Fruto decora praças, rotatórias, avenidas e prédios públicos de Rio Verde e virou motivo de orgulho para moradores 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Abóboras espalhadas pela cidade de Rio Verde, em frente ao Paço Municipal — Foto: Cristiano Borges Na cidade que lidera a produção de commodities agrícolas como soja, milho e carnes em Goiás e é considerada uma das capitais do agronegócio brasileiro, o que chama a atenção em agosto e setembro são as abóboras. Praças, rotatórias, avenidas e prédios públicos de Rio Verde, no sudoeste do Estado, são enfeitados com variedades gigantes do fruto. A decoração faz parte das comemorações do aniversário do município, que completou 178 anos em 5 de agosto, mas integra um movimento maior, de resgate histórico e cultural de um símbolo da cidade e de pertencimento da população local. A história remete ao fim do século XIX. Por volta de 1870, três mil soldados do Exército brasileiro, que lutaram na Guerra do Paraguai, acamparam entre os rios Verdão e Verdinho, na região conhecida como Arraial de Nossa Senhora das Dores do Rio Verde. Famintas, as tropas se alimentaram com o fruto, que já era abundante naqueles campos. O episódio, relatado pelo escritor Visconde de Taunay, teria dado origem ao apelido de “Arraial das Abóboras” ou “Rio Verde das Abóboras”. A alcunha era vista como pejorativa pelos rio-verdenses há até pouco tempo. Abóboras estão espalhadas por Rio Verde, perto da entrada da cidade — Foto: Cristiano Borges A prefeitura de Rio Verde mantém uma área de seis hectares para o cultivo das abóboras exclusivamente para decorar a cidade. Algumas se destacam. É o caso das gigantes alaranjadas. São duas variedades americanas, a Atlantic Giant e a Mammoth, iguais às usadas nos Estados Unidos para o Halloween. A fazenda onde os frutos são cultivados fica, curiosamente, em uma região conhecida como Colônia dos Americanos, há poucos quilômetros do centro de Rio Verde. Produtores dos EUA e descendentes migraram para lá em meados dos anos 1970, quase um século depois da origem da fama das abóboras. Nessa área, são produzidas 500 toneladas anualmente, cerca de 10 mil frutos. Em média, cada abóbora pesa 50 quilos, mas algumas chegam a pesar quase 100 quilos. Há também uma variedade brasileira, a Landa, também chamada de abóbora seca. Além do tamanho, chama a atenção pelo formato de “pescoço”. Abóboras espalhadas pela cidade de Rio Verde, em frente ao Paço Municipal — Foto: Cristiano Borges Camila Caixeta, engenheira agrônoma da prefeitura responsável pela área, tem um carinho especial pelas abóboras. Cultivadas em período seco do Cerrado, elas exigem irrigação e cuidados específicos com o manejo, como a adubação e até a aplicação de uma espécie de “protetor solar”. Isso tudo para que os frutos expressem todo seu potencial produtivo e alcancem o tamanho e a coloração que impressionam moradores e turistas. As abóboras são colhidas no fim de julho. A colheita corresponde a quase 60 caminhões carregados. Os frutos ficam expostos por cerca de dois meses e há respeito com a decoração da cidade, até porque a maioria não é própria para consumo humano. — As abóboras gigantes alaranjadas não são comestíveis, pois são muito fibrosas, aguadas e não têm muito gosto. Elas são desenvolvidas para serem ornamentais — explicou. No fim de setembro, os frutos são recolhidos e parte é doada para criadores de suínos para alimentação animal. Abóboras espalhadas por Rio Verde, perto da entrada da cidade — Foto: Cristiano Borges Rio Verde tem a maior produtividade de abóboras por hectare no país. A cidade também tem festas juninas e festivais culinários com a temática das abóboras. O fruto até virou mascote do Esporte Clube Rio Verde, que disputa a segunda divisão do campeonato goiano de futebol: o Abobrão. — Era um símbolo pejorativo, mas historicamente sempre foi bonito — disse o prefeito Wellington Carrijo Júnior ao recordar o uso do alimento para matar a fome do batalhão que parou em Rio Verde no século XIX. — Quando se resgata esses símbolos, coloca-os expostos e isso fica bonito, tem um sentimento de pertencimento — completou. O que antes era pejorativo virou motivo de orgulho e identidade, e agora está na ponta da língua dos moradores locais. — Sou abobrense — disse o jornalista Pedro Cabral, de 30 anos.