Quatro em cada dez meninas faltam às aulas pelo menos uma vez por mês por causa de sintomas menstruais — Foto: Magnific RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 05/06/2026 - 17:18 Educação e infraestrutura: Desafios da dignidade menstrual no Brasil O sofrimento feminino, especialmente a dor menstrual, é amplamente ignorado e naturalizado na sociedade. Um estudo do Instituto Alana revela que quatro em cada dez meninas faltam às aulas mensalmente devido a sintomas menstruais. A pesquisa destaca a necessidade urgente de educação menstrual, infraestrutura adequada em escolas e integração entre saúde e educação para abordar questões como a endometriose. A Lei nº 14.214/2021 e iniciativas do UNICEF e UNFPA buscam melhorar a dignidade menstrual, mas desafios persistem. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O sofrimento da mulher é em grande parte ignorado e naturalizado em nossa sociedade. Cólica menstrual? Dói mesmo, aguenta. Gravidez é difícil, enjoa, cansa. Parto normal? Se prepare para gritar. Cesária? O pós operatório é difícil... Os seios racham na amamentação, é assim mesmo. Tristeza no puerpério? Não tem motivo, está tudo bem... Calor, suores, insônia, nervosismo... perimenopausa é dureza... Isso tudo se soma à sobrecarga do trabalho de cuidado: mais de 80% dele é realizado pela mulher. Não reconhecido ou remunerado, invisível, solitário. O primeiro momento de banalização da dor feminina é justamente quando a menina se torna mulher. A dor menstrual é cercada de silêncio e angústias, e a escola é muitas vezes onde se manifesta. Um levantamento inédito realizado pelo Instituto Alana com o Instituto Equidade.info, publicado em fevereiro de 2026, ouviu 2.551 estudantes, 303 professores e 181 gestores de escolas públicas e privadas de todo o Brasil. Os dados são perturbadores. Quatro em cada dez meninas faltam às aulas pelo menos uma vez por mês por causa de sintomas menstruais: cerca de 3,6 milhões de alunas. Das que faltam, 16% perdem de dois a cinco dias por mês. Seis em cada dez alunas que menstruam têm cólicas fortes ou moderadas, que perturbam o dia e exigem medicação, e fazem 45% delas faltar à escola. O dado se junta a outro que deve preocupar os pediatras: 36,5% das meninas brasileiras tiveram a menarca antes dos 10 anos. A mediana nacional é 11 anos — portanto, a maioria das meninas chega à primeira menstruação ainda no Ensino Fundamental I, sem nenhuma orientação, sem saber o que esperar, e numa escola que não tem condições para apoiá-las. E quanto mais precoce a menarca, mais intensa é a dor. E entre as meninas que menstruaram até os 10 anos, 43% relatam cólicas fortes. Entre as que menstruaram após os 14, esse índice cai para 28%. Meninas negras e brancas faltam em proporções semelhantes — cerca de 34%. Mas as meninas negras perdem 50% mais dias de aula. Falta de banheiro adequado e de produtos de higiene aparece como motivo de falta especialmente no Centro-Oeste (30,2%) e no Norte (18,9%). O problema também afeta quem ensina. 10% das professoras faltaram ao trabalho ao menos uma vez no último ano por motivos menstruais. Os meninos ignoram a questão: 36,8% deles dizem não pensar no assunto e apenas 23,7% acreditam que a menstruação pode atrapalhar escola ou esporte. Esse desconhecimento é o solo em que o tabu cresce, onde a menina aprende a lidar com sua dor em silêncio. O Instituto Alana fez dessa frente uma nova área estratégica de atuação: "Ser menina não deveria doer”. Ela propõe quatro mudanças estruturais: reconhecer a dor como problema coletivo, com protocolos de faltas justificadas; levar educação menstrual para o Fundamental I, antes que a menarca chegue; garantir infraestrutura básica de banheiros e insumos; e integrar saúde e educação, inclusive com triagem clínica, já que condições como endometriose — que afeta 10% das mulheres e pode levar até 12 anos para ser diagnosticada — pode ter seu início na adolescência. O arcabouço legal existe, ainda que timidamente. A Lei nº 14.214/2021 criou o Programa Nacional de Dignidade Menstrual, que prevê distribuição de absorventes gratuitos pelo Farmácia Popular. O UNICEF e o UNFPA documentaram que mais de 4 milhões de meninas não têm acesso a itens mínimos de cuidados menstruais nas escolas, e que 713 mil vivem sem banheiro ou chuveiro em casa. Menstruação faz parte do desenvolvimento feminino, e precisa ser abordada na consulta pediátrica, na sala de aula e nas políticas públicas. Ignorar a dor menstrual ou trata-la como problema privado é uma forma de invisibilizar um sofrimento que começa no corpo e se reflete na vida pessoal, escolar e profissional.