Naquele dia, uma manhã do início de agosto, os funcionários da funerária Evergreen, localizada nos fundos de um templo budista em Phnom Penh, capital do Camboja, preparavam-se para iniciar cremações.

O ritual era burocrático e religioso. Enquanto um policial preenchia os dados de um dos mortos em uma ficha, o ambiente estava preparado com um altar dourado que continha incensos, alimentos e fotos. Em dia de cremação, disseram os funcionários, é sempre assim.

É também uma questão de praticidade. Como o espaço armazena corpos de estrangeiros e a repatriação é um serviço de alto custo, famílias optam pelo traslado das cinzas. A opção foi oferecida aos pais do brasileiro Gabriel Oliveira, 24, que morreu no país em julho de 2025. A professora Leniêr Quirino, 54, e o veterinário Daniel de Araújo Vieira, 55, recusaram a alternativa. Eles precisavam ter certeza de que se tratava do filho.

Gabriel Oliveira Araújo Vieira, 24, morreu sob suspeita de tráfico humano no Camboja, e a arquiteta mineira Daniela Marys, 37, está presa no país asiático; ela, a família e advogados afirmam que criminosos colocaram drogas em seus pertences - Arquivo pessoal

O local abrigou o corpo de Gabriel, que morreu em circunstâncias não esclarecidas, por cerca de um ano, até que fosse repatriado pela família. A empresa que supostamente o teria empregado afirmou por mensagens à família que a morte foi decorrente da explosão de um micro-ondas, mas não apresentou nada que sustentasse essa afirmação.