Alexis Rodriguez passou 7 anos e meio preso antes de ter condenação anulada; nova ação sustenta que analistas alteraram perfil genético para vinculá-lo ao crime 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Homem tem condenação por ataque sexual anulada nos EUA e acusa laboratório de fabricar prova de DNA — Foto: Pexels Alexis Rodriguez, de 42 anos, processa a cidade de Nova York e dois analistas do escritório de medicina legal por uma suposta manipulação de provas de DNA que contribuiu para sua condenação por um ataque sexual. Condenado em 2014 a 15 anos de prisão, ele cumpriu 7 anos e meio da pena antes de ter a sentença anulada em 2021. A nova ação, apresentada no Tribunal Distrital dos Estados Unidos no Brooklyn, sustenta que analistas do laboratório fabricaram resultados para produzir uma correspondência entre o material genético de Rodriguez e vestígios encontrados nas roupas da vítima. O processo também afirma que a suposta manipulação fazia parte de uma prática mais ampla dentro do escritório do médico-legista. — Não quero que isso aconteça com mais ninguém — afirmou Rodriguez. Ataque ocorreu em Staten Island O caso começou em uma manhã de janeiro de 2010, quando uma mulher de 22 anos caminhava para o trabalho em Staten Island. Segundo o relato, um homem a agarrou por trás, puxou o cachecol sobre o rosto dela e a derrubou no chão à margem da estrada. O agressor teria esfregado as coxas da vítima e tentado abrir sua jaqueta à força. Ela conseguiu escapar e entregou à polícia o cachecol e as luvas que usava na esperança de que fossem encontrados vestígios capazes de identificar o homem. Cientistas do escritório do médico-legista conseguiram extrair pequenas quantidades de DNA das roupas. Mais de um ano depois, anunciaram ter encontrado uma correspondência. DNA levou à condenação Rodriguez, então com 26 anos, apareceu como compatível com o perfil atribuído ao agressor. Na época, ele havia sido preso por um roubo sem relação com o ataque. Em maio de 2011, seu DNA foi inserido em um banco de dados estadual. Segundo a ação apresentada posteriormente por Rodriguez, os analistas teriam alterado de maneira significativa o perfil obtido das evidências “para corresponder a um perfil conhecido que havia sido inserido nos bancos de dados nacional, estadual ou local”. Rodriguez foi preso e acusado de tentativa de estupro em agosto de 2012. De acordo com o processo, o DNA era a única evidência que o vinculava ao ataque. A vítima não o identificou como agressor durante um reconhecimento. No dia seguinte ao ataque, ela havia descrito o suspeito como um homem hispânico com cerca de 1,65 metro. Rodriguez tinha mais de 1,80 metro. Mesmo assim, em maio de 2014, um júri de Staten Island o considerou culpado de tentativa de estupro, tentativa de sequestro e posse criminosa de uma arma. Ele foi condenado a 15 anos de prisão. Condenação foi anulada em 2021 Rodriguez passou por unidades penitenciárias como Attica e Otisville e cumpriu 7 anos e meio da pena. Em 2021, um juiz anulou a condenação por considerar que ele havia recebido assistência jurídica inadequada. Segundo a decisão mencionada no processo, o problema estava na forma como a defesa contestou as provas de DNA. Uma contestação adequada poderia ter levado à inocentação de Rodriguez. O advogado Zachary Margulis-Ohnuma afirma que foi a primeira vez que alguém do escritório do médico-legista foi processado por uma análise de DNA que contribuiu para uma condenação injusta. Ação acusa laboratório de fabricar resultados O processo sustenta que a fabricação de provas fazia parte de uma prática estabelecida no escritório do médico-legista. Segundo a ação, analistas frequentemente trabalhavam com amostras de DNA pequenas e complexas demais para produzir resultados confiáveis. Ainda de acordo com o processo, interpretações conflitantes dos dados eram deixadas de lado, enquanto resultados considerados falhos eram apresentados à polícia e posteriormente aos júris como evidências de culpa. A ação cita especificamente Theresa Caragine, cientista sênior do laboratório, e Craig O’Connor, analista. Os dois são acusados de alterar os resultados dos testes para que correspondessem mais de perto ao perfil de Rodriguez. Investigação já havia apontado falhas A nova ação surge mais de uma década depois de o próprio escritório do médico-legista ter iniciado uma investigação interna para verificar se evidências de DNA haviam sido manipuladas de maneira inadequada em centenas de casos de estupro. Um relatório posterior do inspetor-geral do estado encontrou um padrão de erros no laboratório. Segundo o documento, divergências entre analistas eram encobertas, enquanto técnicos apresentavam interpretações subjetivas e falhas como se fossem conclusões científicas a promotores e advogados de defesa. Na época em que trabalhou no caso de Rodriguez, Theresa Caragine já estava sob investigação. Ela deixou o escritório do médico-legista em abril de 2013. Segundo a investigação do inspetor-geral, Caragine havia ignorado protocolos do laboratório e reescrito relatórios quando as conclusões contrariavam sua interpretação. De acordo com a ação de Rodriguez, as circunstâncias de sua saída nunca foram reveladas aos advogados dele. Craig O’Connor, também citado como réu no processo, atualmente é diretor de biologia forense do escritório do médico-legista. A instituição recusou-se a disponibilizá-lo para uma entrevista. Julie Bolcer, porta-voz do escritório, afirmou que a instituição “opera de acordo com as melhores práticas e sustenta a ciência produzida pelos especialistas que trabalham nela”. Vida depois da prisão Depois de cumprir a pena, Rodriguez passou a viver perto de Orlando, na Flórida. Atualmente, trabalha oferecendo transporte para idosos, atividade que descreve como dirigir “um Uber para idosos”. A nova ação, segundo ele, não busca apenas responsabilizar os envolvidos em seu caso. Rodriguez afirma esperar que o processo também chame atenção para outras pessoas que possam ter sido condenadas com base em evidências manipuladas de maneira inadequada. — Não quero que isso aconteça com mais ninguém — disse Rodriguez.