Doutrina Donroe esbarra em investida de Pequim na região ao longo das últimas décadas. E até países alinhados ao presidente americano, como Equador e Peru, mantêm laços fortes com Pequim 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O presidente dos EUA, Donald Trump, e o líder da China, Xi Jinping — Foto: ANDREW CABALLERO-REYNOLDS /AFP Como chefe de uma associação que representa cidades de toda a Colômbia, Andrés Santamaría Garrido ocupa uma posição privilegiada para observar, no âmbito municipal, a estratégia econômica da China. Sentado em seu escritório no centro de Bogotá, onde há uma maquete do trem vermelho do metrô da cidade — projeto construído por um consórcio liderado por chineses —, Santamaría descreveu a diplomacia comercial de Pequim como agressiva, pragmática e difícil de ignorar. As empresas chinesas são mais baratas, persistentes e fáceis de negociar, afirmou. Também estão dispostas a contornar os governos nacionais para negociar diretamente com governadores, prefeitos, grupos empresariais locais e autoridades municipais. O resultado, segundo o diretor-executivo da Asocapitales, é que elas estão deixando cada vez mais para trás as concorrentes dos Estados Unidos. — Haverá uma abertura tecnológica para a China, porque eles simplesmente são mais avançados — disse Santamaría, citando veículos autônomos, robótica e drones como áreas específicas de especialização chinesa. A experiência de Santamaría vai ao cerne de um dilema para o presidente dos EUA, Donald Trump, e para seus planos de ampliar o controle americano sobre o Hemisfério Ocidental. Embora o presidente possa apontar avanços significativos na consolidação da influência política dos EUA por meio de uma série de líderes alinhados, da Argentina ao Peru, o esforço para estabelecer a supremacia econômica americana mostra-se muito mais difícil. Um dos motivos é que a presença dos investimentos chineses — de portos a projetos de energia e mineração — construída ao longo de anos na América Latina, continua grande e consolidada demais para que os governos da região simplesmente a descartem ao sabor das vontades do governo dos EUA. Ao mesmo tempo, Pequim conseguiu permanecer vários passos à frente de Washington ao avançar na cadeia de valor em áreas como veículos elétricos, baterias e data centers. É por isso que o presidente do Equador, Daniel Noboa, um aliado de Trump totalmente comprometido com a parceria de segurança com os EUA, acaba de concluir uma visita de uma semana à China, que incluiu uma reunião com o presidente Xi Jinping. Noboa obteve compromissos para ampliar a geração de energia solar e apoiar a resposta do Equador ao fenômeno climático El Niño por meio de um sistema meteorológico chinês baseado em inteligência artificial. É uma demonstração de como, apesar de toda a pressão política dos EUA, a dimensão econômica da chamada Doutrina Donroe de Trump continua sem se concretizar. Os laços econômicos com Pequim, de modo geral, “não foram afetados” pelos planos de Trump para a hegemonia no hemisfério, disse o embaixador do México na China, Jesús Seade. — Tudo isso continua na esfera política — afirmou, ao destacar a influência chinesa no comércio, tecnologia, investimento e inovação. —Para nós, é muito importante proteger a relação com os Estados Unidos — disse Seade em entrevista por vídeo de Pequim. —Mas não fazemos isso comprando briga com a China. Doutrina Donroe O esforço para conter o domínio de Pequim sobre ativos estratégicos sempre esteve no centro da versão de Trump para a Doutrina Monroe. No discurso de posse do segundo mandato, Trump afirmou que a China operava o Canal do Panamá e declarou que os EUA estavam “retomando-o”. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, reforçou a mensagem ao dizer que “a influência chinesa não pode controlar nosso próprio quintal”. A Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, documento de 33 páginas divulgado em novembro, formalizou a doutrina em uma seção dedicada ao Hemisfério Ocidental, que estabeleceu como meta do governo “restaurar a preeminência americana”. O texto fala em cultivar “líderes regionais” que compartilhem as prioridades de política migratória e de combate ao crime, ao mesmo tempo que exclui “concorrentes de fora do hemisfério”. Trump pode apontar alguns êxitos políticos claros de sua agenda, desde a captura de Nicolás Maduro na Venezuela e o isolamento de Cuba até o apoio ao presidente Javier Milei com um swap cambial de US$ 20 bilhões, concedido imediatamente antes das eleições legislativas de meio de mandato na Argentina. Em pouco mais de um ano, sete países