O Fundo das Nações Unidas para a Infância analisou os planos de governo dos cinco principais concorrentes ao Palácio do Planalto 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Segundo o Unicef, Lula é o candidato que mais aborda formas de prevenir episódios violentos contra crianças e adolescentes — Foto: Artyom Kabajev/Unsplash Os candidatos à Presidência trazem em seus planos de governo propostas contra violências que atingem crianças e adolescentes. No entanto, nenhum dos postulantes prioriza a prevenção. É o que afirma o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), que analisou os programas dos cinco principais concorrentes ao próximo mandato no Palácio do Planalto: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), os ex-governadores Ronaldo Caiado (PSD), de Goiás, e Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais, e Renan Santos (Missão). A agência da ONU analisou as propostas apresentadas pelos candidatos e mediu quantas vezes a infância é mencionada nos planos de governo e quais temas eles abordam. O Unicef também avaliou o que propõe cada postulante e, a partir do resultado da pesquisa, fez uma série de recomendações aos presidenciáveis. Ao todo, nos cinco programas analisados, há 178 menções a crianças e adolescentes, sendo 42 relacionadas à educação; 39 à violência ou à segurança pública; 30 à saúde; 28 à proteção social; 8 ao esporte; e 31 a outros direitos. Os candidatos, porém, têm prioridades diferentes. Enquanto Lula e Caiado focam no enfrentamento da violência, Flávio, Zema e Renan falam mais sobre educação. Segurança pública De acordo com o Unicef, a segurança pública é o tema que permeia as plataformas eleitorais dos cinco candidatos, mas cada um trata o assunto de uma forma. As referências à violência contra crianças e adolescentes são abordadas de forma diferente pelos candidatos — com exceção de Renan Santos, que não a menciona de forma explícita entre suas propostas. Segundo dados do Anuário de Segurança Pública de 2026, só no ano passado, 2.079 crianças e adolescentes foram mortos de forma violenta no Brasil. O número equivale a quase 6 assassinatos a cada dia, sendo a maioria adolescentes do sexo masculino e negros. Em casa, entre 2024 e 2025, houve um aumento de 106% nos maus-tratos com mais de 38 mil casos no último ano. Também foram registrados 61 mil estupros ou estupros de vulnerável no país, a maioria ocorrida em casa por autor conhecido. A agência da ONU aponta que a maioria dos programas dos presidenciáveis foca apenas na criminalidade, como o aumento de penas, ampliação de policiamento e fortalecimento da investigação criminal. Já as menções às medidas de prevenção, ao fortalecimento do sistema de garantia de direitos e às respostas intersetoriais envolvendo outras áreas além da segurança são menos frequentes nas propostas dos candidatos. “Há mais ênfase em abordagens de resposta à violência do que em propostas voltadas a uma proteção integral de crianças e adolescentes por meio de políticas sociais”, diz o Unicef. Medidas punitivas A organização cita como exemplo os programas de Flávio e Zema, que focam principalmente em medidas punitivas, sejam respostas às violências cometidas contra crianças e adolescentes ou por elas. Caiado, por sua vez, também dá ênfase na investigação e na penalização dos autores da violência, mas traz propostas intersetoriais de prevenção. Segundo o Unicef, Lula é o candidato que mais aborda formas de prevenir esses episódios violentos. “Não se trata de escolher entre prevenção ou repressão. É preciso, sim, investigar e responsabilizar os autores da violência. Mas, para proteger crianças e adolescentes, é fundamental também agir antes que a violência aconteça, por meio de políticas de educação e oportunidades para jovens, da assistência social, da saúde, do fortalecimento das famílias e de sistemas que identifiquem e referenciem situações de violência”, diz o representante do Unicef no Brasil, Joaquin Gonzalez-Aleman. De acordo com o levantamento do Unicef, a violência sexual é a mais abordada nos planos dos candidatos. Ela é citada por três postulantes: Lula, Flávio e Caiado. Já os riscos no ambiente digital são citados apenas pelo petista e pelo ex-governador de Goiás. A agência pontua que homicídios de crianças e adolescentes, especialmente em contexto urbanos, são citados apenas no plano de Caiado. E não foram identificadas, em nenhum dos programas, propostas em relação às mortes em decorrência de intervenção policial nesta faixa etária. Violência armada O Unicef aponta ainda que a forma com que a violência armada atravessa a vida na infância também é pouco abordada pelos candidatos. As únicas propostas dedicadas a esse tema são referentes à redução da maioridade penal e a mudanças no sistema socioeducativo. A redução da maioridade penal é defendida nos programas de Caiado, Zema e Flávio. Após a análise dos cinco programas de governo, o Unicef fez um manifesto com diretrizes para tratar da violência na infância. Para combatê-la dentro de casa, a agência da ONU recomenda que “os futuros governantes incluam a ‘parentalidade protetiva’ nas políticas já existentes de primeira infância, cuidados, assistência social e enfrentamento às violências”. Segundo a organização, isso inclui formar agentes públicos — como equipes de assistência social, saúde, educação, conselhos tutelares, entre outros — para orientar pais, mães e cuidadores a prevenir a violência e adotar práticas parentais não violentas. Já para enfrentar a violência fora de casa, o Unicef defende a criação de uma Política Nacional de Prevenção de Violências contra Adolescentes, com uma abordagem intersetorial que vá além da segurança pública e conte com áreas como educação, saúde, trabalho e emprego e assistência social. A ideia é reduzir os fatores de risco associados à violência, como o abandono escolar, a pobreza, o racismo e a falta de acesso a oportunidades, além de responder aos casos em que essa violência já aconteceu.