Fenômeno digital, o presidenciável do Missão rejeita comparação com Pablo Marçal e busca se vender como a nova direita. O ativista se inspira nos presidentes da Argentina, Javier Milei, e de El Salvador, Nayib Bukele 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Com cabelo desarrumado e uma roupa formal, mas dispensando paletó e gravata, Renan Santos participa de evento na Faria Lima — Foto: Genial/Divulgação RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 13/06/2026 - 18:12 Renan Santos, do MBL, busca consolidar nova direita no Brasil Renan Santos, pré-candidato à presidência pelo partido Missão e um dos fundadores do MBL, busca se consolidar como representante da nova direita no Brasil, inspirando-se em líderes como Javier Milei e Nayib Bukele. Com 3% das intenções de voto, ele foca em redes sociais e debates para aumentar sua visibilidade, enquanto critica figuras como Flávio Bolsonaro e rejeita comparações com Pablo Marçal. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Com sotaque paulistano carregado, cabelo desarrumado e uma roupa formal, mas dispensando o paletó e a gravata, o ativista Renan Santos, de 42 anos, um dos fundadores do Movimento Brasil Livre (MBL) e agora pré-candidato à Presidência pelo Missão, cumprimentou na semana passada uma dezena de executivos da Faria Lima, centro financeiro de São Paulo, antes de encaixar uma frase atrás da outra em sua apresentação, quase sem tempo para respirar. Um exercício leve para quem, segundo o próprio, passa “mais de duas horas falando sem parar em lives na internet”. — Eu ia imitar o (Jair) Bolsonaro, mas me falaram que eu não posso mais fazer isso, pois pareço um idiota — disse na ocasião, ao relatar um suposto encontro entre o ex-presidente e o deputado Kim Kataguiri (Missão-SP), principal porta-voz de seu grupo político, em meio aos debates sobre a reforma da Previdência. Apostando no desgaste de Flávio Bolsonaro durante a campanha para o Palácio do Planalto, Renan tenta transmitir ares de maturidade ao MBL. Diz buscar se afastar do que ele chama de “liberobobismo”. Mas não abandonou, ao menos até agora, as frases de efeito que alavancaram o movimento na última década. Segundo pelotão Pesquisa da Genial/Quaest divulgada na quarta-feira mostra o presidenciável do Missão, partido criado em novembro do ano passado pela militância do MBL, com 3% das intenções de voto. Flávio aparece com 29% no levantamento, liderado pelo presidente Lula, com 39%. Renan surge embolado num distante segundo pelotão, que conta ainda com os ex-governadores Ronaldo Caiado (PSD), com 3%, e Romeu Zema (Novo), com 2%. A estratégia de Renan é investir pesado em conteúdo nas redes sociais e participar de debates e sabatinas para que o eleitor saiba quem ele é. O Datafolha de 22 de maio mostrou que 73% não o conhecem. Mas nem mesmo a plateia da Faria Lima demonstra tanta confiança assim neste plano. Sem tempo de propaganda gratuita em rádio e TV, o Missão aposta no ambiente digital como principal meio para difundir suas ideias. No geral, operadores do mercado financeiro entendem que Renan tem a mesma viabilidade do que Caiado ou Zema. A melhor opção hoje, relata ao GLOBO um executivo influente da Faria Lima, parece ser uma composição de Renan com Caiado, político com experiência prévia no Executivo, somado ao apelo que tem na pauta de segurança pública que se beneficiaria de um “canal aberto com o público jovem”. Renan, no entanto, afirma ter sido ignorado até agora pelos oponentes. Aposta que não seria tratado com respeito em conversas sobre eventual aliança com os demais candidatos de direita ao Planalto, aos quais, aliás, critica duramente pela “postura contida em relação ao filho de Bolsonaro”. — Não existe meio gângster — afirmou na Faria Lima, sobre Flávio, para arrematar em seguida: — Tenho que deixar claro para vocês: votar no Flávio é votar num bandido ligado ao Comando Vermelho. Procurada, a assessoria do senador informou que Flávio “não irá comentar”. Kataguiri diz que, ao lançar Renan, o MBL não busca quebrar a polarização, e sim ocupar um dos polos: — Nós nos consideramos uma direita legítima, letrada, diferente do Flávio. Ele tem problemas cognitivos insanáveis. Temos propostas, um projeto, conhecemos a doutrina liberal e a conservadora, os autores, as políticas públicas baseadas em evidência. Não acreditamos que a polarização será quebrada, nós assumimos é o polo da direita. Renan se inspira em dois símbolos da ultradireita: os presidentes da Argentina, Javier Milei, e de El Salvador, Nayib Bukele. Do primeiro, admira o discurso de austeridade, os memes de motosserra e a adoção do “sincericídio” na pauta fiscal. Do segundo, que enfrenta denúncias de violação dos direitos humanos, com prisões arbitrárias e sem autorização judicial, destaca o combate a facções criminosas. “No cabelo, sou Milei, e na barba, Bukele” foi outra frase dita na Faria Lima pelo ex-estudante de Direito da USP, que abandonou o curso, esteve filiado ao PSDB entre 2010 e 2015 e ganhou notoriedade ao organizar manifestações pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Em 2018, o MBL apoiou Bolsonaro, mas depois rompeu com o ex-presidente, o que levou a uma debandada de integrantes do movimento à época. Formado por um público majoritariamente jovem e masculino, o MBL adotou a tática do barulho nas redes sociais para impulsionar seu alcance e se manter em evidência. Paródias, memes, dancinhas e vídeos gravados de surpresa para constranger adversários compuseram o caldo midiático do movimento, com uma linguagem de confronto que, por vezes, ganha contornos machistas e extremistas. Dois episódios são ilustrativos nesse sentido. Em fevereiro de 2022, Kataguiri declarou no podcast Flow que a Alemanha errara ao criminalizar o nazismo, “por mais absurdo que eu considere a ideologia”. Depois, se desculpou e disse ter sido mal interpretado. Outro expoente do movimento, o ex-deputado estadual Arthur do Val (SP), perdeu o mandato por dizer, em áudio enviado a integrantes do MBL, que mulheres ucranianas com quem tivera contato em uma viagem de apoio a refugiados da guerra com a Rússia “são fáceis, porque são pobres”. E, em meio aos embates do MBL com o bolsonarismo, em 2021, a ex-ministra da Mulher e hoje senadora Damares Alves (Republicanos-DF) publicou nas redes um vídeo, gravado cerca de três anos antes, em que Renan convocara outros integrantes do MBL para irem a um bar em São Paulo, escolhido por sugestão de uma colega. “Se não nos deixarem entrar, ela será estuprada”, afirmou Renan, enquanto os demais repetiam a frase em coro. Em nota, o movimento disse se tratar “de uma brincadeira” e que as pessoas no grupo “estavam bêbadas”. O presidenciável do Missão admira o discurso de austeridade de Milei e do "sincericídio" na pauta fiscal — Foto: Cauê Del Valle/Missão Outsider Na plateia da Faria Lima, nomes do mercado, ao ouvi-lo, traçaram paralelos com o influenciador Pablo Marçal, outsider que ficou em terceiro lugar na eleição para a prefeitura de São Paulo em 2024. O líder do Missão rejeita a comparação. Marçal, afirma, é “o oposto daquilo que a gente faz”, “um vendedor de curso” que soube aproveitar o vácuo bolsonarista e criar “um efeito manada”. — Tirando o fato de eu ser um cara que veio da internet, é só isso. O que eu acho dele os meus advogados me proíbem de dizer — afirmou ao GLOBO.