latino-americanos realizaram eleições presidenciais, e candidatos apoiados por Trump venceram todas elas, mais recentemente na Colômbia. Mas, além de desafiar alguns projetos chineses emblemáticos — entre eles a presença da CK Hutchison, de Hong Kong, no Canal do Panamá, e o megaprojeto portuário de Chancay, de US$ 1,3 bilhão, no Peru —, os esforços dos EUA para conter a expansão econômica chinesa tiveram sucesso limitado. — O peso econômico da China a torna insubstituível, independentemente da postura cada vez mais coercitiva dos EUA — disse Cui Shoujun, vice-diretor do Instituto de Estudos de Desenvolvimento Internacional da Universidade Renmin, que mantém vínculos estreitos com o Partido Comunista Chinês. A recente onda de líderes alinhados a Trump gerou uma retórica pró-EUA, mas “as realidades econômicas neutralizaram de forma consistente as mudanças ideológicas”, afirmou, contrapondo as táticas de pressão de Trump à abordagem “mutuamente benéfica” da China para a região. Pesquisas de opinião parecem corroborar essa avaliação. A guinada comercial em direção à China nos últimos anos foi, sem dúvida, expressiva. O comércio de bens com a América Latina cresceu de pouco mais de US$ 14 bilhões em 2000 para mais de US$ 500 bilhões em 2024. A China superou os EUA como principal parceiro comercial da América do Sul, embora Washington continue dominante no México, na América Central e em grande parte do Caribe. Embora Pequim tenha criticado duramente as intenções dos EUA, a China não está recuando na América Latina em resposta. Isso não significa, porém, que ignore as preocupações americanas. A China tornou-se mais cautelosa, protege os ativos existentes e adapta a forma como busca novas oportunidades, segundo Christian Reyes, analista de risco político baseado em Pequim e natural do Equador. Isso envolve uma mudança de acordos entre governos, mais expostos, para canais do setor privado. Também há um afastamento dos grandes projetos de infraestrutura que dominam as manchetes, em favor de avanços por meio de acordos mais discretos em setores que Pequim cultiva há décadas. A mina de estanho de Pitinga, na Amazônia brasileira, cerca de 320 quilômetros ao norte de Manaus, capital do Amazonas, mostra como a China continua ampliando o controle sobre minerais críticos e terras raras ao se posicionar em ativos técnicos, remotos e mais difíceis de transformar em disputas diplomáticas. Quando a peruana Minsur concordou em vender a Mineração Taboca, em novembro de 2024, a estatal chinesa CNMC superou as ofertas dos concorrentes e pagou cerca de US$ 340 milhões pela empresa. Além das operações de estanho em Pitinga, a companhia obteve acesso potencial a um conjunto mais amplo de minerais estratégicos e elementos de terras-raras. Um investidor brasileiro que avaliou a Mineração Taboca e pediu anonimato para discutir negociações confidenciais disse que o ativo parecia pouco atraente pelos critérios convencionais. Ele o descreveu como um negócio de estanho próximo do ponto de equilíbrio, com passivos ambientais significativos, grandes necessidades de investimento e perspectivas limitadas de retorno. A CNMC estava disposta a assumir o risco. Em janeiro, a mineradora ampliou sua aposta em Pitinga ao anunciar um plano de US$ 100 milhões para modernizar as operações e aumentar a produção. Em contraste, o governo Trump não tem uma estratégia coerente de engajamento econômico para a região, segundo Margaret Myers, assessora sênior do Programa de Ásia e América Latina do Inter-American Dialogue. — A influência da China na região deriva de um amplo conjunto de fatores, especialmente do comércio. É claro que os líderes tomam decisões políticas tendo em mente seu principal parceiro comercial — disse. Chinesas na vida dos brasileiros No Brasil, a BYD, que tem concessionárias em todos os estados, capitais e grandes cidades, despejou dinheiro em publicidade na televisão no horário nobre, novelas e patrocínios no futebol. Os celulares dos brasileiros também parecem cada vez mais chineses: Shein, AliExpress, Temu e TikTok Shop no comércio eletrônico; a 99, da Didi, no transporte por aplicativo; e 99Food e Keeta, da Meituan, na entrega de comida. Em última análise, os países latino-americanos enfrentariam “custos econômicos quase insuportáveis” se fossem obrigados a se afastar da relação com a China, disse Carlos Vasquez, embaixador do Peru na China. — Somos obrigados a manter um equilíbrio em benefício dos nossos interesses nacionais e da nossa população — afirmou, acrescentando que alinhar-se completamente a qualquer uma das superpotências significa que “você vai perder”.