Agricultura familiar adota práticas agroecológicas, recupera áreas degradadas e amplia a renda dos produtores Agricultora colhe algodão que será comprado pela Veja, marca de calçados franco- brasileira — Foto: Charlotte Lapalus/Divulgação As chuvas abundantes que caíram entre o fim de fevereiro e início de março deixaram a Caatinga em tons de verde exuberantes e fizeram a alegria dos agricultores da região do Seridó, no sertão potiguar. Foi o momento certo para Luiz Rodrigues, 53 anos, reservar 1,3 hectare para o plantio de sementes de algodão. Os outros 4 hectares de sua roça receberam os cultivos de milho, feijão e fava, no modelo de consórcio característico da agricultura familiar. Mais do que parte do sustento, voltar a plantar algodão chega a emocionar o agricultor: tem sabor de uma volta ao passado. “Fez parte da minha infância. Meu pai e meu avô cultivavam algodão nessas terras, até que o bicudo tomou conta de tudo”, conta Rodrigues, em referência à praga que dizimou as plantações na região a partir da década de 1980. Hoje o Seridó e outras regiões do semiárido no Rio Grande do Norte vivem um resgate da tradição algodoeira por meio de uma iniciativa que busca trazer a cultura de volta em sua vertente agroecológica, ou seja, sem utilização de agrotóxicos e com práticas de regeneração da Caatinga. O Projeto Algodão Agroecológico Potiguar (Paap), estruturado a partir de 2021 pela Secretaria de Estado do Desenvolvimento Rural e da Agricultura Familiar (Sedraf), fomenta quatro arranjos produtivos locais, que articulam organizações da sociedade civil, empresas, órgãos públicos estaduais e municipais e agricultores familiares. Um desses arranjos é o Agro Sertão, que envolve produtores, Embrapa Algodão, Sebrae-RN, prefeituras, Fundação Banco do Brasil e Instituto Riachuelo. Além de assistência técnica rural, prevê apoio à gestão e comercialização e promove a ponte com o mercado, garantindo aos produtores a compra de toda a produção. Atualmente está presente em 16 municípios do Seridó e contempla 159 famílias, que, juntas, devem produzir nesta safra em torno de 71 toneladas do algodão em rama (que inclui a pluma e a semente) e 29 toneladas da pluma. Na proposta agroecológica, nada se perde — parte das sementes volta para o campo, para ser plantada na próxima safra, e a outra parte vira insumo da alimentação animal, posto que o material é rico em proteínas. O controle de pragas, incluindo o temido bicudo, é feito por meio de um conjunto de práticas recomendadas pela Embrapa, como o melhoramento das sementes, o vazio sanitário (quando a terra fica de quarentena, sem receber plantios por 90 dias), a retirada de resíduos vegetais do campo e o uso de biofertilizante, produzido a partir da fermentação de uma mistura de rapadura, leite e estrume animal, entre outros ingredientes. O agricultor Luiz Rodrigues cultiva algodão agroecológico no sertão do Seridó (RN) — Foto: Alyson Lima/Divulgação “Essas técnicas têm sido testadas e aperfeiçoadas no campo pelos próprios produtores e agregado valor à produção, pois contribuem para uma terra mais saudável e a regeneração da Caatinga”, diz Sergina Dantas, gestora de bioeconomia no Sebrae-RN. Ela explica que o arranjo produtivo tem permitido também aos agricultores aumentar sua rentabilidade, a partir do plantio do algodão em consórcio com milho, feijão, arroz vermelho, abóbora, frutíferas e gergelim — que é um potente defensivo contra formigas. O preço do algodão agroecológico foi definido de forma participativa e tem sido negociado em cerca de R$ 17 o quilo da pluma, acima do valor do convencional, que é comercializado a R$ 3, em média, o que anima os produtores — entre eles, o agricultor Rodrigues, que está otimista e espera colher, nesta safra, entre 600 quilos e uma tonelada do algodão em rama. De acordo com Renata Fonseca, gerente do Instituto Riachuelo, as boas condições climáticas no período de plantio devem tornar a colheita em 2026 a mais farta desde o início do projeto. No ano passado, o arranjo produziu 37 toneladas de algodão em rama, sendo 14 toneladas da pluma. “Resgatar a cultura do algodão tem sido importante para a rentabilidade dos produtores e para estancar o êxodo rural, embora exista o desafio de manter os mais jovens no campo”, afirma. Plataforma social do grupo Guararapes, dono da rede Riachuelo, o Instituto Riachuelo é o principal financiador do Agro Sertão, com investimentos diretos de R$ 2 milhões desde 2021, que cobrem custos de assistência técnica, insumos e parte da infraestrutura produtiva, além de ser o responsável por comprar 100% da produção. No ano passado, o algodão colhido no Seridó resultou na produção de 70 mil camisetas feitas 100% com matéria-prima agroecológica. Outro arranjo produtivo do algodão agroecológico no âmbito do Paap tem como principal compradora a marca de calçados franco-brasileira Veja, conhecida internacionalmente por usar práticas e matérias-primas sustentáveis. A empresa compra integralmente a produção do arranjo que reúne 21 municípios potiguares, nas regiões do sertão do Apodi e Médio Oeste do Estado. Também estruturou cadeias no Ceará, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Rio Grande do Norte, Piauí e Mato Grosso. De acordo com Maria Valdenira Rodrigues, engenheira agrônoma da Veja, a empresa participa da construção da cadeia de fornecimento baseada nos princípios do comércio justo, relações de longo prazo e transparência. “Essa escolha permite conhecer a realidade das famílias, acompanhar os desafios de cada safra e direcionar investimentos para fortalecer as comunidades envolvidas. A origem da matéria-prima é tão importante quanto a qualidade do produto final”, diz. Em 2024, a marca trabalhou com 1.200 famílias produtoras de algodão no Brasil, organizadas em 16 cooperativas, e 200 famílias no Peru, na região de Chincha.