Maior petroquímica da América Latina vive corrida contra o tempo. Soluções em discussão incluem conversão de dívida em ações e injeção de recursos dos acionistas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Corrida contra o tempo. Braskem terá 90 dias para se entender com credores: opções incluem conversão de dívida em ações e injeção de recurso por acionistas — Foto: Magdalena Arrellaga/Bloomberg A Braskem, uma das maiores petroquímicas do mundo e responsável por produzir matérias-primas essenciais para toda a indústria, como embalagens, fraldas e peças para carros, informou que seu Conselho de Administração aprovou o pedido de recuperação extrajudicial. O pedido foi encaminhado à 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais da Comarca da Capital do estado de São Paulo. De acordo com a empresa, o objetivo é “assegurar um ambiente jurídico estável, protegido e adequado para negociação e implementação da reestruturação de suas obrigações financeiras”, no montante aproximado de US$ 10,9 bilhões (ou R$ 56,1 bilhões). Com isso, a companhia terá 90 dias para chegar a uma solução com credores, como donos de títulos e bancos. A empresa já obteve o apoio de credores que representam 39,6% dos créditos financeiros. Em um sinal do componente de incerteza quanto aos próximos passos, as ações ordinárias (com voto) da empresa fecharam em queda de 5,31%, a R$ 3,92. No ano, os papéis acumulam queda de 51,55%. Já os papéis preferenciais (sem voto) caíram 6,71%, a R$ 4,73. Somente ontem, a petroquímica perdeu R$ 216,7 milhões em valor de mercado e é avaliada em R$ 3,4 bilhões. O pedido de recuperação extrajudicial é o episódio mais recente de uma crise que se arrasta há anos. Inicialmente, a petroquímica era controlada pela Novonor (antiga Odebrecht), que teve diversas tentativas frustradas de vendê-la. Em uma crise complexa e multifatorial, que tem origem na Operação Lava Jato, mas também engloba questões de oferta global no setor e o desastre ambiental em uma de suas minas de sal-gema em Maceió, a Braskem viu seu endividamento aumentar, o que também foi influenciado pela alta dos juros (leia mais abaixo). Em junho, a gestora de private equity IG4 passou a deter 50,1% das ações com direito a voto na companhia, enquanto a Petrobras conta com 47%. A IG4, especializada em reestruturação, está à frente do processo de reorganização não só da Braskem, como da Raízen. O que está em jogo Embora não seja conhecida do público por produtos finais, as resinas e insumos fabricados pela Braskem são usados por diversas indústrias. Para Jorge Ferreira dos Santos Filho, economista e professor de Administração da ESPM, um agravamento da crise teria impacto numa gama de produtos: — O ponto econômico mais relevante está no risco de a dificuldade financeira, caso se prolongue, afetar investimentos, capital de giro ou capacidade produtiva. Uma redução importante da oferta doméstica de resinas poderia aumentar a necessidade de importações e tornar parte da cadeia mais exposta ao dólar, aos preços internacionais do petróleo e da nafta e aos custos logísticos. Ele acrescenta que esse movimento poderia atingir segmentos que usam matérias-primas para a indústria, como embalagens, filmes e sacos plásticos, tubos e conexões, materiais para construção, utilidades domésticas, componentes automotivos e produtos industriais: — Se a dificuldade financeira afetar a capacidade operacional ou os investimentos da empresa, uma redução relevante da oferta doméstica de resinas poderia aumentar a exposição da indústria brasileira às importações, ao câmbio e pressionar ainda mais os consumidores. A tarefa agora será buscar, dentro de um prazo limitado, chegar a uma solução com credores. “Essa é a tarefa dos próximos 90 dias”, afirmou uma fonte a par das negociações. O plano não inclui obrigações com fornecedores e clientes, pois não há, nesses casos, atraso de pagamentos. Em 25 de junho, a Braskem já havia obtido uma tutela cautelar por 60 dias, que suspendia execuções de credores. Mas o prazo vencia ontem. Diante do alto nível de endividamento, o pedido de recuperação extrajudicial já era esperado. Os próximos passos Para especialistas, o cenário é desafiador. Segundo Mariana Zonenschein, sócia do Zonenschein Advocacia, o pedido auxilia com tempo, mas não resolve o problema. Os 90 dias são uma janela para transformar uma negociação ainda complexa em um plano definitivo, afirma ela: — Há credores de perfis muito diferentes como bondholders (detentores de títulos) internacionais e grandes bancos brasileiros. E as divergências estão concentradas em quanto de dinheiro novo a empresa precisa. A Braskem pode até voltar a ter operação mais saudável, mas se a dívida continuar grande demais e com vencimentos de juros incompatíveis com a geração de caixa, a conta não fecha. Conversão de dívidas Segundo fontes, a Braskem não pretende se desfazer de ativos nem fazer uma oferta subsequente de ações, operação conhecida no mercado como follow-on. Ou seja, ela não vai levantar recursos emitindo novas ações. A petroquímica já deu pistas sobre as opções na mesa nos próximos três meses. Em comunicado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), ela informou que uma das alternativas previstas no plano é a capitalização de parte dos créditos. Em termos práticos, isso significa que alguns credores poderiam não receber integralmente em dinheiro os valores devidos, recebendo, em troca, participação acionária na companhia. Ao converter parte dos débitos em ações, isso ajudaria a reduzir o endividamento da Braskem. “Ou seja, não necessariamente entra dinheiro novo na empresa; a Braskem reduz sua dívida transformando parte dela em participação acionária”, explicou uma fonte. Os termos dessa conversão não estão definidos. E há dúvida sobre como ficaria a participação do IG4, que tem 50,1% por meio do fundo Shine I. Segundo a Braskem, o objetivo do plano é alongar prazos de pagamento e dar mais tempo à companhia para reorganizar sua operação e recuperar a geração de caixa. O documento prevê um período de alívio, no qual os vencimentos de dívida seriam adiados. Em compensação, os credores poderiam receber melhores condições econômicas e de crédito sobre os valores a receber. Outra possibilidade contemplada no plano é que os principais acionistas da Braskem possam colocar dinheiro na empresa durante o período de alívio, caso isso seja necessário. Ou fazer isso ao final desse período de alívio. Seria uma forma de oferecer uma espécie de garantia de que haverá capital novo caso a Braskem não atinja determinadas metas financeiras que ainda serão negociadas. Na semana passada, a Braskem Idesa, parceria entre a Braskem e o conglomerado do magnata mexicano Carlos Slim na área petroquímica, entrou com pedido de recuperação judicial nos EUA. A ação, protocolada no Tribunal de Falências dos EUA para o Distrito Sul do Texas, ampara-se no chamado Capítulo 11 (Chapter 11), semelhante à recuperação judicial no Brasil. Ou seja, a empresa fica protegida contra execução de pagamentos pelos credores por determinado período.