A rede social deturpa a realidade, analisa Valter Hugo MãeDurante entrevista para Alice Ferraz, escritor Valter Hugo Mãe não poupou palavras ao analisar o efeito atual das redes sociais na nossa vida. Crédito: Coluna Alice FerrazGerando resumoO acordo judicial de US$ 16,68 bilhões que a Meta firmou nos EUA consolida uma alteração profunda no padrão de funcionamento das plataformas sociais. Ainda que esse pagamento se dilua ao longo de uma década, a mudança no funcionamento das redes Facebook, Instagram e WhatsApp deverá ser sentida em curto prazo. E deverá impactar concorrentes como YouTube e TikTok.PUBLICIDADEConsiderado como o maior teste judicial já realizado, a decisão tem efeitos diretos no design de aplicativos cujo principal motivador comercial é o comportamento de uso contínuo do usuário. As empresas de tecnologia passaram décadas defendendo que apenas distribuíam conteúdo e, portanto, não poderiam ser imputadas por aquilo que era produzido por terceiros, passam a ser responsabilizadas. E agora têm obrigações, como a instalação de filtros e limitadores nativos em seus sistemas de código para mitigar impactos na saúde das pessoas, especialmente crianças e adolescentes.Paula Sauer, economista e professora de comunicação e propaganda na ESPM, explica a mudança na percepção do mercado traçando um paralelo direto com a regulação da indústria do tabaco nos anos 1990. “Sai a ideia de que o usuário escolhe e entra o conceito de produto desenhado para criar dependência”, afirma. PublicidadeAcordo da Meta com procuradores dos EUA, de US$ 16 bilhões, terá impacto no modelo de negócio das plataformas sociais Foto: SK Mijanur Rahaman/Adobe StockEsse vício é gerado por funcionalidades como o scroll infinito, que carrega publicações ininterruptamente, e o autoplay, que inicia a reprodução de vídeos em sequência de maneira automática. O acordo judicial determina que a Meta desabilite essas ferramentas em contas de usuários com menos de 18 anos. Outros dispositivos que deixarão de funcionar são as chamadas “recompensas virtuais”: a contagem de curtidas, comentários e números de visualizações não serão mais visíveis. O acordo determina que a Meta reestruture a interface gráfica e o funcionamento algorítmico de suas plataformas. Dentre outras imposições, também está um limite diário padronizado de duas horas de navegação para menores de idade e o bloqueio automático de alertas e notificações sonoras ou visuais durante o período noturno.O conjunto de medidas se consolida no que os EUA chamam de “teen accounts”, ou contas adolescentes: perfis específicos para o público jovem que integram ferramentas nativas, e não opcionais, de controle parental e supervisão de tempo. São funcionalidades já impostas no Brasil por meio do chamado ECA Digital. PublicidadeQuando o design viciante ganhou holofotesA legislação em vigor em todo o território nacional desde março deste ano já estabelece a obrigatoriedade inegociável da verificação de idade documental para a criação de novos perfis e veta a utilização de elementos que induzam padrões de navegação compulsiva. Kenneth Correa, professor da FGV e consultor em desenvolvimento de tecnologias emergentes, destaca essa convergência institucional: “Esse cenário americano aterrissa no Brasil validando integralmente o nosso estatuto”.O tema do design viciante das redes sociais ganhou holofotes em 2020, quando chegou à Netflix o documentário dramático chamado “O Dilema das Redes”, dirigido por Jeff Orlowski. O vídeo reuniu depoimentos de ex-funcionários de grandes empresas de tecnologia, com acusações de que as companhias sabiam que faziam mal para a sociedade e mantinham tudo como estava devido ao lucro que obtinham com o uso constante das plataformas.A multa de US$ 16,68 bilhões para a Meta representa menos de um terço do lucro líquido reportado pela companhia no ano de 2025, que foi de US$ 60,5 bilhões. Só em 