Enquanto aguardava a abertura do semáforo numa cidade-satélite de Brasília, a travessia de uma menina que tentava esconder a enorme mancha de sangue na roupa me chamou a atenção para uma violação de direitos que impacta as mulheres mundo afora: a pobreza menstrual.

O conceito define um fenômeno complexo, transdisciplinar e multidimensional suportado por milhões de pessoas que não têm acesso a recursos, infraestrutura e conhecimento para cuidar da menstruação. Além da falta de produtos de higiene (como absorventes), inclui a ausência de saneamento básico, de água encanada e de informação sobre o ciclo menstrual.

Carências que transformam um processo natural em um problema global de saúde pública e de violação de direitos humanos. Coisa que aqui no Brasil, vale referir, tem cor e classe social bem definidas, pois a pobreza menstrual impacta especialmente as jovens negras e periféricas.

A situação se reflete também na educação. Pelo menos 15% das adolescentes de 13 a 17 anos deixaram de ir à escola no mínimo um dia por falta de absorvente higiênico em 2024, segundo a quinta edição da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE/IBGE).

E, por incrível que pareça, o papel-jornal ainda é um dos recursos utilizados para impedir que o fluxo menstrual vaze e manche a roupa feminina, causando constrangimento e vergonha. Para além da questão de higiene, a prática pode provocar doenças como alergias, infecções e irritações na pele. Sem falar que o papel-jornal, além de sujo, é áspero e machuca.