras eleições nacionais do Novo, em 2018, com João Amoêdo, em que ele obteve apenas 3% dos votos para presidente, mas o partido conseguiu eleger oito deputados federais, onze deputados estaduais, um deputado distrital e um governador. Renan marcou no último Datafolha, divulgado na sexta-feira (21), 4% das intenções de voto no primeiro turno. Depois do debate da Band, o candidato participará ainda de sabatina organizada pelo jornal O GLOBO, Valor e a rádio CBN, na quinta-feira (27). Um dia antes, na quarta (26), ele também estará em uma entrevista no Jornal Nacional, da TV Globo. A entrevista pelo telejornal é aguardada com entusiasmo. O guarda-roupa do candidato, que até então tinha apenas dois ternos, ganhou um terceiro conjunto, já ajustado para os compromissos desta semana. — Para o Jornal Nacional, vem um terninho novo por aí. Sem dúvida, por enquanto, é o momento mais importante da campanha. Porque o debate é importante, mas ele dá um traço de 1,5 a 3 (pontos no Ibope), o JN dá acima de 15 — diz a vereadora Amanda Vettorazzo, coordenadora da campanha. No último debate, Renan disse que Lula e Flávio fugiram do encontro como “cadelas”, entre outros xingamentos que lembram o jeito virulento de Pablo Marçal nos embates para a prefeitura de São Paulo em 2024. Segundo aliados, no entanto, esse tipo de comportamento é um mero reflexo da personalidade do candidato, descrito como espontâneo e explosivo. — A estratégia é ser verdadeiro mesmo. Não acho que nos ajude em nada tentar colocar o Renan em uma caixinha, que ele vai ficar quadrado e sem graça, como tem sido a campanha do (Romeu) Zema (do Novo), e a campanha de tantos outros. Essas são muito moduladas por marqueteiros — diz o deputado federal Kim Kataguiri, um dos articuladores da campanha. A candidatura não tem nenhum marqueteiro que centralize o marketing político da campanha e alguns movimentos são feitos na base do “feeling”. A escolha do candidato a vice, o militar da reserva Aroldo Medina, anunciado na chapa de Renan após um ato no Rio Grande do Sul, em julho, foi feita pelo candidato durante um evento na cidade de Caxias do Sul e pegou a todos de surpresa. Até então, Medina era cotado para disputar uma vaga ao Senado pelo partido. Além da chapa à presidência, o Missão registrou 540 candidaturas. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), analisados por O GLOBO, a legenda possui os candidatos com a média de idade mais jovem entre todos os partidos da disputa deste ano, marcando 35 anos. São Paulo concentra 21% dos postulantes, seguido de Paraná (12%), Pernambuco (7%) e Santa Catarina (7%). — Na prática, todas as candidaturas, seja em São Paulo, seja em qualquer outro estado, estão extremamente vinculadas ao Renan. O voto de legenda foi muito forte no Novo, na primeira eleição (nacional). Eu acho que o Renan Santos tem isso (habilidade de puxar votos para a legenda) ainda maior do que o próprio Amoedo — afirma Oliver Delgado, presidente do diretório paulista do Missão. Guerrilha digital Em São Paulo, berço do MBL, ficam os quartéis-generais da campanha. Em salas comerciais alugadas em um condomínio na região do Morumbi, na Zona Oeste, funciona a engrenagem em que o grupo surfa melhor, o ambiente digital. Ali foi desenvolvido o aplicativo do partido, também chamado Missão, que segundo a coordenadora da campanha, a vereadora Amanda Vettorazzo, foi encomendado por ela e colocado de pé por um desenvolvedor de 18 anos de idade. — Ele ficou desenvolvendo (o aplicativo) durante menos de um mês. Inauguramos o app faltavam uns dez dias para começar a campanha, e até hoje é só fechado, então só entra com os convitinhos, já deve estar se aproximando de 50 mil downloads — diz Amanda. A “palavra” do Livro Amarelo, o documento criado pelo partido para servir como base para o plano de governo de Renan, é propagandeada pelas dezenas de cortes compartilhados no aplicativo, assim como os trechos dos debates. Para ganhar tração, o app aposta em uma lógica de gamificação, dando pontos para os usuários que mais cumprem tarefas diárias, como compartilhar vídeos selecionados ou ler os recados deixados ali pelo candidato. Em lives, Renan destaca os perfis que mais acumulam pontos. Em um grupo no Discord funciona outro braço da empreitada. Ali, os apoiadores têm acesso a complementos como trilhas sonoras para as postagens e trocam mensagens sobre ferramentas de monetização. A revista Valete, do MBL, vende um curso chamado “Máquina de cortes”, por R$169. A página do curso, que tem um vídeo de Renan Santos, diz que nas aulas os alunos serão apresentados a estratégias de disseminação de conteúdos pelas redes sociais e monetização. “Jovens estão lucrando mais de R$3.000 por mês produzindo cortes virais com esse método. Ganhe de R$1.050 a R$4.850 por mês”, diz a propaganda. Todo o aparato volta a lembrar a candidatura de Pablo Marçal para a prefeitura em 2024. O candidato acabou inelegível até 2032 porque na disputa municipal, segundo o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo, montou uma “verdadeira estrutura empresarial” para remunerar influenciadores digitais pela produção de vídeos com cortes da campanha do então postulante pelo PRTB. — A diferença fundamental com o Marçal é que a gente não remunera. Não há pagamento para ninguém fazer corte. A gente ensina a fazer, porque também não é nenhuma ciência de foguete. Então, estamos bem tranquilos juridicamente em relação a isso — diz Kataguiri.
Sem marqueteiro, Renan Santos aposta em 'guerrilha digital' e mira em bancada de deputados do partido
Campanha do candidato do Missão também avalia que entrevista ao JN será 'momento mais importante' para alavancar candidatura