2026 até agora, a empresa lucrou US$ 42,6 bilhões, de acordo com seus resultados financeiros.PublicidadeOutras redes sociais devem mudar tambémEmbora não tenha admitido culpa quanto à principal acusação – intenção premeditada de causar dependência nos jovens – a Meta aceitou as condições e o pagamento. Em nota enviada ao Estadão, a empresa afirmou que já tem “proteções robustas em vigor para adolescentes e oferecemos controles simples para pais e responsáveis em todo o mundo hoje. Continuaremos monitorando como essas mudanças estão funcionando nos EUA e mantendo um diálogo produtivo com outros governos para apoiar experiências adequadas à faixa etária em nossas plataformas – e nos diversos aplicativos que os adolescentes usam”.A 'influencer mirim' Larrisa Mendonça teve de pedir um alvará da justiça para continuar com seu perfil, como pede o ECA Digital Foto: Tiago Queiroz/EstadãoA menção a “diversos outros aplicativos” se refere a uma articulação econômica e jurídica incluída nos termos do documento firmado com os procuradores dos EUA: quase um terço dos US$ 16 bilhões está diretamente condicionado à futura adesão de empresas concorrentes, especialmente o YouTube (do Google) e o TikTok (da ByteDance), às mesmas regras de limitação de tempo e adequação de interface para contas adolescentes.“A empresa assumiu o prejuízo financeiro, mas usou a mesa de negociação para empurrar toda a concorrência para o mesmo cercadinho regulatório”, analisa Correa. Ele explica que o estado americano do Novo México delineou a arquitetura e a tese central dessa ofensiva institucional no início deste ano, demonstrando nos processos a possibilidade real de classificar o design de algoritmos de recomendação como um risco sistêmico. PublicidadePUBLICIDADEO movimento estratégico da Meta projeta, portanto, uma mudança obrigatória no eixo de concorrência global. Segundo Correa, as plataformas capazes de implementar esses protocolos mais rapidamente poderão conquistar a preferência e a confiança familiar e, logo, terão maior fatia de mercado.Também nesta quarta-feira, 26, a Meta enviou uma “Carta aberta ao TikTok e ao YouTube para se juntarem a nós no apoio aos adolescentes”. O texto reforça as medidas tomadas no acordo com os procuradores estadunidenses, colocando-as como um “novo padrão da indústria”, mas que não podem “fazer isso sozinhos”. “Todas as plataformas devem empoderar os pais e apoiar os adolescentes”, continua, “porque sabemos que quando os adolescentes são restringidos em um aplicativo, eles simplesmente migram para outro.” Leia tambémMeta, dona do Instagram, admite que redes fazem mal às crianças; o que fazer para proteger seu filhoDiscord cita indícios de que responsáveis por estimular suicídio se uniram no TikTok e no Telegram‘Teremos muitos problemas de cibersegurança e alguém vai pagar a conta’Correa coloca que esse futuro subentende plataformas com infraestruturas internas divididas, uma para o público acima de 18 anos e outra para menores de idade, num ambiente mais rigoroso, monitorado, sem a visualização pública de métricas de curtidas e com limitadores de horário de uso. E a tendência, por economia de custos e viabilidade técnica, é estender esse padrão para diferentes mercados.PublicidadeOutra possibilidade é que as empresas tentem, por vias jurídicas e tecnológicas, esquivarem das limitações num futuro próximo. Sauer aponta o desenvolvimento de produtos, pagos ou “premium”, que ajudem a manter o ritmo de lucro e a absorver novos impactos de disputas judiciais. “As plataformas vão cobrar mensalidade para se proteger juridicamente”, avalia a professora. Vale ler tambémBanco Central deve continuar cortando os juros, mas deflação em agosto foi fenômeno pontualA produção no campo segue em expansão; até que ponto a rentabilidade acompanha esse crescimento?O El Niño que vai além das chuvas: fenômeno também muda a dinâmica de pragas e doenças